A produção de grave e peso de Sants

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Diego Santos fuma na mesma proporção com que mudou de cidades durante sua vida. As sete guimbas embocadas em três horas de conversa estão para as treze cidades em que viveu em apenas sete anos. Nessa conta de (quase) dois pra um o rapaz carregou consigo o que cabia na mala: Marlboro Ice, trilhas sonoras de videogames, computadores de conexão questionável e softwares de produção musical.

Rebento da geração pós-internet abaixo da linha do Equador — e por isso mesmo um early adopter das tecnologias capengas que por aqui baixaram –, Sants foi criado a bits e beats. Aos 16 anos já tinha faixas publicadas na Europa por selos obscuros de música eletrônica. Já neste ano, aos 21, ele lançou seu primeiro álbum (Low Moods) e produziu um remix para a unânime Erykah Badu, parte de uma das gerações mais prolíficas de Detroit junto de J Dilla, Madlib e Flying Lotus — de quem Sants é fã irremediável.

Sobre esse e tantos outros fatos o jovem produtor e DJ é comedido. Não se considera nem um artista, nem parte de uma cena. “Sou o cara que está ali no canto mandando ver no sintetizador e tem uns três malucos olhando!”. Nessa outra proporção certamente há um rato de fórum, um jornalista metido a besta e um produtor ávido por novidades. Dessa mistura sai o Future Beats/Brazilian Bass, o guarda-chuva que agora cobre Sants e parceiros como Cybass, Sono e CESRV, o Cesar Pierri. Junto dele Diego fundou a Beatwise, selo dedicado a sonoridades tão fluidas quanto as redes e tão grossas quanto graves.

Se tudo isso, assim como a música dele, soa muito rápido, recortado e desconhecido para você, acalme-se. Durante a troca de ideias Sants também contesta a necessidade de tantos gêneros para a já nichada música eletrônica, além de traçar um possível futuro para sua produção e contar um pouco sobre as nuances que cercam seu trabalho autoral — já reconhecido por gente como Chico Dub.

Conta sua história com a música.

Meu pai é funcionário público e eu já me mudei muito. Já morei em treze cidades durante sete anos. Eu tinha internet, mas era um bagulho caro ou discada… Não tinha como eu descobrir nada. E eu não saia, era moleque, não conhecia ninguém. Ficava jogando videogame o dia inteiro e boa parte da minha formação musical saiu de trilha sonora de videogame. Saiu de jogar Tony Hawk, jogar FIFA Street. Foi aí que eu comecei a ouvir música e me interessar por música. Quando eu estava na quinta série eu fiz aula de piano um tempo, mas eu acho isso muito mais tátil. Me possibilitou tocar as coisas e saber do som, mas eu não tenho uma noção do tipo “nossa, está na escala tal, esse acorde é bemol”. A minha noção é muito mais “eu sei que tocando ali vou conseguir aquele som; fazendo aquela pestana vou conseguir aquele som”, mas eu não sei em que nota está, não tenho essa noção. Eu comecei ouvindo trilha sonora de videogame. Aí eu descobri esse negócio de drum’n’bass no GTA. No GTA 3 tinha uma rádio de drum’n’bass irada! Fui procurar e aí descobri que tinha Marky, que tinha uma cena rolando aqui, meus primos iam em rolê de drum’n’bass na zona leste. Eu comecei a ouvir rádio, o Marky tinha um programa numa rádio e eu fui me interessando muito pelo som. Aí com 15 anos eu fui atrás mesmo. Comecei a ir na galeria, comecei a comprar vinil…

Vinil de drum’n’bass?

Isso. Com dinheiro de mesada. Aí me mudei: meu pai foi trabalhar na Bahia e eu fui pra lá. Chegando lá, tinha um cara chamado Chico Correa. Ele é formado em música na UFPB e ele é de lá, Juazeiro da Bahia, mas formado em João Pessoa. Ele tinha uma banda chamada “Chico Correa Eletronic Band”. Ele pegava gêneros nordestinos e misturava com gêneros eletrônicos, jazz também. Uma salada mesmo. Ele me ensinou a produzir de fato. Eu aprendi a sequenciar coisas, fazer coisas no software. O que me chamava a atenção foi sempre “nossa, como ele faz esse barulho”. E o Chico Correa foi o cara que me ensinou a produzir, mostrou essas paradas. Como compõe um beat e tudo o mais. Aí depois, com 15 anos, eu comecei a tocar lá. Voltei pra cá com uns 16 e comecei a tocar em festa de drum’n’bass na zona leste. Produzi e cheguei a lançar nuns selos lá fora. Aquela parada no BeatPort, no vinil.

Mas com 16 anos você já tinha música de sua autoria lançada na gringa?

