Category Archives: Cultura

Cultura, Esporte

Paixão vermelha e branca

No alto, a bandeira no estádio, que na várzea é permitida

No alto, a bandeira no estádio, que na várzea é permitida

O dia 25 de janeiro é uma data especial para os moradores da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo. Eles não comemoram o aniversário da capital paulista, mas a fundação do E.C. Noroeste, o time de futebol da região. A agremiação completou meio século em 2014 e, se a bola colaborar, neste ano leva o único troféu que lhe falta: a Copa Kaiser.

“Esse título é nossa Libertadores”, diz Renato Garcia, 30, vice-presidente da Nação Vermelha e Branca – uma das torcidas organizadas do time -, fazendo alusão à obsessão do corintiano com o torneio sul-americano. Além dela, a Bonde Louco, a Fogo na Bomba e a Anjos do Campo (a ala feminina) empurram o Noroeste em todos os campos de várzea de São Paulo, chegando a alguns milhares de torcedores em partidas decisivas. “Onde tiver Noroeste a gente está envolvido”, diz André Correia, presidente da Nação.

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Ciência, Cultura

A silenciosa epidemia do lança-perfume

Enquanto solto meu qualquer conhecimento sobre a história do funk, Douglas Celestino dos Santos vai falando “lembro, lembro, lembro”. O produtor musical vive na Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo. Ele conhece bem o que toca na sua quebrada. Estava por lá quando Mc Dedê estourou com dez perfis no Orkut, quando os fluxos tomaram conta das vielas cercadas por paredes de alvenaria e, mais recentemente, quando o loló passou a tomar a cabeça e a vida da molecada. “O cheirinho-da-loló está matando mais que a arma do bandido ou da polícia”, sentencia Douglas.

O cheirinho-da-loló está matando mais que a arma do bandido ou da polícia Douglas dos Santos

Foi o caso do seu irmão, Mahal Farouq, morto em dezembro de 2013 em decorrência do elevado consumo da droga. “Os médicos falaram que foi parada cardíaca, mas disseram que ele morreu por causa do cheirinho-da-loló. O atestado de óbito dele deu parada cardiorrespiratória”, afirma Douglas, que conhece pelo menos mais cinco casos iguais. Subnotificadas ou desconhecidas, as mortes causadas pelo lança-perfume não entram em levantamentos ou estudos e tardam a coçar a pulga atrás da orelha de órgãos oficiais. Não à toa, uma das poucas pesquisas sobre o consumo de lança fala de uma epidemia silenciosa.

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Cultura

Pressão Alta

Eles trabalham quatro meses por ano, ganham bonificações dez vezes maiores que o salário e se aposentam em 25 anos. Trampo dos sonhos? Não exatamente. A rotina de romper com as barreiras do próprio corpo cobra um alto preço dos mergulhadores saturados

Enclausurado a mais de 200 metros de profundidade, o mergulhador Sandro Zozo percebe que a pressão do ar dentro do sino começa a diminuir. Então, a água invade o local. Válvulas são abertas na tentativa de conter a enchente, mas nada parece funcionar. Ele trava um diálogo desesperado com um funcionário na plataforma. Sua voz está modulada ao tom Pato Donald devido à inspiração de hélio (presente na mistura gasosa que torna possível respirar em tal ambiente). Logo, o mergulhador se vê com a água no pescoço, e o único jeito de sobreviver é usar o cilindro de oxigênio. A inundação só é interrompida quando todo o sino está alagado.

Quem faz mergulho saturado (o nome é porque, em profundidades assim, o organismo do mergulhador fica saturado: chega ao limite da absorção dos gases que existem na mistura respiratória) costuma não ter uma segunda chance após um acidente desses, o que garante à profissão o grau de insalubridade máximo. Depois do acidente, Zozo, 38 anos, viu a pressão psicológica aumentar mais que a pressão atmosférica debaixo d’água. “Tive pesadelos e flashbacks do que aconteceu”, diz o mergulhador, posteriormente diagnosticado com ansiedade e estresse pós-traumático.

Até então, ele acumulava oito anos de experiência e cerca de 30 confinamentos em câmaras hiperbáricas como a daquele mergulho. Dentro delas, Zozo e os demais operários do mar ficam por quase um mês. São grupos de quatro a oito pessoas, espremidas em um espaço cilíndrico de 2,5 metros de diâmetro. Eles comem (praticamente em pé), dormem e trabalham isolados do mundo. Com uma espécie de elevador, o sino, eles chegam a profundidades extremas onde ficam por até 6 horas realizando a manutenção de tubulações e redes extratoras de petróleo.

O dinheiro vai embora com tatuagens, viagens, festas e mulheres - e o mergulho torna-se um vício perigoso

Na hora de voltar para o mundo real, muitas vezes, o peso do oceano é substituído pelo peso do confinamento. Entre fotos da família e solidão cotidiana, é comum ouvir choros nos camarotes. “Todo mundo que satura sonha que está fora da câmara”, diz Zozo. A parceria acaba sendo necessária à sobrevivência. Enquanto chora, o mergulhador recorda da vez em que seu compadre e parceiro de câmara socorreu sua esposa grávida após o rompimento da bolsa. “Ele chegou antes de mim em terra e disse para não me falarem nada até eu voltar à superfície”, lembra ele.

