A silenciosa epidemia do lança-perfume

Enquanto solto meu qualquer conhecimento sobre a história do funk, Douglas Celestino dos Santos vai falando “lembro, lembro, lembro”. O produtor musical vive na Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo. Ele conhece bem o que toca na sua quebrada. Estava por lá quando Mc Dedê estourou com dez perfis no Orkut, quando os fluxos tomaram conta das vielas cercadas por paredes de alvenaria e, mais recentemente, quando o loló passou a tomar a cabeça e a vida da molecada. “O cheirinho-da-loló está matando mais que a arma do bandido ou da polícia”, sentencia Douglas.

O cheirinho-da-loló está matando mais que a arma do bandido ou da polícia Douglas dos Santos

Foi o caso do seu irmão, Mahal Farouq, morto em dezembro de 2013 em decorrência do elevado consumo da droga. “Os médicos falaram que foi parada cardíaca, mas disseram que ele morreu por causa do cheirinho-da-loló. O atestado de óbito dele deu parada cardiorrespiratória”, afirma Douglas, que conhece pelo menos mais cinco casos iguais. Subnotificadas ou desconhecidas, as mortes causadas pelo lança-perfume não entram em levantamentos ou estudos e tardam a coçar a pulga atrás da orelha de órgãos oficiais. Não à toa, uma das poucas pesquisas sobre o consumo de lança fala de uma epidemia silenciosa.


“Não se vê ninguém falando disso, nenhum médico, nenhum pesquisador. Isso é relegado”, afirma Paulo Malvasi. Doutor em saúde pública, ele voltou seu estudo à dinâmica dos entorpecentes na periferia de São Paulo. Entre pesquisas de campo e atendimento a profissionais de acompanhamento social, ele formou uma lista com relatos de morte causadas pelo uso excessivo de loló, além de histórias de venda da droga em biqueiras e festas e de sua produção artesanal ou industrial. No centro, um público muito jovem. “O lança tem apelo nos mais novos, de 13 a 15 anos, por conta do efeito rápido, da risada”, explicou ele.

Basta colar no fluxo pra sacar que essa cena é real. “Quando passo em baile funk eu vejo muita molecada, crianças mesmo, usando. Onde você olha tem alguém com a latinha. Onde você olha tem alguém com um vidro de lança”, me disse o Douglas. “Tem várias essências, vai da brisa de cada um: morango, baunilha, uva, tem tudo. Não tem restrição.” Vendido em pequenos frascos idênticos àqueles usados em amostras grátis de perfume, o loló tem preços que variam menos que a quantidade de aromas: algo entre cinco e dez reais. “Faz uma vaquinha. Com um real de cada um você compra um vidrinho”, disse ele.

Caso houvesse um manual de uso da droga, ele diria agite antes de usar. Balançando garrafinhas ou latinhas, a meninada pode passar uma noite inteira baforando o vapor que sai desses recipientes. Não à toa relatos contam que algumas das mortes decorrentes aconteceram pela manhã. “Eles dizem ‘morreu porque estava numa festa baforando loló’”, lembra Paulo. O coice da droga é tamanho que alguns desmaiam pouco tempo depois ou caem no chão. “Se você bater a cabeça na queda, é quase fatal. Os médicos dizem isso porque o negócio vai direto pro cérebro”, disse Douglas. Ele está certo.

“Esses inalantes têm passagem pela massa encefálica e causam pequenas alucinações e alteração da percepção durante alguns minutos, alguns segundos”, me explicou Frederico Garcia, médico psiquiatra coordenador do Centro de Referência em Drogas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele também é membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), entidade que compilou diversos estudos sobre drogas inalantes em 2012. Embora amplo, o trabalhou atestou que garotas e garotos experimentam o loló pela primeira vez entre 14 e 15 anos — média que pode abaixar em situações de vulnerabilidade.

Apreensão de 16 frascos de lança-perfume realizada em Sumaré. Crédito: SSP/SP/Flickr

“Isso é extremamente danoso pro cérebro do adolescente porque ele está se construindo aos poucos. Ele é mais tolerante a substâncias psicoativas como as drogas e podem ficar mais impulsivos, menos tolerantes a frustrações”, explicou Frederico. Embora as sequelas sejam certas, ele não crê que o consumo isolado de loló cause mortes salvo exceções como reações alérgicas. “Nessas festas eles acabam bebendo muito, se hidratando pouco, consumindo outras drogas e alterando o metabolismo hepático. Aí começa a ficar arriscado, mas não é só uma droga que leva a óbito.”

OLHA O LANÇA!

O especialista me contou que em Minas Gerais tem quem use inalantes pra “escutar os sininhos”. É uma alusão ao zunido ouvido logo após o consumo. Em São Paulo, chamam isso de tuim. Em Pernambuco, o loló ganhou o apelido de sucesso. Basta dar uma volta em Recife ou Olinda durante o Carnaval para perceber o cheiro de lança. Perdi a conta de quantos garotos vendiam a droga a toque de caixa nas ruas estreitas e lotadas do Carnaval. O preço não muda tanto em relação a São Paulo, mas a receita varia. Ninguém sabe ao certo o que é o loló.

