Felipe Maia

Jornalismo

Cem anos de prostituição

As bochechas coradas, as pernas rotundas, as vozes ternas, os cabelos brancos. Há quem veja nessa descrição uma avó perfeita. Há quem veja um corpo excitante. Há quem veja tudo isso em dobro. “Nós sempre fomos mais que putas”, diz Louise Fokkens. Ela e sua irmã, Martine, são as prostitutas mais antigas de Amsterdã. E são gêmeas.

Louise nasceu pouco antes de Martine. Louise sempre foi a primeira em tudo. É ela quem fala à Tpm. Com 20 anos, Louise também deu início aos trabalhos da dupla. Forçada pelo marido a se prostitur, logo se livrou dos jugos dele para cair na vida com as próprias pernas. Martine veio a seguir. “A maioria das garotas faz isso porque não tem muitas opções”, diz Louise.

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Esporte, Jornalismo

​Fotos de franceses mais ou menos tristes após a derrota na Eurocopa

Minha memória mais viva do tétrico dia do 7 a 1 é flanar pelas ruas de São Paulo como barata tonta. Perder é ruim. Perder em uma competição de peso em casa é um coito interrompido. E você fica na mão sem saber o que fazer, pra onde ir, como terminar.

Nesse domingo, dois anos após nossa tragédia particular, os franceses passaram pelo mesmo purgatório — com menos humilhação. Vítima de um desconhecido Éder matador, a seleção francesa perdeu a Eurocopa 2016 para Portugal por 1 a 0.

O jogo foi no mesmo Stade de France onde Zidane acabou com o Brasil em 1998. Esse é outro trauma que guardo na cabeça, mas nem por isso sou antipático aos franceses. Na dor a gente se reconhece.

Por isso dei um rolê em Paris logo que o jogo acabou. Vi DJs tocando para pistas vazias, garçons varrendo calçadas com mais folhas de árvore que copos, gente que não sabia como voltar pra casa antes do amanhecer e lanchonetes de kebab sem fritas. Tristeza.

Mas também vi uma galera de bem com o que tinha acontecido. Portugueses — muitos de uma de uma geração que serviu de mão de obra de base na França, como foram os nordestinos em São Paulo — e franceses.

De bicicleta, pra provar que não estava tão tonto quanto os parisienses, passei pelos bairros de Menilmontant, République e Bastille. Um trajeto no norte-nordeste apinhado de bares da cidade que, mesmo na derrota, consegue festejar.

Esse senhor me chamou para dentro do bar em que ele estava. Ele queria porque queria que eu tocasse piano. Mas eu não sei tocar, disse a ele. Depois alguém apareceu e fez uma versão embromation de “Chega de Saudade”.

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Cultura, Jornalismo

Choffer sobre duas rodas

Valdo Rodrigues de Sousa tem uma excelente memória. Ele sabe de cor dezenas de caminhos espalhados pela cidade de São Paulo. Nada que um motoboy não tenha na cabeça, ainda mais no seu caso: Valdo é o motoqueiro oficial do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) — ele também lembra da maioria das corridas que fez com o político.

O que Valdo não consegue dizer com precisão é a data da primeira vez em que atuou como chofer-motociclista. Estima dez anos desde o dia em que o estafe do senador ligou para a sala da sua microempresa na rua Pamplona. “Eu falei: ‘Pegar o senador?! Vamos lá ver’. Imaginamos que fosse trote.” Não era. Naquele dia, por volta das 18 horas, o senador subiu na garupa do motoboy e eles fizeram em 15 minutos um trajeto que, de carro, levaria 1 hora. Outro dia Valdo levou Suplicy do centro até a zona leste, e uma vez, na rota mais longa, foi da casa do político até Carapicuíba, na Grande São Paulo.

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Cultura, Jornalismo

Semente uruguaia

Raquel Peyraube acende um cigarro. Não é maconha, é tabaco. “Não uso marijuana”, avisa com arrastado sotaque castelhano. A uruguaia é uma das maiores especialistas em entorpecentes do mundo. Ela é uma das lideranças que colocaram em curso a legalização da maconha no Uruguai. O resultado dessa luta veio em maio de 2014, quando o presidente José Mujica sancionou a lei que prevê a produção e o consumo regulamentados da Cannabis no seu país.

Hoje, Raquel é assessora do Instituto de Regulação e Controle da Cannabis, órgão criado com a recente lei, e também diretora clínica do Iceers, ONG global para promoção de terapias médicas naturais. Ocupada em se certificar de que a lei tenha a eficiência desejada, a médica arruma tempo para palestrar e discutir com líderes de outros países. Ela acredita que a aprovação da lei é tão importante quanto sua divulgação. “O Uruguai mostrou que existe uma mudança possível, mas cada país tem de buscar sua própria mudança”, afirma.

Em entrevista à Tpm via Skype, Raquel falou sobre sua jornada no Uruguai e comentou questões brasileiras.
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Cultura

Um trenzinho de doido

Durante a perseguição a um caminhão colorido, cheio de luzes e personagens, um garoto de bicicleta aborda o fotógrafo Felipe Larozza. Papo vai, papo vem, ele descobre que somos de São Paulo e, com um olhar curioso, indaga: “Como são os trenzinhos de São Paulo?”. Em São Paulo não tem disso, não, mas em Ribeirão Preto, onde vive o pequeno, todo mundo tem uma história com trenzinho. Contarei algumas das que ouvi e todas que vivi ao desbravar o mundo de reluzentes colossos mecatrônicos, seres antropozoomórficos, casamentos entre profano e sagrado e confrontos de todos os tipos em uma cidade rodeada por um denso cinturão de cana de açúcar no interior de São Paulo.

