Alexisonfire sobrevive em passagem única pelo Brasil

O Alexisonfire morreu.

Respirava há alguns anos por aparelhos, embora a morte clínica já tivesse atestado feito e timbrado. O fim benzido e enterrado teimava a se confirmar. A alta da Unidade de Tratamente Intensivo renovou esperanças. Mas a vida é um sopro — como disse outro nome que está nos obituários — e 2012, implacável. O ano do fim do mundo levou consigo uma das maiores bandas do post-hardcore mundial. A única e última vinda da banda ao Brasil nesta sexta foi um velório em tom de celebração. Antes tarde do que nunca, o Cine Joia virou um pequeno mausoléu para um público que ansiava há quase uma década por essa apresentação.

Por baixo dos panos pretos, naquilo que se costumava chamar underground, bandas com nomes de quase 140 caracteres foram os tutores de uma geração que passava a encontrar na internet algo além do pop rock nacional, o pastiche das rádios. As I Lay Dying, Tony Danza And The Tapdance Extravaganza, …And You Will Know Us By The Trail Of Dead…, August Burns Red, Agnostic Front, Lamb of God e Comeback Kid são alguns dos nomes da última leva da cena pós hardcore que se desenvolveu especialmente nos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá nos primeiros dez anos do século.

Nesse tal pos-modernismo que antecipou a ideia de cauda longa, o gênero em si fragmentou-se em tantos outros estilos. Screamo, Metalcore, Grindcore, Crust e por aí vai uma lista barulhenta. O que os mantinha na mesma pasta no diretório “Músicas” eram riffs velozes, quebras constantes no andamento, vocais guturais ou berrados, afinações baixas e muito peso. Enfim, coisas que incomodam os pais tanto quanto a cena que tomava corpo em São Paulo. O finado Street Rock reunia toda a sorte de jovens — dos odiados emos aos temidos “Punks Phuneral” — enquanto o Hangar 110 fazia verduradas para a alegria de StraightEdges que só não usavam X nas mãos porque os eventos eram matinês e a fiscalização dormia no ponto.

Quase que atendendo a uma demanda, pouco a pouco surgiram bandas nacionais, caso do Are You God?, Envydust e Gloria. Pouco a pouco os shows pequenos deram espaço a palcos maiores, nos quais os headliners eram as bandas que pariram essa nouvelle vague. Com o tempo, o filho bastardo cresceu, se desgarrou, enfraqueceu, ganhou barba e chegou aos vinte e poucos anos. A idade veio e o Alexisonfire, não. O fim da banda seria a pá de cal nos fãs, mas a turnê de despedida presenteou o público que, senão homegêneo, tinha muitos representantes da última geração pós hardcore no Brasil.

Com dez anos de estrada e quatro álbuns no repertório, o show de despedida dos canadenses precisava ser marcante. Algo que fosse relevante para ser contado pelos que foram, que merecesse ser invejado pelos que não foram. A primeira impressão ficaria tanto quanto a última. Nessa jogada, as variáveis só podiam dar em uma apresentação catártica, embora irregular, ora catalisada, ora arrefecida pelo calor equatorial da casa de shows na Liberdade.

O inferno posto era tamanho que já na primeira música, “Young Cardinals”, o berrador George Petit rasgou sua camiseta. A rebeldia se mostrou compulsão, estendida até a última canção com roupas atiradas pela plateia. A faixa abre-alas é também a que inicia o último álbum do grupo, “Old Crowns/Young Cardinals” (2009). O disco que pretendeu ser um panorama maior no trabalho do grupo cumpre menos sua função que o próprio Alexisonfire sobre o palco. Se um busca um refinamento maior em melodias enquanto olha para bases de metal e raízes hardcore, o outro passeia pela produção da banda alternando momentos de observação/audição com circlepits/batecabeças — evidentemente atrapalhados pelo chão escorregadio do Cine Jóia.

Pra completar o cenário desfavorável da casa, o áudio continuou a não ajudar. Como continuar não quer dizer novidade, vale noticiar que aos poucos o som foi se desembolando. Faixas como “No Transistory” e “Pulmonary Archery” perderam riffs acelerados e agudos, embora tenham ganhado com a gritaria do público. O esquema continuou até o bis: as músicas dos primeiros anos, sujas e sem tanta apuração técnica, empolgaram mais; não foi o caso de faixas como “This Could Be Anywhere In The World” e “Accept Crime”, mais diretas e menos nostálgicas em suas propostas.

A escolha e a formação de um estilo próprio acentuam-se nessas faixas como nos últimos dois álbuns. Sob a batuta de Dallas Green o Alexisonfire criou sua assinatura na cena: campos harmônicos pesados e melodias doces. O vocalista e guitarrista da banda, contudo, foi o primeiro a tirar a mão da obra em prol de seu projeto solo “City and Colors”. Não à toa a turnê de despedida só foi possível com a sua volta. Sobre o palco, o outrora jovem rapaz parece mais um jovem adulto, que prefere dormir cedo de vez em quando. Seu desempenho é o que se espera do que se ouve nos discos, um tanto aquém do guitarrista e também vocal Wade MacNeil. O gordinho barbudo brinca com tapping e palm mute no seu instrumento e, em certo ponto, chora ao dizer que nunca irá se esquecer daquele dia.

Pudera. O episódio aconteceu perto do fim da apresentação de quase duas horas e tem bem a cara da banda. Agressivos, mas nem tanto, os caras do Alexisonfire não fizeram valer a longa espera porque não voltam mais. Fosse o contrário, entretanto, talvez o show não fosse de pancadaria a apreciação, de brabeza a calmaria. Coisas obrigatórias a uma banda que, de certo modo, perpassa a história do post-hardcore aqui e no mundo.

Farewell Tour

A turnê de despedida do Alexisonfire continua em duas apresentações na Austrália e uma série de concertos no Canadá até o fim do ano. Junto dos shows, a banda anunciou também um box com todos os álbuns em vinil, outtakes, fotos e outros itens.

(As fotos são do portal BeStyle)

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