“A composição dessas drogas é muito variável. Geralmente é uma mistura de álcool, éter e clorofórmio em porções diferentes”, explica Frederico, certo de que o lança-perfume usado atualmente é mais potente que as misturas dos bailes de carnavais de antigamente. Procuramos o Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico do Estado de São Paulo (DENARC) para tentar entender melhor do que é feito o lança, mas a resposta foi um tanto limitada. “O lança-perfume é uma droga manufaturada com solventes químicos à base de cloreto de etila”, informou o DENARC em nota ao MOTHERBOARD.

O órgão foi mais detalhista, contudo, nas operações de controle da droga. Segundo o DENARC, foram realizadas 31 apreensões do entorpecente no estado de São Paulo em 2014, número que representa um aumento de 100% em comparação ao ano anterior. Se consideradas as ocorrências que mencionam o termo loló, a taxa é de 13 apreensões, mas o aumento de operações em relação ao ano passado é de 200%. A nota oficial também afirma que foram apreendidos 1.114 frascos da substância, assim como ressalta uma maior atenção ao entorpecente durante esse ano — especialmente no mês de fevereiro, época do Carnaval.

Nesse Breaking Bad de baforar, é certo que parte da produção corre sob o jugo do Primeiro Comando da Capital (PCC). Durante sua pesquisa, Paulo chegou a verificar que o lança-perfume aparecia ao lado de maconha, cocaína e crack em alguns pontos de venda — biqueiras, para os iniciados, ou lojinhas, sob um olhar mais empreendedor. E a droga funciona bem nessa engrenagem produtiva do crime. “Uma substância que tem um uso repetitivo, que é barata de se produzir, que não depende de estruturas criminosas de transporte internacional, enfim, tudo isso aumenta o lucro e minimiza o risco das organizações”, explica ele.

Ainda segundo o especialista, também existem produções independentes de fundo de quintal ou pequenas fábricas. O documentarista Renato Barreiros confirma. “Em cada quebrada tem alguém que faz. Esse é o grande perigo. Não tem fórmula, o cara cheira e morre. E como tem essência, o cara não sente o cheiro do solvente”, me disse. Ele registrou a cena do pancadão em São Paulo nos filmes “Funk Ostentação – O Filme” e “NoFluxo”. “O lança está pro funk assim como o ecstasy está pras raves, mas, assim como na rave, não está todo mundo drogado no fluxo”, teorizou.

Um cara que aparece como personagem e trilha sonora dos filmes é o MC Bin Laden. O funkeiro tem ao menos três músicas com lança no título e dá pra perder a conta de quantas vezes a droga é citada em suas letras com licença poética para sabores, metáforas e sinônimos. Quando a gente trocou ideia, o Bin Laden me disse que não usava nenhum tipo de droga. “Só faço música na brisa dos outros.” Foi nesse barato que o funkeiro estourou, tornando-se um dos principais medalhões do novo funk de São Paulo ao lado de nomes como MC Brinquedo e MC Pedrinho.

Até mesmo o Passinho do Romano, dança que embrasa a molecada nos fluxos, parece ter origem na chapação do lança perfume. “Vai descendo até o chão/Deixa os braços a desgovernar”, canta o MC Crash em “Sarrada no Ar”. “A música está cantando o que acontece. O lança existia antes. O MC Bin Laden fala que o verso do lança de maracujá ele pegou de um cara que estava vendendo no fluxo”, me disse o Renato Barreiros. Faz um teste: escuta “Lança de Coco” pra tentar sacar o tuim.

O loló pode ser a febre do momento em São Paulo, mas não é exclusividade de pico nenhum. Utilizado em bailes desde o começo do século XX, o lança-perfume foi proibido no governo Jânio Quadros alegando-se que a substância, descrita como cloreto de etila, era nociva à saúde. Desde então a droga passeou de norte a sul em festas do meio universitário, em paninhos cheirados durante micaretas e, sem abandonar a festa da carne, chegou ao mundo do funk paulista.

Nesses quase cem anos de uso, nem mesmo a classe médica encontrou maneiras para lidar com o consumo abusivo de inalantes. “As urgências estão sempre preparadas para esse tipo de coisa, mas não há o reflexo de pensar que aquela situação específica é por uso de drogas”, afirmou Frederico. Para Paulo Malvasi, a opinião pública superestima o uso de maconha, crack e cocaína, cujas descrições de uso excessivo são menos frequentes, em detrimento de uma enganosa leveza dos inalantes. “Algo destrutivo e violento como o lança-perfume é naturalizado”, finaliza ele.

Douglas concorda. “Meu irmão começou a usar maconha com uns 16, 17 anos. A droga mais forte, o lança-perfume, foi com uns 18 anos. Ele reclamava de dores no peito, não conseguia respirar. Pra uns o lança é fraco, mas ele é tão mortal quanto qualquer outra.” Hoje, a foto do Mahal Farouq, o irmão de Douglas, estampa a página do Fluxo. Criado após a morte do jovem, o grupo tenta, na ironia do nome, conscientizar os jovens da Cidade Tiradentes sobre a pancada fatal que pode ser uma baforada de loló.


Matéria originalmente publicada em fevereiro de 2015 no Motherboard.

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