A síntese da música paraense no Terruá Pará 2012

“A língua é minha pátria. E eu não tenho pátria, tenho mátria. E quero frátria”. Com esses versos, Caetano Veloso homenageia a língua do patropi em Velô, disco de 1984. Algum tempo antes, o camaleão buscava uma fraternidade maior de idioma e território. Em 1968 ele bradava, na sua estreia, o “Soy loco por ti, América” de Gilberto Gil. Quatro anos depois, Milton Nascimento e Lô Borges cantavam o cone sul em “San Vicente”. Mais uma Olimpíada e, em 1972, Belchior anasalava o verso em que era “Um rapaz latino-americano”.

Enquanto de um lado caminhava esparsa uma Música Panamericana Brasileira, no Pará, longe dos holofotes e mais perto do coração do continente, essa outra MPB vinha a passos largos e mambembes. Foi preciso tempo para que esses passos se firmassem e para que o próprio país começasse a reconhecê-los. Nesse novo olhar, o festival Terruá Pará é um marco.

Não há exagero em ressaltar a importância do espetáculo, já em suas terceira edição — a maior e mais longa até agora. Por mais de duas horas, e durante três dias, estendeu-se no Auditório do Ibirapuera uma colcha de chita costurada com retalhos de uma produção local que tem, do avesso e ao contrário, variedade e unidade. A ampla crônica paraense contada sobre o palco tem várias assinaturas — e aí é obrigação mencionar o papel da Funtelpa (Fundação Paraense de Radiodifusão), que desde 2006 comanda o evento –, mas cabe aqui o espaço a quem dá cor a essa história das Américas. A começar pela via primeira: o mar.

O Porto de Belém é a entrada principal da influência caribenha. Nos contêineres vieram, ao decorrer do século, Mambo, Zouk, Salsa, Merengue e uma penca de outros gêneros. Coisas como o reco-reco, as síncopes e as células rítmicas ficaram na umidade paraense, ressoando em obras como Nasci Para Bailar, composição de João Donato e Paulo André Barata. Foi ele quem tocou o cha-cha-cha e começou a tirar o público para dançar na noite de domingo. A banda de apoio, que seguiu o show inteiro com algumas substituições, tinha o baixo jazzístico-nortista de MG Calibre, os sopros diversos de Esdras de Sousa e a guitarra(da) virtuosa de Pio Lobato.

São nessas cordas que a latinidade insular se encontra com a latinidade continental. Lobato foi o primeiro a trazê-la ao Auditório, com a música que leva o nome do criador do estilo. A guitarrada, patrimônio cultural imaterial do Pará, é obra sofisticada da simplicidade de Mestre Vieira. Foi o então moço pegar uma guitarra há mais de 30 anos para juntar, nela só, as progressões harmônicas e arpejos do choro e a percussão e ritmos da lambada, do carimbó e da cumbia — para além da Amazônia brasileira, a Amazônia andina.

O ponto de encontro de ilha e floresta é base para um dos maiores fenômenos populares no Brasil dos últimos anos, o Calypso. E se Chimbinha não foi convocado para a seleção paraense, não se pode reclamar dos titulares. Além de Pio Lobato, que também acompanhou o chamego cadenciado de Dona Onete, havia o fundador Mestre Vieira, o pau-e-corda de Toni Soares, o bandolim de Mestre Curica, a gaita de Mestre Laurentino e o guitar hero Mestre Solano, caboclo e expressivo tal qual Jimi Hendrix.

Nessa tribo onde tem, com razão, muito cacique pra pouco índio, as mulheres protagonizam boa parte da renovação. Gaby Amarantos, uma das últimas a se apresentar, continua sua escalada rumo à unanimidade pop e popular no Brasil. Lia Sophia enxuga o carimbó e não hesita em adicionar marcações eletrônicas no seu “Ai, Menina”. Keyla Gentil, menos aveludada, urra na excelente versão de “Galera da Laje” e assusta mais que Liliana Saumet, vocalista de outro expoente do guettotech global, o Bomba Stereo.

O tecnomelody do Gang do Eletro é a ponta de lança da produção musical paraense, mas certamente ainda há o que se descobrir por lá. O estado do Pará desempenha, hoje, uma importante função na redescoberta musical do Brasil, o de dentro e o das fronteiras. Além das aproximações geográficas, as aproximações cronológicas engrossam o caldo bagunçado que é a nossa música. Algo Kitsch, Pop e Cult, como diz o título do segundo álbum de Felipe Cordeiro.

O bigodón tem a guitarra no sangue vinda do pai, Manoel Cordeiro, e viveu nesse caldeirão amazônico-caribenho-tecnológico. Tudo ecoa na sua faixa “Legal e Ilegal”, tocada no meio da apresentação. Quando voltou ao palco, Felipe veio acompanhado de todos os artistas do Terruá Pará 2012. Uma delas, especialmente, fez valer mais seu sobrenome que seu já célebre nome: Fafá de Belém.

As fotos são do Fernando Prado.

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