Para muitos, o alto preço do quase cárcere vale a recompensa. A cada saturação de 28 dias, o mergulhador ganha cerca de R$ 32 mil, praticamente dez vezes seu salário mensal – mas, por lei, só é permitido fazer quatro mergulhos desse tipo por ano. Em pouco tempo no emprego, Zozo comprou um apartamento mobiliado, trocou de carro e passou a frequentar restaurantes caros. Alguns colegas não mantêm o prumo. O dinheiro vai embora com tatuagens, viagens, festas e mulheres – e o mergulho torna-se um vício perigoso. “Tem cara de 50 anos que faz saturação e não tem uma casa”, diz ele.

Fôlego de sobra

Apesar dos excessos de outros mergulhadores do gênero, Adalberto Barbosa da Silva está há muito tempo na linha. Com 67 anos, se diz o mais velho mergulhador saturado em atividade no Brasil. Desde 1978, ADB, como é chamado pelos companheiros, deixa a família em terra e parte para o confinamento. O mergulhador teria direito a aposentadoria especial após 25 anos de serviço, pelo grau de insalubridade da função. Em vez disso, deu entrada na previdência social com 30 anos de carteira e continuou a mergulhar. “Só assim para conseguir manter um padrão de vida de classe média alta”, afirma.

Barbosa já chegou à marca de 316 metros de profundidade, uma das mais extremas já alcançadas no mundo. “Hoje em dia eu não sinto nada diferente nos mergulhos: não fico com ansiedade ou com alguma coisa no peito”, diz. Quando começou na profissão, o único contato com o mundo era via rádio.

Atualmente, há câmaras equipadas com televisão e computador com internet. A tecnologia das ferramentas de trabalho também evoluiu, mas os problemas de saúde nos sinos e nas câmaras de mergulho persistem. Por conta da alta pressão, o ar atmosférico é substituído por soluções chamadas Heliox ou Trimix, nas quais o nitrogênio é trocado por hélio – ao mesmo tempo, herói e vilão da saturação.

Um mar de problemas

Sem o hélio, os mergulhadores seriam embriagados em um processo denominado narcose (em que o nitrogênio é absorvido pelos tecidos do corpo e passa a retardar os impulsos nervosos). A absorção do gás substituto do nitrogênio, no entanto, deixa a voz mais aguda e o paladar menos apurado. As refeições, entregues periodicamente através de uma pequena antecâmara, ganham gosto metálico. “Você leva sua  pimenta de casa e um quer ter a pimenta mais forte que a do outro”, conta Zozo.

Além disso, o hélio dificulta a regulagem térmica do ambiente, tornando comum discussões sobre a temperatura. Como adicional, a umidade nas câmaras facilita o ataque de bactérias e fungos à pele, às unhas e aos ouvidos, como afirma o doutor Ricardo Vivacqua, um dos maiores especialistas em medicina hiperbárica do país.

Segundo ele, a situação ruim seria pior sem o sistema de confinamento. A câmara evita as doenças descompressivas. Causadas pelo escape de gases das células, elas podem levar à morte. “Quando você volta muito rápido à superfície, a pressão é diminuída e o gás forma bolhas no corpo”, explica ele, comparando a reação a uma garrafa de refrigerante quando aberta. Dos 28 dias confinados, cerca de dez deles são dedicados a dessaturação (o retorno à pressão superficial), segundo Vivacqua.

O médico já sentiu no próprio corpo a pressão a que os operários saturados são submetidos. Um mergulhador quebrou a perna durante uma operação de manutenção e, como não podia sair da câmara, teve de ser socorrido por Vivacqua do lado de dentro. “Saturei e montei um mini-Centro de Tratamento Intensivo na câmara”, diz o médico, responsável por avaliações constantes dos mergulhadores da Bacia de Campos (Rio de Janeiro). Ele reconhece que atualmente as doenças por descompressão são raras, superadas pelos problemas psicológicos. “Não é qualquer um que aguenta esse confinamento, o cara tem que ter uma cabeça muito boa”, diz.

Não é qualquer um que aguenta esse confinamento, o cara tem que ter uma cabeça muito boa Renato Vivacqua, especialista em mergulho saturado

Todos os mergulhadores saturados atendidos por Vivacqua são contratados da Fugro, empresa que, atualmente, está sozinha na realização dessa atividade no Brasil, sendo terceirizada pela Petrobras. “Qualquer setor com só uma empresa no mercado cai em qualidade de serviço e funcionários”, afirma Nélio César de Almeida, membro do conselho fiscal do Sintasa, sindicato da categoria, e mergulhador experiente que abandonou a atividade com dores na coluna. Máquinas são utilizadas em algumas atividades ou em profundidades maiores que 300 metros, mas ainda não substituem o humano. “O robô faz o feijão com arroz”, diz Sandro Zozo.

Após o acidente em 2012, ele não consegue mais entrar em um sino de mergulho. Tudo o que quer é mudar de função dentro da Fugro (discussão que está na justiça). Trip entrou em contato com a empresa, mas ela não se manifestou até o fechamento desta edição. Abalado, Zozo não topa nem colocar a máscara na cabeça para a sessão de fotos desta matéria. Ainda carrega a pressão de quem escapou da morte no fundo do mar.

