A jornada para entender e traduzir o manuscrito Voynich

Entre tantas realizações, o engenheiro britânico Alan Turing morreu sem ver uma máquina capaz de passar pelo teste que leva seu nome, assim como não conseguiu decifrar um dos livros mais enigmáticos da história: o Manuscrito Voynich. Acontece que, em julho de 2014, um software russo engambelou parte de um júri ao se passar por humano. E, desse lado do Equador, pesquisadores brasileiros aproximaram ainda mais esse texto de uma tradução.

Mas calma, lá. Assim como o disfarce da máquina não é o trailer de um Blade Runner com 2001: Uma Odisséia no Espaço, o trabalho liderado pelo doutor Diego Amancio não oferece o exato significado da misteriosa obra. O professor do Instituto de Ciências Matemáticas e Computação da USP chegou a resultados que confirmam que o Manuscrito, pelo menos, tem sentido. E, ao mesmo tempo, esses dados também podem ajudar a aumentar a inteligência de bots que enfrentam o teste de Turing, como o Eugene Gootsman.

“Nossos resultados mostraram que o Manuscrito Voynich apresenta uma grande quantidade de padrões estatísticos que se assemelham às línguas naturais”, conta Diego. Além de ratificar a existência de um nexo no texto, suas conclusões rebatem muitas teses que tratam a obra como uma pegadinha muito bem feita por algum fanfarrão das antigas.

Até então, as teorias do embuste caminhavam em paralelo com os estudos sobre o Manuscrito. Análises químicas comprovam que o livro foi feito entre 1404 e 1439, mas somente no início do século XX ele ganhou o mundo nas costas do livreiro polonês Wilfrid Voynich. Ele dá nome ao livro porque, na obsessão em descobrir seu conteúdo misterioso, acabou tornando-o famoso.

Sua empreitada foi mal-sucedida, mas graças a seus esforços a história despertou a curiosidade de cientistas e criptógrafos como Alan Turing. Pudera: o Manuscrito Voynich tem cerca de 200 páginas escritas em caracteres desconhecidos e repletas de desenhos de plantas bizarras, mulheres mergulhando em piscinas estranhas, bichos com tentáculos e constelações do zodíaco.

Crédito: Wikimedia Commons

Em sua tese, publicada na revista científica PLoS One, Diego aplicou métodos estatísticos ao texto para entender se a obra era um besteirol codificado ou um texto com pé e cabeça. Assim, em vez de considerar possíveis significados, ele transformou as palavras em bolas e sua vizinhança em cabos de conexão. É a chamada modelagem de rede complexa.

“Em textos, cada palavra distinta representa um vértice. Duas palavras são conectadas por uma aresta se elas aparecem vizinhas no texto”, explica. Programando em C e usando o software Network 3D, Diego criou gigantescos modelos orbitais em que palavras e suas ligações se mostravam segundo suas presenças e localizações no texto.

O físico comprovou que os sistemas são, em 90% dos casos, similares aos sistemas de livros conhecidos, como a Bíblia. Isto é, trata-se de um texto de verdade. Além disso, usando conceitos como frequência e intermitência, que medem ocorrência e concentração de um termo no texto, Diego encontrou as palavras-chave do Manuscrito.

O modelo gigantesco criado por Diego Amancio.

São termos como cthy, qokeedy e shedy. Pois é, embora cada letra original tenha ganhado um equivalente no alfabeto latino, não é nada que faça muito sentido para reles seres humanos. Digamos que Diego enxerga isso como uma peça da borda do quebra-cabeça. “Estas palavras podem ser estudadas mais profundamente por criptógrafos e estudiosos do manuscritos”, diz.

Passado fantástico, futuro real

O Manuscrito de Voynich está confinado na Biblioteca Beinecke da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Diego revirou as páginas do livro na sua versão digital. Mesmo depois de tanta pesquisa, ele somente arrisca um palpite quanto ao conteúdo do texto. “Acredito se tratar de um compêndio de práticas medievais envolvendo receitas medicinais, descrições astrológicas e metafísicas e rituais de fertilidade, como sugerem as figuras”, diz.

No começo de 2014, Stephen Bax, professor de linguística aplicadas da Universidade de Bedforshire, no Reino Unido, deu a entender que o palpite de Diego está correto. Em entrevista ao Motherboard, Bax apontou um de seus artigos em que, tal qual fizeram os primeiros egiptólogos, ele estabelece significados a partir de letras maiúsculas, nomes próprios e imagens ilustrativas. Assim, o especialista acredita ter encontrado palavras como “touro” e “coentro”.

Sua linha de pesquisa foi duramente criticada por outros estudiosos. O site Cipher Misteries, autoridade no assunto, tratou Bax como aquele cara que pega o bonde andando e quer sentar na janelinha. Ele dá de ombros e segue tentando quebrar o código. Afinal, críticas assim são comuns no meio acadêmico e, no caso do Manuscrito, parecem até mais recorrentes.

Jorge Stolfi, especialista em processamento de linguagens naturais, estudou o Manuscrito durante sete anos. Embora acredite se tratar de uma transcrição de algum idioma do leste asiático, o professor da Unicamp evita afirmar com certeza o que diz o livro. “Mesmo que minha hipótese esteja correta, não me arrisco a prever quando será decifrado”, ele disse em entrevista a Revista FAPESP.

Crédito: Wikimedia Commons

Outro especialista em linguagem criado nas áreas exatas, Osvaldo Oliveira Jr. é mais receoso ainda sobre a tradução do Manuscrito. O professor e diretor do Instituto de Física da USP São Carlos é um entusiasta das possibilidades trazidas por pesquisas que envolvam análise de dados e máquinas na chamada rede complexa.

“Queremos usar física estatística para analisar texto. Essa é uma limitação de hardware em 2014, mas talvez não seja assim em 2020”, afirma. Ao lado de Diego e dos pesquisadores Eduardo Altmann e Diego Rybski, Osvaldo também assina o artigo sobre o Manuscrito. Segundo o estudo, os princípios aplicados no livro podem identificar o autor de um documento desconhecido, encontrar o sentido mais provável de uma palavra ambígua e determinar a qualidade de uma tradução.

Esses avanços apontam para um estágio em que máquinas sejam capazes de conversar entre si para nos fornecer exatamente o que precisamos. “No mundo ideal as máquinas conseguiriam acessar a internet”, afirma ele. O professor Osvaldo vislumbra esse cenário sem medo algum de imaginar uma Skynet onipotente ou um bot Eugene que seja tão humano quanto qualquer um de nós. O Manuscrito Voynich pode não ter nada de fantástico, mas o futuro que ele indica é coisa de ficção.


Matéria originalmente publicada em agosto de 2014 no Motherboard.

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