Felipe Maia

Jornalismo, Mídia, Web

Media on – Seminário Internacional sobre Jornalismo Online

Estive hoje no mediaon, a 2a edição de uma série de painéis sobre jornalismo online. Realizado no Itaú Cultural, o evento é basicamente composto por painéis de discussão e seminários (e algumas oficinas inexistentes), reunindo principalmente gente com relevância nas corporações midiáticas.
A parte o atraso e a falta de informações básicas (confirmação, oficinas, etc.) o que vi hoje foi uma reunião que põe em pauta um tema alardeado por todos, mas que poucos querem por a mão. De um lado, a academia, pra qual jornalismo online o assunto ainda é um pântano: nebuloso, lamacento e cheio de armadilhas. Do outro, o mercado, que busca um jornalista online com crise de identidade: não sabe o que faz, quanto faz, ou mesmo se é só online.

Tas e Rosemblun na abertura do envento

O primeiro painel contou com o mediador Alon Feuerwerker (editor de política do Correio Braziliense e blogueiro), e os debatedores Bob Fernandes (editor do Terra Magazine) e Ricardo Feltrin (colunista da Folha e editor-chefe da Folha Online). Juntando a fome com a vontade de comer, o assunto eleições brasileiras e web não poderia vir em melhor hora, vide a última decisão do TSE que restringe o conteúdo sobre eleições na internet.

O debate, que frequentemente descambava pra política e legislação, explicitou uma opinião bem sensata: a internet é um espaço democrático e a nova lei do TSE vai de encontro a isso.

Eleições digitais?

Bob Fernandes lembrou que alguns senhores, como o Sarney no MA, Collor em AL e, por que não, Aécio Neves em MG detêm direitos sobre radiodifusoras — mesmo que escusos. É um nem tão novo coronelismo, não menos nocivo do que os de antigamente. Um “coronelismo medial” que Ninguém cutuca (com N maiúsculo, são cargos do alto escalão). Não posso deixar de mencionar que a internet não é uma concessão: ela esta aí pra quem pode e quer falar, ler, gritar. A medida do TSE é proibitiva e trata a rede como um teco do espectro radiodifusor. Um teco de algumas milhões de toneladas informacionais, impossíveis de serem controladas. Ainda bem, pois, como falou Bob, “no fim das contas a lei será descumprida”. Legislação, aliás, é o que falta para a internet — e não uma censura velada baseada num código inaplicável, até então, ao ciberespaço.

Nessa esteira de ficção (essa lei bem que podia ser do 1984), Ricardo Feltrin disse que “nunca se sentiu tão cerceado”. Feltrin ressaltou a pressão que se faz sobre o jornalismo político: ora é o Estado, ora os Partidos, ora o próprio usuário — comentadores mandados, pagos, trolls, típicos da rede. Digo que é bem verdade que o jornalismo está mais pra um pitbull rosnando pra tudo quanto é político. Contudo, quando essas pressões ameaçam empurrar para baixo o lucro das empresas de mídia, jornalista vira poodle e a corporação ainda põe coleira pro senador ou o que for acariciar. Feltrin disse bem ao afirmar que “essas forças [as pressões] precisam mudar, senão muda o jornalismo”. Completo dizendo que também precisa mudar a postura das empresas e conglomerados de mídia — mas isso é mais difícil que político falando a verdade.

Depois mais comentários sobre os outros painéis e sobre o segundo dia do evento.

Design

Pergunta:

nos jogos olímpicos de Pequim eles usam material esportivo made in china?

Enquanto você pensa, não deixe de ver as imagens da Anistia Internacional para as Olimpíadas. Ao que parece, elas vazaram na rede.




Política

Democracia e a mesmice dos novos tempos da política


Eleições chegando, trazendo consigo o desgostoso e embolorado engodo do poder está nas suas mãos. Não passa da ludibriação da democracia, amalgamada aqui numa lavagem suína (e pré-cerebral) para que seja concebida como sinônimo de voto. Votar é legal — e, para a maioria, obrigatório, mas isso é detalhe.