Formação não saturada
Faltam cursos de especialização tanto para os mergulhadores quanto para os médicos que cuidam deles
“Deus é brasileiro e hiperbaricista.” Renato Rocha-Jorge toma a frase emprestada de um amigo para definir o mergulho no país. Ele é um dos sócios da Divers University, um dos poucos centros que ofereciam curso de mergulho saturado no Brasil. Atualmente, a formação na área é ministrada apenas pela Marinha no Centro de Instrução e Adestramento Almirante Áttila Monteiro Aché (Ciama). Ainda que restrita, a formação está aquém de padrões europeus, segundo Rocha-Jorge. “O mergulho brasileiro é amador”, diz ele. A norma reguladora da atividade, a NR-15, está defasada em 30 anos, enquanto o seu equivalente das Forças Armadas, a Normam, nem sempre é utilizado nos navios. A medicina específica também sofre. “Nem todo médico sabe tratar um mergulhador”, afirma Irene Demetrescu, instrutora da DAN, associação internacional dedicada à segurança de mergulhos recreativos. “A medicina hiperbárica não é tratada como especialidade, mas, sim, como área de atuação”, diz.


Matéria originalmente publicada na revista Trip de janeiro de 2014. Fotos por Caio Palazzo.

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Cultura, Vídeo

Um Papo Fanti Sobre o Hermes e Renato

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Franco Fanti, de azul. Crédito: Instragram do HeR.

Tem um episódio do Hermes e Renato que tira sarro de toda a cultura do funk carioca dos anos 90. Tem um outro que tira uma onda das igrejas evangélicas. Tem um que é pura escatologia. Tem um monte do Boça, o supra sumo do paulistano babaca. E tem aquela série do imortal Joselito aloprando a política em propagandas eleitorais. Tem também aquele programa de auditório sensacionalista. Tem mais um que nem esse. Tenho pra mim que o humor dos caras facilmente explica, além do deboche, muitas coisas da vida.

Outras coisas são difíceis de explicar. Aos 35 anos, Fausto Fanti foi encontrado morto em sua casa no dia 30 de julho de 2014. Fundador do grupo brasileiro de humor mais prolífico dos anos 2000 — o Hermes e Renato coleciona mais de dez temporadas na TV aberta, incontáveis personagens e um sem fim de bordões —, o humorista cometera suicídio confirmado dias depois por inquérito policial e por seu irmão, Franco Fanti. “Qualquer um pode ter depressão, passar por isso. (…) O caminho natural de uma pessoa depressiva é se suicidar”, me disse ele.

O Franco tem 33 anos, cinco filhos e já fez um ensaio nu. “Mentira!”, diz ele para duas dessas afirmações. Irmão mais novo do Fausto, o cara faz rir de graça. “Lembro que uma vez eu imitei um angolano para um angolano e o cara acreditou. A galera se cagou de rir. Eu tinha essa coisa.” Ele também tem os trejeitos do irmão — ou vice-versa. O riso meio preso, a cabeça meio de lado depois de uma piada bem-sucedida, o ar sério pro escárnio. “Eu e meu irmão sempre fomos muito debochados.” Quem consegue explicar essa?

Na nossa conversa, o Franco se preocupou em botar em pratos limpos temas caros a quem é fã do grupo. A saber: o Hermes e Renato continua mesmo após a ida do seu irmão com um canal no YouTube e com um programa de TV com estreia prevista para março no canal a cabo FX. “Ainda vai ser vanguarda, mesmo que a gente faça algo repetido, porque tem algo diferente de tudo que está sendo feito”, me contou ele, subvertendo o termo queridinho do elevado circuito das Belas Artes para um projeto tão sem noção quanto o dogão do Joselito.


O canal oficial do Hermes e Renato no YouTube.

Além da falta de limites, o Franco continua no grupo. O cara esteve com eles desde o começo, seja quando tudo não passava de brincadeira na casa deles em Petrópolis, seja escrevendo roteiros para quadros de sucesso da trupe. No papo, que rolou na lanchonete ao lado da antiga MTV, ele também falou do que mais vem pela frente, da relação com o irmão e de suas idas e vindas com o Hermes e Renato. Eu também tentei, mas tenho o Jornal Jornal como referência pra profissão e não consegui fugir à piada infame. Troquei uma ideia com o Franco na Real.

Você já fazia parte do Hermes e Renato antes mesmo de seu irmão morrer, certo?
Franco Fanti: Tudo começou em casa. Há muito tempo eu, meu irmão e o Adriano (o Joselito) estavam no início mesmo. Isso está naquele documentário. Até entrar pra MTV eu participava. Quando entrou na MTV eu fui morar em Nova York. Eu tinha voltado a escrever oficialmente pro grupo desde 2009. Eu vinha aqui, participava, dava ideia, mas nunca estive aqui. Esse ano foi a primeira vez que eu vim pra cá mesmo pra escrever com eles. Foi uma volta.

Sua participação então era com o roteiro?
Eu participava de algumas esquetes também. Fiz participações antigas e também nos 10 anos de MTV, vinha de bobeira mesmo, mas nada oficialmente. E escrevia porque estudei roteiro para cinema e desde então eu comecei a escrever oficialmente pro programa.

Quanto tempo você ficou fora?
Fiquei um ano e pouco. Fui pra morar fora com minha namorada à época.

Como era seu contato com os caras aquela época?
Todo mundo é amigo de infância, né. Meu irmão é meu irmão, o Adriano é meu vizinho de porta e o Felipinho estudou comigo. O Marco era mais amigo do meu irmão, estudou com ele, mas desde que vim pra São Paulo a gente se aproximou muito.

