Category Archives: Ciência

Ciência, Jornalismo

O Relógio Atômico Brasileiro e Uma Outra Breve História do Tempo

Um avião aterrissa em Guarulhos. Nele, um homem carrega um item sem par na mala. Foram quase doze horas de voo e três meses de trabalho árduo. Paris é mais que um oceano distante. Sabe lá quais solavancos a carga teve de aguentar entre bagagens de turistas e empurra-empurra dos aeroportos. O esforço na construção do dispositivo teria ido pelos ares? Só o tempo dirá — o tempo que o próprio aparelho dirá. Mal dá pra notar, mas o tipo de estatura média, calvície pronunciada, bochechas coradas e ar boa praça leva consigo um artefato fundamental para fins militares, científicos e políticos. A peça que falta para a construção do relógio atômico brasileiro.

Daniel Magalhães, doutor em Física, é um dos principais responsáveis pela criação da versão nacional do relógio-atômico que, de tão preciso, suplantou a milenar rotação da Terra como medição do tempo. Há menos tempo que isso, em 2006, Daniel terminou seu pós-doutorado no Observatório de Paris e voltou ao Brasil trazendo um gerador de microondas. O aparelho finalizou a estrutura básica do projeto que tinha começado em 2001 sob a orientação do professor Vanderlei Bagno no Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (Cepof) do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos.

Que horas são, Daniel? Crédito: Felipe Larozza/VICE

“A gente acomodou as coisas aqui do jeito que achou melhor. Carreguei os sacos de areia do piso aqui embaixo”, me disse o Daniel enquanto mostrava com orgulho a sala de pouco mais oito metros quadrados nos subterrâneos da universidade. Embora o Brasil não faça parte, há uma rede espalhada pelo mundo conectando relógios desse tipo. Ela marca a hora exata em que um email foi enviado, permite que o GPS exiba a localização correta, baliza o voo de drones e mísseis teleguiados e atesta a segurança de plataformas online. A importância dos relógios-atômicos vem antes mesmo do visor de horário — o relógio construído por Daniel e sua equipe sequer tem um desses. Ele existe por outros motivos.

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Ciência, Jornalismo

Como um Caracol Comestível se Transformou em uma Enorme Praga Brasileira

Ferenc Polena era criador de caramujos e morava no bairro de Santa Cândida, em Curitiba, numa casa com sua esposa Edite. Um dia ele tentou viver dos seus bichos: abriu firma, vendeu alguns animais e ensinou o ofício. Não deu certo. O senhor húngaro morreu com 77 anos em junho de 2009. Na seção de obituário da Gazeta do Povo, numa nota menor que um tuíte, Ferenc Polena virou técnico em refrigeração. Deixou viúva, uma empresa falida e um rastro viscoso que responde por Achatina fulica, uma das maiores pragas do Brasil.

Eu mesmo nunca vi um desses caracóis, mas, ao contrário da Loira do Banheiro ou da Mula Sem Cabeça, essa não é uma lenda urbana ou rural. A passos curtos ou pegando carona em rios, reproduzindo-se com facilidade, comendo quase tudo o que vê pela frente e por vezes agindo como vetor de doenças, o Achatina fulica se espalhou pelo Brasil. Por onde passa, ele causa temor em agricultores, ambientalistas e agentes de saúde. Uma dose de desinformação aumenta o pânico. Até o apelido dele é incerto: caracol gigante africano ou caramujo chinês?

O caracol gigante africano consegue viver em vários ambientes. Crédito: Agência Goiana de Desenvolvimento Rural e Fundiário

Os nomes escondem a origem da espécie. A bibliografia especializada afirma que, embora proveniente do nordeste da África, ele tem sido relatado em outros ambientes desde o início do século XIX. Sempre contando com a inserção humana, esse tipo de Achatina chegou aos confins do sudeste asiático, subiu até o extremo oriente e passou até pelos Estados Unidos. Geralmente tido como praga, o bicho era conhecido por Ferenc Polena como escargot. Ao menos ele queria assim.

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Ciência

A jornada para entender e traduzir o manuscrito Voynich

Entre tantas realizações, o engenheiro britânico Alan Turing morreu sem ver uma máquina capaz de passar pelo teste que leva seu nome, assim como não conseguiu decifrar um dos livros mais enigmáticos da história: o Manuscrito Voynich. Acontece que, em julho de 2014, um software russo engambelou parte de um júri ao se passar por humano. E, desse lado do Equador, pesquisadores brasileiros aproximaram ainda mais esse texto de uma tradução.

Mas calma, lá. Assim como o disfarce da máquina não é o trailer de um Blade Runner com 2001: Uma Odisséia no Espaço, o trabalho liderado pelo doutor Diego Amancio não oferece o exato significado da misteriosa obra. O professor do Instituto de Ciências Matemáticas e Computação da USP chegou a resultados que confirmam que o Manuscrito, pelo menos, tem sentido. E, ao mesmo tempo, esses dados também podem ajudar a aumentar a inteligência de bots que enfrentam o teste de Turing, como o Eugene Gootsman.

“Nossos resultados mostraram que o Manuscrito Voynich apresenta uma grande quantidade de padrões estatísticos que se assemelham às línguas naturais”, conta Diego. Além de ratificar a existência de um nexo no texto, suas conclusões rebatem muitas teses que tratam a obra como uma pegadinha muito bem feita por algum fanfarrão das antigas.

Até então, as teorias do embuste caminhavam em paralelo com os estudos sobre o Manuscrito. Análises químicas comprovam que o livro foi feito entre 1404 e 1439, mas somente no início do século XX ele ganhou o mundo nas costas do livreiro polonês Wilfrid Voynich. Ele dá nome ao livro porque, na obsessão em descobrir seu conteúdo misterioso, acabou tornando-o famoso.

Sua empreitada foi mal-sucedida, mas graças a seus esforços a história despertou a curiosidade de cientistas e criptógrafos como Alan Turing. Pudera: o Manuscrito Voynich tem cerca de 200 páginas escritas em caracteres desconhecidos e repletas de desenhos de plantas bizarras, mulheres mergulhando em piscinas estranhas, bichos com tentáculos e constelações do zodíaco.

Crédito: Wikimedia Commons

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Ciência, Cultura

A silenciosa epidemia do lança-perfume

Enquanto solto meu qualquer conhecimento sobre a história do funk, Douglas Celestino dos Santos vai falando “lembro, lembro, lembro”. O produtor musical vive na Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo. Ele conhece bem o que toca na sua quebrada. Estava por lá quando Mc Dedê estourou com dez perfis no Orkut, quando os fluxos tomaram conta das vielas cercadas por paredes de alvenaria e, mais recentemente, quando o loló passou a tomar a cabeça e a vida da molecada. “O cheirinho-da-loló está matando mais que a arma do bandido ou da polícia”, sentencia Douglas.

O cheirinho-da-loló está matando mais que a arma do bandido ou da polícia Douglas dos Santos

Foi o caso do seu irmão, Mahal Farouq, morto em dezembro de 2013 em decorrência do elevado consumo da droga. “Os médicos falaram que foi parada cardíaca, mas disseram que ele morreu por causa do cheirinho-da-loló. O atestado de óbito dele deu parada cardiorrespiratória”, afirma Douglas, que conhece pelo menos mais cinco casos iguais. Subnotificadas ou desconhecidas, as mortes causadas pelo lança-perfume não entram em levantamentos ou estudos e tardam a coçar a pulga atrás da orelha de órgãos oficiais. Não à toa, uma das poucas pesquisas sobre o consumo de lança fala de uma epidemia silenciosa.

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