20 Anos de Baile Funk: Sergio Goldemberg, Diretor do Documentário ‘Funk Rio’

Houve um tempo romântico do funk carioca. A bem da verdade, a música era menos funk que Miami Bass com algumas paródias ingênuas. As roupas tinham mais pano. As dancinhas, nem tão sofisticadas quanto o Passinho do Romano, frequentemente se resumiam a pular de um lado a outro em um filinha — o bonde. Aliás, esse bonde era o único que recorria ao exagero do romantismo em forma de porrada, só pela diversão, entre um lado e outro do baile. Está tudo no documentário Funk Rio, de Sergio Goldemberg. E ele confirmou isso pra gente numa conversa.

“Todo mundo ia pros bailes. Era o programa do fim de semana. Em todos os lugares do Rio de Janeiro, da periferia do Rio, milhares de jovens iam pro baile funk”, me disse ele, lembrando dos dias em que gravou o filme. Foram cerca de dois meses de pesquisa e duas semanas de filmagem que resultaram no documentário que faz, nesse ano, vinte anos. Sergio acompanhou e registrou garotas e garotos da periferia carioca que extravasavam os picos da juventude no pancadão calorento dos bailes na quadra da Mangueira ou no Fluminense de Niterói.

“Era uma celebração bem carioca que acontecia o ano todo”, contou ele. Bailes como Furacão 2000 e Cashbox eram os mais famosos e figuras conhecidas até hoje, como Romulo Costa e DJ Marlboro, já davam as caras. O funk da terra, ao contrário, ainda engatinhava. “As letras tinham um pouco da ingenuidade da marchinha. Tocava uma brincadeirinha alguma hora, mas aí esfriava o baile e os DJs tocavam algum sucesso”, lembrou Sergio. Eram faixas como “Spring Love”, do Stevie B, que dariam na pergunta clássica: qual a diferença entre o charme e o funk?

Sergio contou que havia uma diferença essencial entre as festas. Havia baile de coreografia, onde a rapaziada embrasava na pista, e bailes de galera, onde o lado A contra lado B fazia mais sucesso. “O baile da Mangueira era um baile de coreografia, pra dançar, inventar passinhos, namorar, mostrar roupa nova”, contou o cineasta. “O som era tão potente que era difícil de conversar. Às vezes tinha problema com vizinhança e mudava de lugar, mas argumentavam que igreja podia fazer barulho.”

Se o baile era bom, o baile era uma uva com um desfile da beca mais bonita do armário. “O pessoal botava aquelas roupas com uma certa improvisação, uma coisa espontânea, aquela coisa carioca. Bermuda, chinelo, camisa social, camisa de time de futebol, bermuda de marca, tênis de marca”, lembrou Sergio. Como boa parte da grana tinha ido pra ficar na estica, no bilhete da condução e na entrada do baile, a bebida era pouca. Drogas também. O negócio era dançar e fazer um agá pra dar uns amassos.

Sergio disse que às vezes o pau comia no lado de fora dos bailes de galera. Isso é pontuado no seu documentário, mas era explorado a esmo pelos jornais da época. Eles não perdiam a chance de associar o funk ao crime. “Existia tráfico, mas era uma escala diferente. Dentro dos bailes tudo era controlado”, explicou Sergio. Por causa desse atrito, a filmagem que ele dirigiu teve de ultrapassar barreiras. “Não deixavam filmar qualquer baile. Existia um preconceito que disséssemos que o baile era lugar de briga, mas a gente teve certa liberdade de fazer”, lembrou.

Como tinha trabalhado um bom tempo com Eduardo Coutinho, Sergio pegou a manha de conquistar as pessoas trocando uma ideia. No filme, seus personagens se abrem pra câmera menos no baile que no conforto de casa ou dando um rolê pela praia — mais um episódio que arrepiava o cabelo molhado de água salgada da classe média carioca, como contou o cineasta. “Falaram que os chamados arrastões que aconteceram naqueles verões eram feitos por funkeiros, mas isso não tinha nada a ver. A turma se encontrava no baile e ia a praia no domingo. Eram amigos se divertindo como qualquer um.”

Vinte anos depois do lançamento, o Funk Rio não é o único na prateleira dos filmes sobre funk — ainda bem —, mas Sergio acredita que a resistência ao gênero e seus personagens ainda vive apesar da força da música. “Acho que o preconceito continua. Tem um certo fascínio da classe média pelo exótico. Tenho impressão que isso acontece, mas não sei se acabou o preconceito. Acho que tem pessoas que de fato vão curtir o baile, mas ainda é periferia, favela. As músicas estão viajando melhor, mas o evento ainda é um pouco segregado.”


Matéria originalmente publicada em dezembro de 2014 no Thump.

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