Quando você voltou para o Brasil?
No meio de 2003.

O Hermes e Renato tinha uns três anos de MTV. Como era sua relação com o grupo até essa época?
Não teve um acontecimento que tivesse me feito parar de participar do programa. Lembro que eu fiquei um pouco intimidado porque a gente fazia um negócio pra gente, de brincadeira. Quando teve equipe eu era muito novo. A gente foi regravar personagens que eu fazia e me posicionei para não fazer. Eu fazia a mulher do Renato, mas não queria fazer. Quando era só a gente eu ficava muito mais solto. E foi numa fase de adolescência, 16 anos, lembro vagamente desses pensamentos. Eu me senti incomodado e naturalmente fui saindo. Conheci essa minha namorada, queria morar fora, aí fui.

E quando você chegou ao Brasil?
Depois que eu voltei de Nova York, eu neguei meu lado artístico por muito tempo. Fui dar aula de línguas — estudei vários idiomas –, fui trabalhar com hotelaria. Neguei esse lado que tenho desde criança, mas era algo que não tinha como negar. Quando voltei, fui trabalhar em uma loja no Rio de Janeiro. Lembro que uma vez eu imitei um angolano para um angolano e o cara acreditou. A galera se cagou de rir. Eu tinha essa coisa. Eu fiquei magoado de não estar no grupo, mas não tinha motivo pra eu não estar lá. Simplesmente aconteceu, eu não resolvi isso dentro de mim. Eu varri pra dentro, nem pensei que eu tinha de fazer aquilo. Em 2007, depois de um tempo, eu comecei a estudar cinema. Me formei, escrevi três peças, dirigi uma peça e comecei a trabalhar com eles mais uma vez. Falei com meu irmão, mas ele me protegia muito. Eu sou mais novo. Ele era muito preocupado de eu vir pra cá e passar alguma dificuldade, de a MTV não ter condições de me pagar bem para eu estar aqui. O Hermes e Renato estava em cinco pessoas. Então quando eu voltei a escrever, foi mais um pagamento simbólico.

E como você se dava com seu irmão?
A gente nunca foi próximo de ser brotherzão de contar intimidades, mas a gente se entendia. A gente se perguntava das coisas e a gente não brigava mais como na adolescência. Esse ano eu busquei estar próximo dele, não vim pra cá somente pelo programa. E nossa relação melhorou muito. Eu sabia intimidades dele, ele as minhas. Eu estava morando com ele. Voltei pra São Paulo no início desse ano.

Pra participar do novo projeto?
Sim, meu irmão fez essa proposta de estar aqui escrevendo com eles. Na temporada passada tem vários roteiros que são só meus, mas ele queria que eu estivesse aqui com todo mundo. O Felipinho também tinha me dito isso ano passado e meu irmão veio com a proposta, mas para eu voltar como ator também. Aceitei, achei uma boa ideia e já tinha feito o piloto, coisas antes de meu irmão morrer. Tinha voltado já.

Como vocês enxergam a influência de vocês nessa geração de adolescentes dos anos 2000? Vocês eram moleques também, principalmente você.
Desde pequeno tudo foi se encaixando. Eu e meu irmão sempre fomos muito debochados. A gente sempre falava “caraca, olha essa mulher”, “e o cabelinho desse cara”, essas coisas. A gente criava situações, histórias, então foi natural. O nosso cunhado chegou com a câmera e puxou algo que a gente tinha naturalmente. A coisa da situação cômica, debochada. A gente é assim. E eu tive de redespertar o seguinte no grupo: somos muito privilegiados porque nos divertimos quando trabalhamos. A gente vai pensando, vai rindo, desde adolescente é assim. Todo mundo do grupo sempre teve isso. Tem uma coisa de afinidade entre nós.

O que os pais de vocês achavam?
Ela ria. Quando eles voltavam de viagem, eles viam a casa toda bagunçada, roupa fora do lugar. Mas ninguém botava tanta fé, nem eu mesmo. Acho que só meu irmão acreditava, por isso ele mandou a fita. Eu achava que era uma brincadeira.

Pergunto isso porque a relevância que vocês tem hoje é equivalente a grandes outros grupos de humor, como Os Trapalhões. Vocês nunca pensaram que fosse chegar aí, né?
Não. E essa situação do meu irmão foi importante para o grupo quanto a auto-estima. Deu pra perceber a proporção que tinha porque a gente não sabia. Ou melhor, a gente sabia, mas não sabia. A gente tinha e não tinha essa noção. Foi algo que fez a gente perceber claramente o quanto a gente influenciou e abriu portas pro humor no Brasil, influenciando uma geração inteira. Tudo tem influências, mas a gente criou uma linha do humor que é muito única. Só depois disso a gente tomou essa consciência. Isso é minha opinião. Eu mostrei pra eles as mensagens que eu recebi. As pessoas valorizaram mais, falaram mais disso. O grupo sempre foi meio alternativo, né? Sempre foi vanguarda. Quando se é vanguarda é difícil de virar superpopular.

Esse conflito existiu quando vocês foram pra Record, não? Um canal maior, mas em que talvez não fosse possível atuar como vanguarda.
Isso foi um aprendizado pra todo mundo perceber que nosso trabalho é muito autoral. Não que não tenha esquetes boas que as pessoas nem viram. O público mudou ali. Muita gente que acompanhava, não acompanhou. Deu pra criar coisas legais, apesar de ter perdido um pouco a liberdade. O humor como o nosso não pode perder tanto a liberdade.