Sim. Mas aí esse negócio de drum’n’bass começou a morrer. Isso em 2007, em 2008, e começou a vir essa parada do French Touch, do House Maximal, Justice, essa galera toda. E eu comecei a ir nesses rolês: festa Crew, que rolava no Glória… Comecei a ouvir essa galera e comecei a produzir esse tipo de som. Comecei a fazer French House, Maximal, Eletro Punk, essas coisas malucas… Isso até eu descobrir o Flying Lotus. Aí fodeu minha vida de novo! Foi o cara que trouxe as paradas que eu ouvia quando moleque na Vila (Matilde), como rap. Ele me trouxe essa coisa de volta. O som não tem muito barulho. É mais groove, mais sample, mais jazzístico e aí eu comecei a produzir de fato esse tipo de coisa em 2011. Eu estava cansado. Estava tocando em muita festa pop e eu estava de saco cheio. Aí comecei a fazer algo mais pra mim. Sampleei “Samba a Dois” do Los Hermanos e fiz um beat. Comecei a fazer mais nessa onda. E estou nisso até hoje. Comecei a fazer um som mais autoral mesmo. Fazer coisa minha.

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E como você cria música hoje?

Crio num software que se chama FruityLoops.

Eu esperava que você falaria outro software!

É! Todo mundo espera.

A gente relaciona o FruityLoops com uma cena mais de gambiarra.

Total. O tecnobrega, o funk é FruityLoops. Mas eu comecei usando o Reason. A galera do drum’n’bass usava bastante isso.

Você descobriu isso muito em fórum na internet, né?

Pra cacete. O drum’n’bass só morreu porque virou música de nerd. Virou música de fórum. A galera fazia música pra postar no fórum. Um bagulho escroto. O nível era tão aprimorado — a galera que produzia fazia tudo tão bem — que você ia nas festas e não conseguia mais dançar. Era tipo ir a um bar e ouvir uma banda de jazz. Ficou muito refinado. Ficou chato. Morreu porque refinou demais.

Entendi. E você só usa o FruityLoops?

Usava o Reason e fui pro FrutiyLoops tem uns três anos. Ligo os dois juntos: jogo o Reason dentro do FruityLoops e uso o (Ableton) Live bastante também. No FruityLoops eu tenho as manhas, já, é tipo a caneta e o papel. Mas ele tem essa coisa muito amadora, muito handmade. Rebusco o som no Ableton e masterizo no Logic. Chega uma hora que você se vira de qualquer jeito em qualquer software que você usa.

E você se sente ligado a alguma cena?

Sim e não. Eu não vejo como cena. Vejo amigos. A galera com quem converso, com quem saio, com quem estou sempre junto. Pra quem está de fora é uma cena, mas eu não me sinto ligado. Quando a gente fala cena remete a um lance de movimento, pessoas engajadas em prol de algo e não é muito isso que acontece. Cada um faz uma coisa: tem quem toque, tem quem produza, tem quem faça roupa. Um ajuda o outro mas não em prol de um movimento. A galera da Voodoohop traz muito mais um conceito de cena na minha cabeça porque é um som deles, é uma coisa deles, uma cultura de festas, um público que vai nessas festas, mas no nosso caso não é assim. Até porque a gente não tem um clube, uma festa que faça isso. É meio solto.

Vocês não tem um clube nem uma festa ainda ou vocês não tem essa vontade de criar um lance de vocês?

Não. Eu eu o Cesar (CESRV) temos um selo e a gente vai lançar essa coisa fora. Eu me sinto ligado ao selo, a essa parada de procurar gente que está fazendo esse som aqui também e juntar com o nosso. Estou preocupado em achar essa galera, levar adiante, achar uns rappers e produzir e tudo o mais. Mas não me sinto ligado a uma cena, não.

E tem diferença entre seu papel como DJ e como produtor?

Com certeza. Quando você é DJ você pode tocar o que você gosta, o que você está ouvindo, mas você ainda tem o fator de estar vendendo um produto e você não pode negligenciar esse fator. Não que você seja obrigado. No tipo de rolê que a gente toca você não vê essa obrigação.

Mas isso é porque você já chegou a um estágio em que isso não acontece, certo?

Sim. Óbvio. Mas por mais que não venha gente pedir, você tem que entregar isso. Você quando é DJ tem que entreter também. Eu vou tocar minha referência mas eu vou tocar algo pra entreter também. Quando você é produtor você… Só se você tiver na cabeça fazer algo muito vendável mesmo que você vai colocar o público em primeiro lugar. Eu me sinto mais solto pra fazer o que eu quero porque as pessoas que acompanham meu trabalho como produtor vão gostar do que eu vou fazer. Não me sinto coagido. Acho que a diferença é essa: não ter a preocupação de fazer uma faixa de pista. Você tem a liberdade poética.

