Banda baiana faz sucesso com arrocha debochado

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Flávio Alves dos Santos (Jurubeba), Hélio Pires (Jhon Falcão) e José Roberto Franca (Zé da Véia)

Zé Carlos Barretta/Folhapress

Na véspera do São João de 2014, Hélio Pires, 27, largou o emprego em um posto de gasolina na Bahia para se dedicar à música sobre sua “Pop 100”. A moto econômica dá nome ao maior sucesso da banda liderada por ele.

Hoje, com cerca de 25 shows por mês e cachê médio de R$ 50 mil, o grupo Rei da Cacimbinha espalha o ritmo da arrochadeira resenha (gíria para deboche) pelo Brasil.

“A arrochadeira resenha é o contrário da ostentação: fala da humildade, do cara que anda errado, que é feio”, explica Ludson Gusmão, empresário da banda. Segundo ele, o estilo mistura o pagode baiano ao arrocha de nomes como Pablo e Silvanno Salles.

O clipe de “Pop 100” foi visualizado mais de 11 milhões de vezes no YouTube. É uma paródia da canção “Na 1100 Ela Empina o Bumbum”, do grupo Madeirada do Arrocha. Na versão de Hélio, WhatsApp vira orelhão, e espumante Chandon vira cachaça 51.

A vertente criada por ele acentua o ritmo dançante de cornetas e percussão eletrônica em letras com bordões, paródias e duplo sentido, como “Comendo a Quilo” e “Muriçoca”. A canção sobre um mosquito que “soca” e “pica” foi sucesso no Carnaval 2015.

À época, a banda fez 15 apresentações em cinco dias. Hélio conta mais de 300 shows em menos de um ano de estrada. Segundo ele, cerca de 30 mil pessoas foram à gravação do DVD ao vivo na cidade de Messias (AL), em janeiro.

No palco, o grupo passeia entre canções próprias e sucessos de axé, funk e arrocha. Assim como no álbum de estreia, a guitarra marca o ritmo enquanto o teclado faz as vezes de bateria eletrônica.

De produção a apresentação, passando por gravação e distribuição, o esquema se repete no segundo CD -lançado em junho. O vocalista afirma que suas músicas precisam correr a internet para chegar às ruas. “A gente não depende de rádio”, diz.

A gravação é pensada para poderosos sistemas de som, e as letras se adequam às regiões do Brasil. O “fluxo” (baile funk de rua de São Paulo) vira “boteco” na sua versão para a música “Tava na Rua”, do funkeiro MC Pikachu.

Alter ego

A banda foi alvo de acusações de plágio, boatos de morte e cópias desde que surgiu. Hélio teve de registrar a faixa “Muriçoca” para confirmar sua autoria. Frequentemente ele tem de gravar vídeos desmentindo sua morte ou apresentações em seu nome.

Grupos falsos chegam a 15 nas contas do empresário. Para Gusmão, o faturamento da sua produtora aumentou 50% com o alter ego criado por Hélio para liderar a banda: Jhon Falcão. “Ele é muito mais forte que Rei da Cacimbinha. Se não existisse Jhon Falcão, [a banda] não seria um sucesso.”

Em outubro de 2014, Gusmão nomeou o personagem ao perceber a semelhança nos modos de cantar do baiano e do cearense Falcão.

Mas, em vez de roupas extravagantes, Hélio vestiu seu personagem com paletó e bermuda. “Parecia que o terno estava me esperando na loja, como uma armadura.” O girassol da casa de sua mãe e o chapéu dos tempos de lavoura completaram a roupa.

O cantor nasceu em Barra da Estiva, na região da Chapada Diamantina. Filho de uma família de agricultores, cresceu em roças de café. A veia artística saltou aos 14 anos, quando começou a tocar violão e integrar bandas.

Hélio concebeu seu sucesso em um quarto de hotel, numa turnê pela Bahia como cantor de apoio em uma banda de forró. Foram precisos um teclado, um computador, uma placa de áudio e duas horas para gravar dez faixas.

Uma vez na internet, elas tomaram carros de som e paredões de festas no interior da Bahia em duas semanas. Mas ele demorou a acreditar na ideia. “Pensava: é um fenômeno, mas quem vai comprar?”

Assumiu a cria quando recebeu um convite para uma apresentação ao vivo. Desde então, Hélio se juntou ao tecladista Flávio Alves dos Santos (Jurubeba), 27, e ao guitarrista José Roberto Franca (Zé da Véia), 28, para rodar pelo país com o Rei da Cacimbinha.

Nomes como Mr. Catra e Tati Zaqui devem entrar na lista de parcerias nos próximos meses, assim como a gravação de outras músicas.

O plano de Hélio é levar o Rei da Cacimbinha ao país inteiro quando a temperatura subir. “É igual café: estamos plantando e vamos adubar para colher no verão.”


Matéria originalmente publicada em agosto de 2015 na Folha de S. Paulo.

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