Qual o humor de vocês?
É muito autoral. A gente satiriza tudo e todos, até a gente mesmo. Não só da TV. E meu irmão tinha a preocupação de sempre mudar isso, sempre fazer algo diferente. A gente fez novela, Tela Class, esquete de situação, esquete de sátira.

Tirar onda da própria MTV…
É, sim. Nessa temporada também tem isso. A gente vai fazer muitas esquetes nessa temporada. A gente tava pensando se ia ser uma linha mais de teatros, vários filmes, sempre pensando em mudar, fazer algo novo.

O que você pode adiantar pra gente dessa nova temporada?
Deve estrear provavelmente lá pra março, quando é a janela de estreia do canal. E vai ser uma colcha de retalhos com várias esquetes de várias coisas. Situação, sátira, quadros com personagens antigos e novos.

E como é trampar com um orçamento maior que o orçamento da MTV? Vai rolar ainda aqueles bonecos brancos, aquela roupa tosca de mulher pelada?
Isso é engraçado. Muitos fãs confundem o trabalho bem feito com a perda da verve do humor. E isso não se perde. Se você tem orçamento maior você faz as coisas com mais qualidade, mas a essência é a mesma. A gente gosta de fazer coisa bizarra, coisa tosca, aquela coisa de visual com sangue, escatologia. Isso não se perde, só vai ser mais bem feito. Continua tosco, mas ser bem filmado e bem produzido não exclui isso. As pessoas confundem as coisas, mas não perdemos nada.

E vocês já estão gravando?
Estamos gravando coisas pro canal do YouTube, gravamos um piloto — com meu irmão, inclusive — e gravamos vinhetas da Fox durante a Copa. Essa semana a gente vai voltar a gravar as últimas esquetes.

Vão ser quantos episódios?
Serão doze episódios, provavelmente a partir de março. Isso tudo quem define é a Fox. O programa terá 22 minutos, meia hora com intervalos. E tem o canal no YouTube também. A gente não era dono da marca, mas agora a gente é dono do nome e está trabalhando para conseguir o acervo que também não é nosso, é da MTV. A gente gravou, mas não é nosso. Por isso a gente não lançou DVD nem nada. A gente está trabalhando pra isso, além de produzir coisas exclusivamente pro canal. Vai ter um programa de entrevistas do Joselito. Mesmo coisas que a gente que já foram feitas, a gente faz de uma forma muito característica. É uma sacada muito específica. A gente pretende fazer um aquecimento com o FX.

O Boça e o Joselito continuam na série?
Continuam. O Documento Trololó também. E vai ter música. Isso é algo natural também. É nossa característica, tem um pouco de tudo. Os personagens do meu irmão a gente teve de reescrever porque não faz sentido.

E palavrão?
A gente estabeleceu que vão ter trinta palavrões por episódio.

Hahahahaha!
Mentira, pô, mais vai ter aí.

E o Jornal Jornal. Aquilo ali devia ser referência pra todo jornalista.
Tem as piadas infames, né. Isso vai continuar. As pessoas vão se surpreender com o nível que foi mantido mesmo sem irmão. Um nível que foi até superado, depende do que as pessoas vão achar. Está tudo muito bom. Muito bem produzido.

Vai ter alguma referência a ele?
Tem os quadros que ele fez. Coisas que foram gravadas com ele.

Como vai ficar o Hermes e Renato, a dupla?
O nome continua, mas ninguém vai fazer os personagens do meu irmão. Por mais que eu faça bem, e eu tenho confiança que tem muitas vertentes que eu sei fazer bem, acho que vai causar um estranhamento desnecessário. Vão acabar fazendo comparações, vão dizer que eu estou substituindo — e eu já estava no grupo —, mas alguns quadros não tem como. A gente ainda não sabe o que vai fazer.
Qual a principal influência que seu irmão deixa no trabalho de vocês daqui pra frente?
Meu irmão é um mestre. Ele ensinou muito pra eles e pra mim. Os princípios do grupo são muito fortes. A gente concorda numa linha de direção que meu irmão deixou. Isso segue. Todo mundo participava, mas ele direcionava. Ele falava se tal coisa era de mau gosto. A gente satiriza todo mundo, mas a gente não faz um ataque gratuito.

Algo que muita gente faz no humor hoje em dia.
É. E algo desnecessário, exagerado. Ele falava que não era de bom tom, não tinha esse tipo de ataque.

Em 15 anos de carreira eu não me lembro de grandes polêmicas em que vocês tenham se envolvido…
Até teve, mas meu irmão tinha esse cuidado de não chutar bêbado, como ele falava. Bater em quem é fraco. Tinha esse cuidado de não fazer uma piada agressiva desnecessariamente. A gente pode satirizar tal pessoa e tal quadro de um programa de uma maneira mais sutil, não de uma forma agressiva. Isso abriu portas para um humor mais polêmico e agressivo, mas vejo que as pessoas apelam pra um humor agressivo. Fazer polêmica mesmo.