Por que você produz esse tipo de música?

Acho que porque é o que mais tem a ver comigo. Acho que é algo que tem mais a ver com o tipo de música que gosto de ouvir em casa, do tipo de lugar que eu vim, as minhas referências, os lugares que eu vou, o tipo de roupa que eu uso. Já fui muito em rolê indie, em rolê de rap. Produzo isso porque tem mais a ver com meu habitat. O tipo de arte que acho legal, apesar de ter outras coisas que me agradam muito, é isso com o que mais me identifico.

E você se considera artista? Sem pretensões!

Boa pergunta. A pretensão acontece de outras pessoas. Me sinto um cara fazendo algo que gosto e tem um espaço pra isso, mas eu não me sinto artista. Pra mim artista é uma coisa que engloba muitos mais adjetivos. Me vejo mais como um compositor e produtor que como um artista. Pra mim o Jaloo é um artista. Ele produz as músicas dele, ele canta, ele tem noção de mixagem, ele tem uma performance que é dele, tem um jeitão que cativa. Eu posso até ter isso e eu não sei, mas eu não me sinto assim. Sou um cara que está ali no canto mandando ver no sintetizador e vão ter três malucos olhando!

Quem e o quê te influencia na sua produção?

Muita coisa. Eu vou citar mais por cima porque são pessoas que fazem bem qualquer coisa que cai na mão deles. Uma delas é o Flying Lotus, um cara que faz rap bem, house bem… O cara que vai me influenciar mais é o cara que você não vai conseguir rotular. Ele é muito versátil. E acho que a gente conseguiu fazer algo legal a partir do momento que não podem chamar isso de dubstep, de trap, de hip hop. Lá fora todo mundo chama de beat scene porque realmente é isso: é bumbo, caixa, chimbau, um sample, um synth, uma ideia. Não tem um fator, não é um movimento: são pessoas com seus computadores em casa fazendo coisas que gostam. Não tem pretensão. Quem me influencia muito é quem faz isso. Quem é versátil no que faz. O Flying Lotus é um cara, o Machine Drum é um cara. E a gente leva muitos selos a sério, como BrainFeeder, NightSlugs, Warp e StonesThrow.

Existe diferença da música que você toca na balada e a música do estúdio?

Sim. E ainda existe a diferença do DJ set pro live. No set boa parte das músicas não são suas e mesmo que tenha faixas suas você vai ter que pensar em pista. Você tem que fazer as pessoas dançarem. Não precisa tocar uma música pop, mas tem que tocar uma referência a isso. Por isso o DJ virou uma parada maluca, meio piada, até. Há quem leve esse negócio de pista muito a sério e as pessoas não criam mais nada, só reproduzem. E no set a preocupação de reproduzir é maior que a de criar mesmo. Isso, claro, quando você lida generalizando. A galera da Metanol, pra mim, tem meu respeito porque eles tocam o que der na telha, o que eles gostam. E causa um estranhamento familiar nas pessoas que vão nas festas deles. Acho isso legal.
O live, por outro lado, são só faixas autorais minhas. Às vezes entra uma música de um amigo, mas é outro conceito. Eu faço camadas: coloco oito canais num live e cada faixa eu divido em quatro partes (bateria, synth, vozes e efeitos); e dessas quatro partes eu divido a música em cinco (intro, break, drop, parte 1, parte 2 e outro). Aí vou brincando com loops, misturando vocais, drops. Vou brincando com canais também: pitch, repeat, reverb, delay. E aí eu não tenho necessidade de fazer pista como num DJ set, então é uma proposta diferente. É mais aberto por ser uma apresentação mesmo. Gosto muito mais de fazer live: primeiro por ser autoral e segundo que você se sente em casa muito mais.

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Você faria música se não houvesse essa tecnologia?

Não. Não pela tecnologia, mas porque é do meu tempo. É temporal. Não tem como ouvir só esse tipo de música e tocar esse tipo de música e bater na cabeça “agora vou fazer uma banda de jazz”. Um dia pode ser que eu faça isso, mas não é do meu tempo, não o que eu cresci ouvindo, não faz parte do meu estilo de época. Não pela ferramenta, mas por ser do tempo. É como o Flying Lotus. Ele é sobrinho da Alice Coltrane e ele poderia estar aí tocando baixo pra cacete.

Mas esse é o tipo de coisa que quando você fica sabendo você passa a olhar a produção do cara com outros olhos. Você não tem como negar que a produção dele, embora eletrônica, tem uma levada jazzística.