Vote, adolescente de 16 a 18 anos sem oportunidades de boa educação, que dirá de bons empregos; vote, senhor velhinho que faz da sua aposentadoria tripas coração para comprar remédios e manter o coração e as tripas; vote, você aí dessa cidade afastada, essa sem luz, água, saneamento e uma câmara pra lá de requintada e confortável; e vote você também, que, numa condução lotada, se locomove todos os dias da periferia para o centro e vice-versa, afinal, no dia da votação você vota aí pertinho de casa, numa escola (ou aquilo que se propõe a sê-la).

Pelo menos dá pra achar graça, caso você seja brasileiro. Se você levar na esportiva, até consegue dar uma risada aqui, um comentário feliz acolá, mas nada de mais. Se você levar a sério, sim, você racha o bico. É quando você diz “tem que rir pra não chorar!”, tamanha a graça da desgraça em que estamos envoltos. Aliás, o anedotário da propaganda política, assaz hype e antenado, vem acopanhando a rede e vem se mostrando tão criativo quanto no meio televiso.

Porque na internet, você tem interatividade.

Na web você conhece seu candidato até na mais íntima roupa suja!

E na world wide web você também descobre que é tudo muito rápido, tudo muito veloz.

Sem esquecer de como a política está por todos os lados.

Além de tudo, é versátil:

Pois se a política, para esse senhores e senhoras, pode ser tudo isso (e mai$ um pouco), porque a democracia se restringiria ao voto? Democracia vai além de muita campanha e 5 dígitos. Democracia é a voz uníssona e constante de pessoas que gritam para terem as suas necessidades atendidas e respeitadas; nem sempre são as melhores precisões, mas é assim que se caminha para esse tal melhor. Que interessa? A essa orquestra não estamos acostumados. O que toca em loop por aqui é a Ode a Charlamentarismo.

Por causa desse post eu até lembrei dum grifo meu num livro. É de um antigo jornalista francês, Prosper-Olivier Lissagray, sobre a Comuna de Paris — provavelmente o único movimento revolucionário que deu, realmente, poder ao povo:

Em 1848 disseram ao povo: “O sufrágio universal torna toda insurreição criminosa; o voto substitui o fuzil.” E, quando o povo vota contra os seus privilégios, eles se encolerizam; todo governo é faccioso se levar em conta a vontade popular. O que resta ao povo, se não o argumento peremptório, a força? Ele por fim a tem.

*foto do flickr do Jaume d’Urgell.

Música

Ajudar o peixe…

Vá, nem é uma das melhores músicas do Billy Idol. Ou melhor dizendo, nem é um dos melhores hits do pai do Supla — pobre (ou não) coitado que só se fez de hits após o Generation X. O que pegava nessa música era o refrão: ajudar o peixe… Tinha gente que até apelava e emendava aí o backin’ vocal: feche os olhos e vááá.

Nesse caso é uma transliteração do som muito bem sucedida. Afinal, duvido que você escute outra coisa que não seja a súplica ao peixe; caso contrário você sabe a letra — e não vai ser eu quem vai escrever ela aqui!

O cômico é que criaram um site pra isso. Kissthisguy.com só reúne essas confusões entre o que foi ouvido e o que foi escrito. Às vezes a diferença nem é tanta — principalmente em se tratando de profundidade poética —, mas o engano não deixa de ser engraçado.

A começar pela f*dida Purple Rain, cujo verso (Excuse me, while I kiss the sky) dá nome ao site. Ali tem mais um monte.
O Rock the Casbah do Clash virou Lock the Taskbar. O wannabes (de Pretty Fly for a White Guy) do Offspring virou one-eyed peas. Enquanto isso, o drama do REM, It’s me in the corner/It’s me in the spotlight, dá lugar à chanchada Let’s pee in the corner, let’s pee in the spotlight.

