Beck, o passado do disco e o futuro do álbum

Houve um tempo em que as pessoas ainda compravam computadores e, com mais algum investimento, adquiriam um kit multimídia. Ele consistia em duas caixas de som e um microfone — se tratava-se só de som, não sei o porquê do multi. Ter esse aparato de áudio significava um mundo de possibilidades que emperrava na primeira questão: o que tocar? Quem tinha leitor de CD passava para a próxima fase, mas quem não tinha perdia o jogo. Aí a Microsoft resolveu ajudar os incautos e passou a colocar, desde o Windows 95, trechos e até músicas completas nos minúsculos HDs dos PCs da época.

Um dos primeiros artistas a fazer parte dessa novidade foi o Beck. A música Beautiful Way vinha no Windows Millenium — em formato WAV. A intenção disso era oferecer um parâmetro mínimo de teste dos hardwares. O entretenimento veio com o tempo e o músico norte-americano sacou isso, muito antes de qualquer outro meio digital embutir músicas, como os games hoje em dia.

Acontece que colocar músicas em jogos, se não é tão velho quanto o Windows 95, também não é tão novo quanto a mais recente empreitada do Beck. Na espuma da crista da onda, o artista também resolveu enfiar suas músicas em games. Nada de trilha sonora marcante (Tony Hawk Pro Skater 3 é extraordinariamente boa) ou game temático, como o Angry Birds Green Day. Sounds Shapes é simples na sua proposta de oferecer uma plataforma de criação a partir de um jogo de, veja só, plataforma. Um personagem que caminha por um cenário 2D e, interagindo com o ambiente, cria cenários sonoros que, eventualmente, chegarão a uma das três canções cedidas por Beck ao game.

Parece complicado, mas é, na verdade, bonito.

A ideia do Sounds Shapes é tornar o jogador parte da obra musical. É como, vá lá, tocar uma música.

Beck foi fundo nessa história e não parou no game. Ele chegou muito antes do kit multimídia. O tempo pré-gravações, quando música ou era ao vivo com o artista ou ao vivo com alguém que soubesse tocar. Totalmente e nem tanto oposto ao jogo eletrônico, o próximo álbum do Beck será em forma de livro.

“Song Reader” terá 18 canções e 2 faixas instrumentais. A ficha técnica conta com 20 artistas. Todas as músicas são novas e nunca foram gravadas e, aparentemente, nem serão — ao menos não pelo próprio autor. São 108 páginas de partituras e letras. Apenas isso. A alma do projeto é que cada um que compre o disco dê, ele mesmo, vida às músicas.

A ideia do “Song Reader” é tornar o ouvinte o próprio músico. É como, vá lá, jogar o Sounds Shapes.

E ainda houve um tempo em que se classificava o artista pela quantidade de discos vendidos ou lançados em um período. Só nesse caso Beck perde feio: seu último CD é de 2008.

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