A nova ressureição da única máquina de discos de vinil do Brasil

Quando era mais novo, eu “dava” uns CD-Rs com músicas gravadas para alguns amigos. Era um trabalho complicado. O cara – geralmente alguém que ligava o computador para usar o Paint, o Chat do UOL e o FreeCell – fazia uma seleção de músicas; eu baixava aqueles MP3s no Kazaa sem me importar com a qualidade dos arquivos – contanto que não fossem aquelas versões com a chiadeira proposital do RIAA –; depois, convertia as faixas para WAV no Winamp; e, enfim, gravava o CD com alguma versão do Nero que também tinha sido gravada em algum CD.

Esse esquema é realmente coisa de moleque se comparado ao trabalho de Arthur Joly e Bruno Borges, o DJ Niggas. Os dois burlaram o sistema tradicional de produção de discos com uso de moldes de acetato – o processo de prensagem em larga escala. Num pequeno estúdio na Zona Sul de São Paulo a dupla criou a Vinyl-Lab, a única produtora do Brasil capaz de gravar discos diretamente nas bolachas de vinil. Com muitíssima paciência, muita grana, alguma engenhosidade e um pouco de sorte, eles botaram pra funcionar a Neumann AM32B, de 1957, um torno de corte de discos tão histórico quanto complicado.

Arthur Joly prepara a máquina de fazer vinis. Crédito: Felipe Maia

“Quando o Xerxes pegou essa máquina, não existia isso que a gente faz hoje: ninguém botava uma fé que seria possível”, conta Niggas. DJ e produtor por trás do selo Brasilis Grooves, ele farejava um equipamento para sua própria produção de discos de vinil há alguns anos quando encontrou Xerxes de Oliveira, em 2011. Conhecido na cena drum and bass, o DJ Xerxes descobriu a Neumann no quarto do sobrado de um certo Carlos Moura, antigo funcionário da Estúdios Reunidos. Um boato o levou até sua casa e a viúva do técnico de corte vendeu o torno em 1999.

O aparato teve sua primeira sobrevida após um trabalho de restauração em 2002. No mesmo ano, a PolySom dava adeus à fabricação de discos. Única na América Latina, a unidade passava às mãos de um grupo evangélico enquanto o vinil já definhava ante o CD – e os CD-Rs e MP3s entrariam logo em seguida para acabar com esse império efêmero, como a gente sabe. A Neumann então só produzia discos em acetato, material sensível e denso. “Você não pode levar vinte desses numa mala porque ele é pesado e sofre com impactos”, explica Niggas.

A dificuldade na utilização somada à produção restrita e pouco comercial levaram a geringonça com cerca de meia tonelada a mais uma viagem ao cemitério da tecnologia. Ali ela ficou até que fosse comprada por Niggas. “Como produtor, DJ e dono de um selo, era um sonho ter isso”, diz. O sonho às vezes virava pesadelo, com ele passando noites e dias à fio tentando entender o aparelho com mais de cinquenta anos, manuais em alemão e informações espalhadas pela internet. Após muitos ajustes e alguns acertos – Niggas gravou uma faixa em um CD como se fosse um disco, o híbrido mais bizarro que se tem notícia –, o novo dono resolveu pedir ajuda. Chamou um, dois, três técnicos e nada. Apelou para Joly.

“Alô, é da Reco-Masters? Eu sei que você mexe com solda, com masterização e eu tenho uma máquina de fazer vinil”, lembra o produtor e músico por trás das “Organizações Reco”. O SOS telefonado de Niggas levou Joly até a Neumann. “Quando eu a vi, não consegui falar que só ia ajudar a consertar. Chamei o Milton Lange, um amigo genial da eletrônica, e me propus a entrar na história como investidor e sócio na máquina”, conta. Joly se desfez de trinta sintetizadores para financiar o projeto – e olha que ele tem uma relação muito apaixonada por esses aparelhos. Mais uma rodada de ajustes e a máquina voltava à vida (outra vez). Só faltava um detalhe: além de saber se ela estava em perfeito estado, era preciso saber usá-la.

Pau na máquina

O funcionamento da Neumann é complexo. A partir de uma matriz externa, o sistema transfere o áudio para amplificadores até a cabeça do aparelho. Ela é, como diz o nome, o cérebro do torno. Enquanto sua base gira o disco, a agulha da cabeça desenha os sulcos na superfície de vinil aquecida por lâmpadas. Eles serão lidos como som em uma vitrola.

Oscilações, poeira, ruídos externos, calor ou frio demais podem botar tudo a perder. “Você depende de ene fatores para chegar a esse resultado: temperatura, profundidade, ângulo, aspiração, volume, equalização que entra na cabeça”, explica Niggas.

A dupla recorreu a Florian Kaufmann, suíço especialista em tornos de corte, para o toque final. Por quatro vezes ele não pode ajudá-los, por um acaso, Joly encontrou em Nashville a pedra de roseta da máquina criptografada: um curso específico para aparelhos como o Neumann.

O produtor rumou para os Estados Unidos, entendeu o que tinha em mãos e voltou com uma ressalva. “Meu professor lá nunca tinha feito o corte diretamente no vinil, ele só tinha feito o corte no acetato. Ele achava que a gente era louco”, conta o produtor. E eram mesmo. “A gente botou uma música, cortou o disco e quando a gente ouviu, mano, a gente ficou muito louco!”

“Até 2002, o disco cortado no torno era apenas em acetato”, conta Niggas. Segundo ele, outros produtores fazem o processo diretamente no vinil desde então, mas a técnica utilizada pela dupla, além de ter suas especificidades de equipamento e manipulação, é única no Brasil.

Em poucos dias ela será aplicada a um torno de corte importado diretamente da terra do dub. “O cara que me vendeu usava ela na Jamaica, então deve ser boa”, afirma Joly. A Vinyl-Lab, que já tem sete clientes no histórico, passará a operar a pleno vapor, mas ainda voltada a projetos de pequenas tiragens e preferencialmente, com faixas já masterizadas, isto é, preparadas para gravação. Obviamente, as músicas tem de ser de autoria do cliente ou autorizada por terceiros – nada de MP3 e CD-R por aqui.

O processo de confecção com a Neumann e sua nova parceira segue de maneira artesanal. Niggas afirma que a máquina é regulada uma cópia após a outra. “Cada disco é diferente do outro: existe um microespaço de diferença entre as faixas que pode variar”, conta. Os valores variam entre R$ 150 para discos de sete polegadas (compacto) e R$ 200 para discos de doze polegadas (LP) em mono.

Outro serviço disponível é o direct cut, em que uma música é captada no estúdio ao mesmo tempo que é gravada no vinil. “Você obriga a banda a ensaiar bastante para o disco sair de uma vez só, algo que se perdeu muito com a gravação digital”, diz Joly.

A volta ao analógico agora já é uma certeza graças à (até agora) imortal Neumann e seus incansáveis donos. “O Niggas investiu muita grana, eu vendi uma coleção de sintetizadores, mas no dia que a gente gravou o primeiro disco isso já valeu a pena. Se não fizesse mais nenhum, a gente teria essa história para contar. O sonho já foi realizado”.


Matéria originalmente publicada em julho de 2014 no Motherboard.

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