Qual o papel do grupo nesses anos que estão por vir? Muitas coisas mudaram no humor. O Porta dos Fundos é o exemplo que todo mundo usa porque em dois anos os caras saíram da internet e foram pra TV, mas também tem essa febre do stand-up comedy. Aliás, um quadro muito bom de vocês é aquela do Dudu Marchiori. Enfim, como o humor de vocês se enquadra daqui pra frente?
Uma coisa legal do nosso humor é isso: a gente tem capacidade de fazer qualquer vertente, sem falsa humildade. A novela foi um exemplo disso, dramaturgia, dublagem, esquete de situação, etc. E a gente vai fazer coisa pra internet também, uma outra linguagem. O nosso trabalho ele tem renovação e continuidade. A gente continua sendo vanguarda, mesmo com algumas coisas repetidas. Algumas esquetes que a gente fez nessa temporada não são novidade, mas são muito características. É criar bordão, a gente sabe que isso influencia. E nossos fãs são muito fiéis. Quem gosta, gosta muito. Acompanha muito. Ainda vai ser vanguarda, mesmo que a gente faça algo repetido, porque tem algo diferente de tudo que está sendo feito. É muito característico.

Como você soube da morte do seu irmão? Você que o encontrou?
Não. Não tenho problema de falar disso, mas algumas pessoas tem uma curiosidade nisso e não acrescenta em nada. O que eu gosto de falar disso é o que todo mundo tem a aprender com essa história. Foi algo que foquei muito quando me abri naquele texto, a questão da depressão. E a confusão de achar que comediante não pode ter depressão porque o cara faz graça. Qualquer um pode ter depressão, passar por esse problema. Não tenho problema em falar sobre isso porque tem que quebrar esse tabu. Isso quebra o preconceito em relação a tudo que envolve o suicídio. O caminho natural de uma pessoa depressiva é se suicidar. Isso vai acontecer se a pessoa não se tratar. É natural. O mais importante disso tudo é o aprendizado que eu tive eu quis passar para outras pessoas. Muita gente veio me agradecer por isso. Tem muitas histórias de muita gente que me escreveu falando sobre isso.

E o que aconteceu logo em seguida? Quando soube, lembrei da morte do MCA, dos Beastie Boys. A banda acabou. Também achei que isso fosse acontecer com vocês.
É. Muita gente achou. Mas isso volta à sua questão do legado do meu irmão. Ele deixou um caminho muito claro que todo mundo concorda. Todo mundo vai ver duas coisas: como eu tenho a ver com tudo, como não sou uma pessoa estranha e como minha linguagem está encaixada ali, afinal, eu já fazia parte daquilo; e a importância daquilo pra gente, porque ali está a nossa vida, e a importância para os outros, porque recebi muita mensagem de gente falando que quando estava triste ia ver nossos vídeos. A gente percebeu tudo isso. Levar o riso é uma dádiva. Ganhar pra isso, então… É muito legal. A gente leva alegria pra muita gente. A gente entendeu tudo isso e, por mais que você saiba, é diferente de ter tanta gente te falando. Você me falou, assim como muita gente, que a gente influenciou o humor, a personalidade. Recebi muita mensagem assim. E pelo meu irmão também ficou claro que a gente tinha de fazer aquilo. Ele e a gente batalhamos muito pra chegar aqui.

Algo como o registro do luto.
Sim, houve também uma valorização maior.

Eu li seu texto no Facebook na ocasião da morte do seu irmão. Lá você fala da psicologia. Você também estudou psicologia?
Eu gosto muito, fazia terapia há um tempo. Voltei a fazer agora. Gosto de fazer, gosto de estudar também, perguntou pra minha psicóloga como é e como funciona. Minha relação é essa. Comecei a perceber que tinha alguma verve pra isso. Tem umas dez pessoas que estão com a mesma terapeuta que eu porque eu indiquei.

Bem, você está em São Paulo de vez?
Sim, estou aqui. Sinto falta do Rio, mas estou por aqui. Gosto daqui, acho foda esse lance de ser uma cidade grande, mas ao mesmo tempo é foda de ter tanta gente, tanto concreto, de ser tão opressora. A gente tenta fazer tudo aqui perto.

Vocês ainda gravam por aqui? Quando eu era moleque eu estudava na Lapa e corria o boato na escola de que vocês gravavam por ali.
Sim, um monte de coisa. O piloto foi ali.

Um dia eu peguei o elevador da MTV com uma camiseta do Massacration. Encontrei o Marco e comentei com ele sobre a volta pra MTV, essas coisas. Eles me pareciam ser caras bem fechados.
O Felipinho não é nada fechado! Meu irmão era, muito tímido também. Ele tinha dificuldade de se abrir com os amigos. Eu fiquei feliz de conseguir isso com ele. Ele era muito tímido e, apesar de algumas pessoas serem folgadas porque ele era humorista, nunca vi ele dando fora em alguém ou sendo mal-educado. Ele era respeitoso, simpático, solícito. Um bom exemplo pra mim. Aprendi muito com ele e isso fica.

Como fica sua família toda agora?
Eu morava com ele, então durante essa transição eu estou na casa dele com a esposa e a filha dele. Todo mundo está muito bem muito por conta do carinho dos fãs. As pessoas foram muito carinhosas em geral. Sempre tem um ou outro pela saco que fala merda, mas quem falou merda a galera detonava. Esse carinho deu pra gente uma noção de responsabilidade do nosso trabalho, da importância na vida das pessoas. E a gente não tem essa coisa de estrelismo, todo mundo é pé no chão. Superar você nunca supera uma situação dessas, mas você aprende a lidar com isso. E pela distância que aconteceu a gente está muito bem. A gente foi muito abençoado nesse sentido.

