A cultura de rua (não) será midiatizada

Tarefa árdua é encontrar algum veículo da imprensa brasileira que fale de cultura popular de verdade. Exemplo rápido: a revista RAP Nacional estreou em outubro passado enquanto na França a revista RAP MAG estreou em 2004. Guardadas as diferenças de mercados editoriais (que levaram ao fechamento da revista francesa ano passado, não sem a permanência de outras) e de público, por que tanta demora no Brasil, uma vez que a cena hip hop nos dois países começou na mesma época?

Falta um pouco de vontade, por parte da imprensa e do público também, de olhar para além do centro. Não é difícil. Tem que chegar um pouco mais ali na Cidade Tiradentes, no Campo Limpo, no Capão, em Parelheiros. Na rua, no sentido amplo, tem muita coisa acontecendo, sempre tem. O que incomoda é a demora até isso chegar ao bloco de notas dos jornalistas de cultura. Foi assim com o samba, que há um certo tempo virou até objeto de pesquisa acadêmica. Foi assim com a música nordestina, trazida por Luiz Gonzaga para o sudeste e para a Globo. E tem sido assim nos últimos anos, quando o funk virou produto de exportação — mas ainda é muito marginalizado pela inteligentzia.

Um dos caras que tentou acabar com essa margem é o cineasta Leandro HBL, que tirou o retrato dessa cena funkeira (e até então carioca) no documentário Favela on Blast, de 2008. Agora ele vem fazendo algo parecido em São Paulo com uma arma de outro calibre. A série Reis da Rua,  transmitida desde agosto passado na TV Cultura,  conta a história de pessoas que fazem a diferença na música, na dança e na arte dos lugares onde vivem. Mais do que isso, os curta-documentários mostram as culturas urbanas que nascem na periferia, mas não aparecem nas páginas da Ilustrada ou do Caderno 2 de forma aprofundada, investigativa e embasada.  Nunca vi, pelo menos, a roda de samba do Nego Blue (também funkeiro), o bar do Seu Filé (vai  Corinthians!), o sensualize da Pucca (em tempo: é impressionante o poder e a rapidez da subversão/renovação da música eletrônica) e outros causos.

É o dilema Tostines: movimentos como esses são marginalizados porque os veículos grandes não falam deles ou os veículos grandes não falam deles porque são marginalizados? Sei que tem a ver com vender mais.

Recomendo começar pela história MC Dedê, funkeiro que tem mais fãs no Orkut do que o que você tem de amigos no Facebook — e o qual tive o prazer de entrevistar para essa matéria da INFO, ano passado.

Olha o kit!

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