Felipe Maia

Jornalismo

Doze Casos e Um Perito: A História de Ricardo Molina

In dubio pro reo. A expressão é elemento sagrado na lei dos homens que, invariavelmente, precisam julgar outros homens. “Se alguém tem dúvida, eu não posso condenar”, argumenta, na boa e última flor do lácio, Ricardo Molina de Figueiredo, mais conhecido como “perito Molina”. Ele desempenha seu trabalho como se fosse, ao mesmo tempo, doze jurados e um juiz, como no filme Doze Homens e Uma Sentença. Mas sua real tarefa não é ser jurado ou juiz. Por trás dos óculos elípticos o senhor esconde olhos, orelhas e nariz que não deixam passar os detalhes pequenos, as minúcias camufladas, os vestígios essenciais. Mais do que certezas, levantar dúvidas é sua função. “Não existe verdade absoluta”, analisa o perito. Ele não confunde para esclarecer. Ele esclarece para confundir.

“Há peritos que falam ‘minha conclusão é categórica’, e tem muito repórter que pergunta ‘o senhor tem certeza disso?’ Não!”, me diz ele em uma de nossas conversas. Molina não fica em cima do muro. Ele é um perito criminal e passa o dia em seu escritório rodeado por monitores, um ou outro sistema de som e uma papelada de laudos e análises técnicas que se espalha numa bagunça organizada. “Você precisa de três coisas para ser um perito. Uma lupa, para ampliar as coisas; lápis e caderno para organizar os dados; e o terceiro elemento, o mais importante de todos, o cérebro, porque não adianta ter equipamento e banco de dados, mas não ter o cérebro. O fator humano na perícia é fundamental.”

A máquina de café é o item mais moderno da sala. O ritual pra quem chega é tomar uma dose da cápsula escolhida ao gosto do freguês. O resto da aparelhagem é ferramenta de trabalho simples, sem grandes mistérios ou ares de laboratório do Professor Pardal. “As pessoas acham que tudo se resolve com tecnologia. Séries como CSI dão essa falsa impressão”, explica o perito.

O doutor Molina posou pra foto bem de boa na varanda. Crédito: Felipe Larozza/VICE

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Cultura, Jornalismo, Música

O pacto de sangue entre rap e futebol na França

Como ocorre no Brasil, o fim de cada jogo da França na Eurocopa 2016 acompanhou intermináveis mesas redondas na TV. Após a derrota para Portugal, todas lamentavam o gol do atacante Éder e tentavam, em vão, explicar o porquê do vice-campeonato.

Dias antes, nas quartas-de-final, o clima da análise era oposto: a maior parte das discussões celebrava os pormenores da goleada de 5 a 2 na Islândia. No canal i-Tele, um grupo questionava o gesto de Paul Pogba, meio-campista francês, ao comemorar seu tento. “Não seria uma ofensa ao público?”, questionou um deles.

“Isso é um dab”, respondeu Djibril Cissé. Com a tranqulidade de quem revela um segredo conhecido, o ex-jogador explicou que aquilo era um passo de dança importado do hip-hop. Era mais um exemplo da frutífera relação entre rap e futebol na França.

“Os jogadores estão muito próximos do rap por aqui, eles escutam esse tipo de música no vestiário, eles estão atualizados com o que tem de novo”, explica Mohammed Sylla. Mais conhecido por MHD, o rapper de 21 anos é a mais recente sensação do hip-hop francês Com seu chamado “Afro-Trap”: uma mistura de texturas do oeste africano a arranjos e prosódias clássicas do rap norte-americano.

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Ciência, Jornalismo

O Relógio Atômico Brasileiro e Uma Outra Breve História do Tempo

Um avião aterrissa em Guarulhos. Nele, um homem carrega um item sem par na mala. Foram quase doze horas de voo e três meses de trabalho árduo. Paris é mais que um oceano distante. Sabe lá quais solavancos a carga teve de aguentar entre bagagens de turistas e empurra-empurra dos aeroportos. O esforço na construção do dispositivo teria ido pelos ares? Só o tempo dirá — o tempo que o próprio aparelho dirá. Mal dá pra notar, mas o tipo de estatura média, calvície pronunciada, bochechas coradas e ar boa praça leva consigo um artefato fundamental para fins militares, científicos e políticos. A peça que falta para a construção do relógio atômico brasileiro.

Daniel Magalhães, doutor em Física, é um dos principais responsáveis pela criação da versão nacional do relógio-atômico que, de tão preciso, suplantou a milenar rotação da Terra como medição do tempo. Há menos tempo que isso, em 2006, Daniel terminou seu pós-doutorado no Observatório de Paris e voltou ao Brasil trazendo um gerador de microondas. O aparelho finalizou a estrutura básica do projeto que tinha começado em 2001 sob a orientação do professor Vanderlei Bagno no Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (Cepof) do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos.

Que horas são, Daniel? Crédito: Felipe Larozza/VICE

“A gente acomodou as coisas aqui do jeito que achou melhor. Carreguei os sacos de areia do piso aqui embaixo”, me disse o Daniel enquanto mostrava com orgulho a sala de pouco mais oito metros quadrados nos subterrâneos da universidade. Embora o Brasil não faça parte, há uma rede espalhada pelo mundo conectando relógios desse tipo. Ela marca a hora exata em que um email foi enviado, permite que o GPS exiba a localização correta, baliza o voo de drones e mísseis teleguiados e atesta a segurança de plataformas online. A importância dos relógios-atômicos vem antes mesmo do visor de horário — o relógio construído por Daniel e sua equipe sequer tem um desses. Ele existe por outros motivos.

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Jornalismo

Cem anos de prostituição

As bochechas coradas, as pernas rotundas, as vozes ternas, os cabelos brancos. Há quem veja nessa descrição uma avó perfeita. Há quem veja um corpo excitante. Há quem veja tudo isso em dobro. “Nós sempre fomos mais que putas”, diz Louise Fokkens. Ela e sua irmã, Martine, são as prostitutas mais antigas de Amsterdã. E são gêmeas.

Louise nasceu pouco antes de Martine. Louise sempre foi a primeira em tudo. É ela quem fala à Tpm. Com 20 anos, Louise também deu início aos trabalhos da dupla. Forçada pelo marido a se prostitur, logo se livrou dos jugos dele para cair na vida com as próprias pernas. Martine veio a seguir. “A maioria das garotas faz isso porque não tem muitas opções”, diz Louise.