Você está com uma tatuagem de Santo Antônio?
São Tomé. Depois dessa situação toda eu queria me reconectar com o mundo espiritual. Já segui muitas linhas, tudo que você pode imaginar. Antes de meu irmão morrer, eu estava pensando nisso: mesmo que fosse alguma coisa dura, eu queria acreditar que a vida não era só aqui. Essa situação me fez eu me reconectar com o lado espiritual. Fiz essa tatuagem para me lembrar. São Tomé só acreditava vendo, tocando, né. Eu também comecei a acreditar mais. E essa aqui ele sempre quis fazer, então eu fiz pra me lembrar que tem muitas coisas que a gente precisa concretizar no grupo. Profissionalizar, ter uma loja, fazer cinema, fazer o canal de internet, concretizar tudo por nós e por ele. É um desenho que ele fez.É como uma árvore genealógica.

Então tá bom. Eu tô me segurando pra não soltar a piada do sejamos francos até agora.
Hahahaha! Todo mundo faz isso e acha que teve uma sacada genial!

Essa estrevista foi realizada originalmente para a VICE Brasil.

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Cultura

Máquinas na Pista: A Evolução dos Sintetizadores Musicais

Muita gente adora exaltar a Liverpool dos Beatles, a São Francisco do Jefferson Airplane, a Detroit do Inner City, a Paris de Serge Gainsbourg, a Lagos de Fela Kuti, a Dusseldorf do Kraftwerk, a São Paulo dos Mutantes, a Kingston do Bob Marley, a Recife do Chico Science e Nação Zumbi. Difícil mesmo é ouvir alguém enaltecendo Trumansburg, cidade a que todos esses artistas devem ao menos uma canção. Foi nesse pequeno município norte-americano onde Robert Moog realizou seu invento mais famoso, o Moog, um dos principais atores de uma revolução cultural e tecnológica operada pelos sintetizadores.

“O que aconteceu de especial com o Moog é que ele se tornou popular”, conta o músico e sound designer Paulo Beto. Paulo tem 11 sintetizadores, mas lembra da primeira vez que ouviu uma máquina dessas, aos 12 anos. “Naquela época eu tinha medo de alienígenas e da bomba nuclear, por causa da Guerra Fria. Pensei que fosse alguma dessas coisas!”. Nem uma nem outra, o objeto estranho se chamava Antenna, faixa de 1975 do grupo alemão Kraftwerk.

A banda sempre é mencionada quando o assunto é música eletrônica, mas Paulo afirma que, assim como o Moog, ela não é o primeiro nem único nome relevante quando fala-se de som gerado por circuitos eletrônicos, a chamada síntese sonora. Os experimentos pioneiros com esse princípio datam de fins do século XIX, correndo em paralelo com a invenção do telefone – muito tempo antes do Tomorrowland e de seu séquito fiel a graves estourados. “O Telarmônio é o primeiro aparelho eletrônico em que cada tecla é uma frequência e, por consequência, uma nota”, diz Francisco Velázquez, músico, produtor e DJ.

A estação central do Telarmônio

Conterrâneo e torcedor do Málaga, Francisco cresceu no sul da Espanha, região que desenvolveu sua cena eletrônica à margem da endinheirada Ibiza. No Brasil, ele ministra cursos e oficinas de música. A paixão por essa arte o levou a estudar acústica e elétrica, campos que se encontraram em outra grande mudança para o mundo sintético. “O próximo grande salto foi a invenção do oscilador porque ele permitiu um controle de voltagem”, diz Francisco. Para ele, isso determina a criação do sintetizador enquanto instrumento musical.

O desenvolvimento dessa tecnologia na primeira metade do século XX é acompanhado por artistas e pesquisadores das potências capitalistas. Órgãos acadêmicos e midiáticos como o IRCAM, na França, e a NHK, no Japão, apressaram-se em produzir sons para aquilo que em breve seria chamado de eletroacústica. Aos poucos os ruídos ganharam públicos maiores, especialmente quando a intenção era soar artificialmente. “A BBC fazia trilha de ficção científica com recursos eletrônicos”, diz Paulo Beto.

O Anvil FX, de Paulo Beto, em ação. Crédito: Ariel Martini

Ainda assim, o uso desses aparelhos era restrito. Financiamentos estatais mantinham a maquinária grande e pesada e nem todo mundo podia botar a mão nela. Mesmo um filme com orçamento elevado apelava para outros recursos: a música de Forbidden Planet, de 1956, foi inteiramente composta por circuitos eletrônicos criados pelos músicos Bebe e Louis Barron – e Leslie Nielsen ainda não tinha nem cabelo branco.

Nesse mesmo ano, Bob Moog já era um nerd que vivia dos instrumentos que construía. Ele vendia Theremins de fabricação própria e, durante uma conferência, o jovem conheceu o músico Herb Deutsch. A parceria resultou em ideias como adicionar um teclado a um sintetizador, uma interface familiar e reconhecível para a maioria dos artistas. O barateamento de matéria-prima como silício foi o último parafuso de um aparelho acessível que usasse eletrônica para gerar som. Em 1963 nascia o Moog e em 1971 era lançado o primeiro MiniMoog.