Sim. Mas é aquela coisa: só é do jeito que é porque é eletrônico. Tem muito isso. Galera que produz dubstep, mas no fim o cara ouve reggae. É uma conversa, mas é uma roupagem que funciona melhor pra pessoa. Isso é minha birra com o Daft Punk. Eles são caras incríveis sampleando. Você pega o Homework, o Discovery e é tudo dois moleques em casa sampleando o que eles amavam ouvir e fazendo bateria. Eles são bons nisso e não há nada de errado nisso. Tem gente que nasceu pra compor e tem gente que nasceu pra samplear. E agora eles estão em outra vibe. Às vezes é um sonho de moleque fazer um álbum todo tocado. Mas por que surgiu tanta treta nesse álbum? Porque é um álbum tocado; pela primeira vez o cara tentou se apropriar das mesmas ferramentas dos ídolos. Funcionou e não funcionou por causa disso. É a mesma coisa se o Flying Lotus fizer um disco de jazz: pode ser bom, mas não vai ser o Flying Lotus. Eu vejo que tem muito a ver com quem você é e com sua época. É por isso que eu vejo umas paradas como o Tame Impala e o Black Keys, que fazem som dos anos 70, e fico impressionado. Porque mesmo assim você tem alguma coisas que é deles.

Entendi. E por que você acha que a música eletrônica é tão pulverizada? Precisamos de tantos estilos?

A eletrônica ou é muito regional ou é muito aberta. Quando ela é regional existe uma necessidade de afirmar “eu sou daqui e esse som é daqui”. Então você tem o tecnobrega, você tem o detroit house, o chicago house, o juke, o footwork, o uk garage. Você tem aquela necessidade: isso é Londres, esse é meu rolê, essa é minha galera, é uma parada meio protecionista. Por outro lado existe o fator piegas e até meio coxinha. É aquela parada: The Killers vai tocar e aparece no Fantástico. Aí você tem que dizer que isso é uma banda indie, assim, assado. Aquela coisa meio forçada. É um som que se tornou popular, mas ninguém sabe de fato o que é. Acho que na eletrônica existe um preconceito no sentido de todo mundo saber o que é, mas todo mundo tem uma visão superficial do que é. É tudo tunts-tunts. Isso está mudando muito. Tem o The xx com o Jamie xx, ou o Mike Pathon que era envolvido com Trip Hop e fazia o Tomahawk. Tem alguns artistas que fazem esse bend de brincar com tudo. O próprio Odd Future, que tem uma galera que toca em banda e tem rolê hardcore com eles. Na eletrônica ainda tem muito essa divisão: música e música eletrônica. As pessoas não entendem que é música. A mídia é muito culpada por isso. Ou o cara conhece demais e faz uma resenha para um público muito fechado, como a Resident Advisor ou a XLR8R; ou para um público intermediário, como a Pitchfork falando pra uma galera que sabe do que se trata mas não é uma galera com background, então eles falam do artista, falam da cena, contextualizam bem, não aprofundam, mas dão um olhar geral com referência — isso é bom; mas se você vai pra uma Rolling Stone ou pra algo maior em que se lida com um público grande, você não tem como falar de termos específicos. Mas essa pulverização é mais por esse lance regionalesco. Você tem o techno que surge com o Kraftwerk na Alemanha e aí vem o Afrika Bambaataa com o rap e depois o Miami Bass e tudo o mais. E lá nos Estados Unidos em Chicago é um som, em Miami é um som, na Florida é outro som, em Baltimore é outro som. É house com uma timbragem que muda muito pouco, mas tem a ver com o rolê. É um som novo que ainda nasceu nesses tempos regionais. E por boa parte do som ter nascido na periferia carrega esse lance de ser real, ser rua. Traz muito isso. E depois da comercializada que deu piorou isso porque bagunçou. Tudo ficou meio vago.
Mas hoje a gente está chegando num tempo lindo porque antes a galera do drum’n’bass não ia no rolê de techno nem de house. Mas hoje a gente está caminhando pra outra coisa. Eu acho que a divisão se dará muito mais por propostas que por gênero. Você terá propostas de artistas com um tipo de som em que haverá vários ramos, mas não vai ser nada tão relevante para que você tenha necessidade de descrever e criar um gênero. Será tudo momentâneo e muito rápido.

Mas você realmente acha que hoje em dia isso ainda é regional? Porque, se for assim, você é de uma região que não é aqui.

Isso que eu falo. Essas tretas caíram por terra. Mainstream não é mainstream, underground não é underground, regional não é regional. Tudo é uma coisa só. Esse lance seapunk e underwave, por exemplo. Os caras nem se ligam. Eles usam essas imagens porque é coisa da infância. E poem um golfinho porque é engraçado, porque é toscão. É tipo um Site dos Menes.

Uma grande piada interna…

É. Não é algo “estou querendo criar um movimento artístico”.

Entendi. E pra finalizar, no meio disso tudo, você é geração X, Y ou pós-internet?

Z.

Fotos do Fernando Prado

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