Distantes do centro da cidade, nas quebradas onde as classes se confundem, jovens de máscaras e corpos vestidos com roupas malucas dançam, pulam, correm, brincam. Veículos imensos arrastam pequenas multidões ao som dos últimos lançamentos musicais em meio a uma erupção de cores. O povo admira, interage, para ou vira a esquina. Correm luzes como as das aparelhagens de Belém, gambiarras de baile funk, sistemas de som de trio elétrico, referências carnavalescas, símbolos infantis e delírio adolescente.

A nossa bandeira foi investigativa e nossa entrada, pacífica. A ideia platônica de trenzinho da alegria estava em nossa mente: um veículo mais ou menos comum que reboca vagões coloridos seguido por pessoas fantasiadas formando um pitoresco comboio cuja única função é circular pelos pontos turísticos de cidades pequenas — a orla, o coreto, a igreja, a ponte mais bonita. Sabíamos, contudo, que em Ribeirão Preto havia alguma coisa diferente por causa do trenzinho mais famoso do Brasil, o Trenzinho Carreta Furacão.

Ele foi o primeiro tipo exportação da cidade. No vídeo que correu a internet em 2010, Mickey, Fofão, Palhaço, Capitão América e Popeye marcam a cultura popular do país ao deturpar nosso imaginário lúdico com molejo, suíngue e mistura que só um Brasil brasileiro é capaz de oferecer. “Samba do Mestiço”, na trilha do vídeo original, canta para seguir em frente e olhar para os lados. E nessa toada o Carreta Furacão chegou aos canais de TV aberta naquele ano.

Os trenzinhos hoje são marco na internet brasileira em novos clássicos como Fofão sobe o muro, mas eles também são parte fundamental de Ribeirão Preto há pelo menos trinta anos. E isso não fica evidente na piada do meme ou do programa de auditório. A cidade tem a única organização exclusiva da classe no país, a Associação de Trenzinhos, com 14 empresas. Esse é apenas mais um detalhe de um fenômeno cultural interessante e de muita festa.

Tem que fazer por merecer pra ser o Fofão

Seus protagonistas são garotos como Renan e André Luiz “Sheyck”. Os irmãos de 17 anos, com apenas meses de diferença de idade, vivem na periferia de Ribeirão Preto. Eles estudam e trabalham de dia. À noite, saem de casa com uma fantasia remendada e um capacete de isopor embaixo do braço. De 20h a 23h, são estrelas do Trio Big Folia, trenzinho da empresa Dominium — também proprietária do Carreta Furacão. Um dos maiores da cidade, o mastodôntico duplex ambulante de luminosos e som potentes é palco para Renan, o Palhaço, e André, o Fofão.

“Tem que fazer por merecer pra ser o Fofão”, diz André. O cruzamento de espécies que resultou no personagem original não previa a aparição de uma linhagem hábil nas peripécias que ele faz. O Fofão de André sobe um muro e posa sob a luz em seu topo ao som de MC Sapão, dá um mortal apoiado na parede como Jackie Chan e treme os quadris freneticamente como uma integrante do Bonde das Maravilhas — tudo em cinco minutos. “Tem que ser louco!”, completa Renan. “Tem que passar dos limites!”

Encarnar o Fofão é atingir o mais alto nível no plano de carreira dos trenzinhos. O Palhaço vem a seguir. “É como qualquer empresa: quer subir?”, me perguntou Renan. “Tem que fazer por merecer.” Os personagens com as cabeleiras vastas são os mais cobiçados entre os dançarinos. Com trejeitos femininos, eles jogam as madeixas de lã de um lado para o outro. Nasce um novo gênero com uma dança que mistura passinhos do funk paulista, breakdance e footwork.

A coreografia é liderada pelo dançarino que dispara à frente. “Trenzinho é um pouco de tudo: axé, sertanejo, funk, arrocha, eletrônica”, explica Renan. Tem também parkour aplicado aos obstáculos próprios de uma cidade do interior, destreza de pixadores na escalada de muros e acrobacias circenses e humor pastelão de grupos como Os Trapalhões ou Os Três Patetas — ainda não tenho certeza se um cachorro realmente mordeu a bunda de um dos dançarinos que rebolava junto ao portão de uma casa.

Os garotos pouco ensaiam e de vez em quando vão a um parque para tentar uns passos. Quedas e acidentes são frequentes, mas a máscara dos personagens não cai. Enquanto dão voltas pelas quadras, os trenzinhos disputam espaço com carros e motos acostumados à festa itinerante. Entendi por que o Popeye é atropelado enquanto o Fofão sobe o muro quando eu mesmo corria ao lado dos trenzinhos. “Eu já fui atropelado por bike, moto, carro”, diz Renan. “Teve uma moto que me jogou pro alto, mas nem me machucou.”

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Leandro Wesley e os irmãos Renan e André Luiz “Sheyck”. Crédito: Felipe Larozza

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