Do MiniMoog ao iPod

A diferença entre os aparelhos determinou a popularização do pequeno. Assim como o iPod na virada dos anos 2000, o MiniMoog representava uma grande facilidade em comparação a seu antecessor e seus concorrentes. “Todo mundo se apaixonou porque dava pra carregar ele. É pesado pra caramba, mas pra época era uma maravilha!”, conta PB. E assim como a Apple, a Moog cresceu com a concorrência na cola, como a ARP, processada sob acusação de plágio.

O funcionamento reduzido do equipamento, no entanto, entrou na linha de produção de várias empresas. Em vez de usar uma penca de fios para conectar os osciladores, filtros, envelopes e amplificadores do sintetizador (os módulos), os aparelhos já vinham com essas partes plugadas entre si, isto é, o patch já estava feito. “O primeiro Moog era chamado de modular porque havia uma sequência de módulos para o patch e o MiniMoog já tem esse patch básico”, explica Arthur Joly, produtor, músico e Professor Pardal da RecoHead.

Arthur Joly e sua fantástica fábrica de sons eletrônicos. Crédito: Felipe Maia

“Em 2009 eu comecei a pesquisar a história do modular e descobri um kit para montar o próprio bumbo eletrônico. Como eu já tinha um pouco de noção de solda, eu montei meu primeiro bumbo. Depois comprei os outros kits: uma caixa, um tom e um clap. Montei os três, pus numa caixa de madeira e fiz meu primeiro synth”, diz Arthur. Desde então, ele já construiu mais de trinta geringonças musicais para artistas e amigos. A queridinha é a JolyMod1, armário eletrônico que só sai do seu estúdio por uma grana para realizar seu sonho. “Eu vou fazer o maior sintetizador do mundo”.

O título pertence ao TONTO, sintetizador britânico que tem o tamanho de uma Kombi e meia. Célebre pelas medidas, ele também ganhou fama ao ser usado por músicos como Stevie Wonder e Quincy Jones entre os anos 70 e 80. Essa época marca os primeiros encontros de maior alcance entre eletrônica e música popular. No Brasil, músicos como Jorge Antunes e Rodolfo Caeza estreavam em discos de eletroacústica e bandas como 14Bis e Os Mutantes usavam a sonoridade psicodélica dos sintetizadores. “A Rita Lee foi tocar em outro país e saiu daqui levando um teclado com um adesivo do Moog. Ela jogou esse teclado fora e voltou pra cá com um Moog de verdade!”, lembra Paulo Beto.

“A máquina é foda”

Durante esse período também surgiram sintetizadores dedicados como as caixas de ritmo e as baterias eletrônicas, caso da Roland TR-808. Elas cunharam gêneros que ganharam as prateleiras de lojas de discos e tags de MP3. “O techno de Detroit foi feito por gente que não tinha grana com sintetizadores que hoje a gente chama de brinquedos”, conta Pedro Zopelar.  Músico e produtor, ele foi selecionado para a Red Bull Music Academy 2014, residência artística que anualmente reúne artistas da música eletrônica. “Os sintetizadores mudam a linguagem da música. Eles dão a possibilidade de fazer uma apresentação, mesmo com improvisação, usando somente o som gerado por máquinas”, diz.

Pedro Zopelar com sua Analog Four. Crédito: Felipe Maia

Mineiro de Caratinga, o jovem teve seu primeiro contato com sintetizadores quando o MiniMoog já estava na categoria vintage do eBay. Arthur Joly explica: “há uns cinco anos perceberam que esses instrumentos não deveriam ser esquecidos, que eles tem riquezas que não ouvimos nos modelos digitais”. O digital em sua retidão provocou uma ressaca do erro. Zopelar, por exemplo, grava algumas de suas músicas em rolos de fita. “Acho que cada vez mais tem gente mais nova curtindo muito essa estética antiga, de VHS”, diz ele.

A linguagem binária, contudo, se sobrepôs às correntes analógicas. O mercado está repleto de aparelhos baratos cujas ondas sonoras resultam de cálculos ou emuladores de sintetizadores, os VSTs, que podem ser compartilhados em qualquer rede p2p. Para Francisco, a acessibilidade que nem se imaginava quando da invenção do MiniMoog é uma vantagem, mas também um problema. “Tem tanta coisa que tem gente que não sabe o que focar: tem cara com 15 sintetizadores virtuais sem entender nenhum”, diz.

O espanhol acredita que os próximos passos na tecnologia desses instrumentos devem se voltar ao design. “Acho que chegamos num ponto que é complicado ir mais a frente quanto a síntese, mas acho que vamos revolucionar a ergonomia dos objetos”, afirma. Para Zopelar, o futuro da música eletrônica passa por mais performances ao vivo e isso depende de sintetizadores. O músico faz parte do Anvil FX, grupo fundado por Paulo Beto, e sua mais nova traquitana musical resume os últimos avanços no mercado.  “Esse modelo é um híbrido, ele tenta unir o melhor dos mundos analógico e digital”, diz.

Entre as possibilidades dos VSTs e a textura do MiniMoog, entre baterias eletrônicas e caixas de ritmo, entre campos eletromagnéticos e ondas senoidais, Zopelar se diz convicto: “Qualquer lugar em que eu estiver, na onda em que eu estiver, eu estarei fazendo um som. Sou músico acima de tudo”. E quanto aos sintetizadores, sempre sujeitos a perfeição e ao glitch, ele tem outra certeza: “a máquina é foda!”

Matéria originalmente publicada em julho de 2014 no Motherboard.

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