A língua do Tio Sam — e a nossa também — é cheia dessas malandragens (mode boça). De vez em quando dá nisso e noutros:



Último vídeo do anderssaruo.com

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Now playing: Stan Getz, João Gilberto, Astrud Gilberto – O Pato
via FoxyTunes

Cinema

A humanidade de um homem só

*Resenha do filme O Pagador de Promessas *

O Pagador de Promessas é um clássico que merece ser tratado como tal
A Palma de Ouro conquistada por O Pagador de Promessas, em 1962, não foi um prêmio apenas pro cinema nacional. Foi uma vitória pra toda produção cultural do país, em especial a literatura. Pois, em se tratando dela, O Pagador de Promessas remete a grandes nomes. O início do filme já lembra a aridez de Graciliano Ramos: o trajeto no qual um homem carrega uma cruz é alçado a epopéia devido à trilha sonora magnânima e às tomadas incomuns para a época.

O tempo, aliás, é um dos fatores que dá o tom do conflito no filme. Acompanhado unicamente por sua esposa, Zé-do-Burro carrega uma cruz até a Igreja de Santa Bárbara, a fim de pagar uma promessa. Os dois se vêem numa Salvador com automóveis, jornais, pessoas de todos os tipos e interesses — algo que vai além da vida no sertão trespassada na atuação da dupla Leonardo Villar (Zé-do-Burro) e Rosa (Glória Menezes). A Salvador de O Pagador de Promessas pode ser moderna, mas, até certo ponto, conserva seu ar colonial. Foi lá onde viveu e escreveu o Boca do Inferno. É lá onde ainda há espaço para o escárnio e a sátira. Todo um cenário de Gregório de Mattos é retratado: os aproveitadores e malandros que surgem em cada degrau da escadaria da Igreja; as autoridades, que são vistas simultaneamente com maus olhos e temeridade (aí também um quê de Graciliano Ramos); o sincretismo religioso, que pulula em cada seqüência — para Zé-do-Burro, Iansã é Santa Bárbara.

A película, originalmente uma peça, parece ter sido muito bem adaptada até metade de sua projeção. Após, isso, contudo, a linguagem cinematográfica por vezes é prejudicada em detrimento às características da peça. Os personagens surgem e reaparecem sem continuidade, a trama torna-se muito dedutiva. Felizmente, a ótica do cinema prevalece nos planos. O diretor, Anselmo Duarte, aproveita bem o cenário sem torna-lo constante. Cada cena tem uma apreensão diferente, seja no movimento da câmera ou em takes estáticos.

Em uma dessas cenas, Zé-do-Burro sobe a escadaria junto do padre, dialogando longamente sobre a promessa. O padre, como outros personagens do filme, quase não é nomeado. É um artifício antigo, mas eficiente a fim de transpor o regional a um âmbito global. Os tipos soteropolitanos tem resquícios da humanidade, assim como se faz na literatura de cordel, vertente tipicamente nordestina. Aproveitar esse aspecto foi uma idéia de Dias Gomes, mas muito bem aproveitada aqui, o que não ocorre sempre. É o caso do filme Alto da Compadecida, peça escrita por Ariano Suassuna. Nela, a figura do nordestino João-Grilo, quando retratada na película, cai no estereótipo.

O esterótipo e o paradigma são características que também aparecem em O Pagador de Promessas. Não se pode acusar o filme, contudo, de cair no comum. A cena final é quase super-realismo. Ali a projeção se amarra a Guimarães Rosa, mas, principalmente, ao livro mais antigo do mundo: a Bíblia. Porém, possuir resquícios de outras obras não é o maior mérito de O Pagador de Promessas — nem tão pouco ter ganhado mais três prêmios internacionais. O grande trunfo de O Pagador de Promessas é contar a história do homem brasileiro sem deixar de ser um homem do mundo, daqueles que se vê em qualquer lugar: entre a cruz e a espada.