Alto-falantes para dois ouvidos

Como um monte de inventos atuais, os fones de ouvido começaram numa das centenas de tentativas de Tomas Edison com eletricidade. O alto-falante já chegou a ser um trambolhão de ferro, mas foi miniaturizado até os minúsculos modelos que conhecemos hoje. Existem até tipos maiores, o extra-auriculares, com qualidade mais fiel na transmissão de som e uns tão baratos quanto um CD pirata. Tem pra todos os gostos. Mas por que raios tem gente que insiste em ouvir sua música em alto volume publicamente?

O fone de ouvido foi um dos primeiros aparelhos que transformou o consumo de mídia, no caso a música, pessoal, individual e instransferível — salvo quando os decibéis pulam da orelha do indivíduo, tamanho o volume. A TV veio depois, o rádio fala pra quem quiser ouvir e uma peça de teatro depende de uma platéia, só pra mencionar uns exemplos.

Escutar música pelo headphone ou in-ear buds é ter acesso privado em ambientes públicos, e isso é quase impossível nos anos 10. E nos anos 10 é bem possível ouvir mais do que músicas: pelos fones passam notícias, podcasts, conversas gravadas, mesas redondas ou, quem sabe, aquela canção do Aviões do Forró que, pro resto do mundo, não combina com seu terno.

O mesmo resto do mundo separa-se de quem ouve os fones de ouvido. Em uma altura média já é possível ter uma vaga sensação de um isolamento, tal qual uma bolha faria. Ainda vemos o mundo ao redor, mas conseguimos fechar os olhos por um tempo, não? Se puder, qualquer som vai chegar ao seu ouvido, ainda que você tampe as orelhas.

Portabilidade do som é outro conceito que Edison não devia imaginar, mas que é seu descendente, em última instância judicial. Dá pra levar os fones, principalmente os mais baratos, pra qualquer lugar. Com um gadget e uma entrada P1 ou P2 você tem seu cardápio auditivo em mãos facilmente, sem ter de compartilhá-lo com ninguém.

Os fones permitem ser individual num tempo em que tudo paira no coletivo. Não que esse tempo seja ruim, mas se for para compartilhar o Aviões do Forró, o John Cage ou o Minus, The Bear, que seja usando uma Boombox de respeito — que deixa no chinelo o alto-falante capenga, mas irritante, de um Motorola V3.

[ssba]

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