A invasão do funk e a invasão da polícia

Hoje quem tem valor é o cara que fica na rua empinando moto, é o cara que não trabalha, fica a noite no baile funk. O cara que tem que levantar no dia seguinte de madrugada é o trouxa da sociedade.

Essa afirmação partiu do novo vereador da cidade de São Paulo, Adriano Lopes Telhada, em entrevista à revista Época. A conversa foi motivada pelo escabroso auto-exílio do jornalista André Camarante, supostamente relacionado a uma matéria que desagradou o Coronel Telhada. Agora reformado da Polícia Militar, foi sob tal título que Telhada conseguiu o 5º maior número de votos nas últimas eleições municipais. O massivo apoio ao Coronel e sua declaração refletem a postura da população paulistana em face a muitos problemas da cidade. Pois o funk não passa disso para eles: problema.

Tomar como princípio que cultura popular é coisa de gente desocupada é uma falácia velha de guerra. Primeiro por destituir de valor uma expressão do povo alegando que ela não está associada a bens sociais, como o trabalho. Para mais, criminaliza uma manifestação que, não só é cultura, como também é lazer. Muito provavelmente para quem não trabalha, em sua maioria jovens, quanto para quem trabalha, uma vez que as opções oferecidas pela cidade são caras e inacessíveis a essas classes.

Nesse contexto os bailes funk tomam as comunidades da metrópole e só não estão à revelia do Estado porque saíram da pasta de Cultura e passaram à pasta da Segurança Pública. Tão potente quanto o pancadão é o vínculo existente entre criminalidade e algumas das festas, que vai do consumo ilegal de drogas à presença de menores, passando, é claro, pelo incômodo a moradores próximos dos locais onde os eventos são realizados. O que parece não fazer tanto barulho nas altas cúpulas, no entanto, é o óbvio ensurdecedor de que os problemas vêm da ausência de políticas públicas que tirem a cultura do banco dos réus.

Em vez de suprir a necessidade de espaço para eventos, centros culturais, apoio e, num olhar mais amplo, emprego e educação, os governos preferem o choque militar. Os fatos estão nessa matéria da Pública, sobre a invasão da polícia nas festas da periferia de São Paulo. Como conta a história recente, os bailes repetem a cracolândia e insistem em ressurgir. E como conta a história mais antiga, tal qual o samba, vai ser difícil matar o funk.

[Pra entender um pouco mais do funk em São Paulo a dica é assistir alguns dos documentários da série “Reis da Rua”, dirigido por Leandro HBL, que também assina o filme sobre funk carioca “Favela on Blast”]
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