Category Archives: Esporte

Esporte, Jornalismo

​Fotos de franceses mais ou menos tristes após a derrota na Eurocopa

Minha memória mais viva do tétrico dia do 7 a 1 é flanar pelas ruas de São Paulo como barata tonta. Perder é ruim. Perder em uma competição de peso em casa é um coito interrompido. E você fica na mão sem saber o que fazer, pra onde ir, como terminar.

Nesse domingo, dois anos após nossa tragédia particular, os franceses passaram pelo mesmo purgatório — com menos humilhação. Vítima de um desconhecido Éder matador, a seleção francesa perdeu a Eurocopa 2016 para Portugal por 1 a 0.

O jogo foi no mesmo Stade de France onde Zidane acabou com o Brasil em 1998. Esse é outro trauma que guardo na cabeça, mas nem por isso sou antipático aos franceses. Na dor a gente se reconhece.

Por isso dei um rolê em Paris logo que o jogo acabou. Vi DJs tocando para pistas vazias, garçons varrendo calçadas com mais folhas de árvore que copos, gente que não sabia como voltar pra casa antes do amanhecer e lanchonetes de kebab sem fritas. Tristeza.

Mas também vi uma galera de bem com o que tinha acontecido. Portugueses — muitos de uma de uma geração que serviu de mão de obra de base na França, como foram os nordestinos em São Paulo — e franceses.

De bicicleta, pra provar que não estava tão tonto quanto os parisienses, passei pelos bairros de Menilmontant, République e Bastille. Um trajeto no norte-nordeste apinhado de bares da cidade que, mesmo na derrota, consegue festejar.

Esse senhor me chamou para dentro do bar em que ele estava. Ele queria porque queria que eu tocasse piano. Mas eu não sei tocar, disse a ele. Depois alguém apareceu e fez uma versão embromation de “Chega de Saudade”.

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Cultura, Esporte

Paixão vermelha e branca

No alto, a bandeira no estádio, que na várzea é permitida

No alto, a bandeira no estádio, que na várzea é permitida

O dia 25 de janeiro é uma data especial para os moradores da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo. Eles não comemoram o aniversário da capital paulista, mas a fundação do E.C. Noroeste, o time de futebol da região. A agremiação completou meio século em 2014 e, se a bola colaborar, neste ano leva o único troféu que lhe falta: a Copa Kaiser.

“Esse título é nossa Libertadores”, diz Renato Garcia, 30, vice-presidente da Nação Vermelha e Branca – uma das torcidas organizadas do time -, fazendo alusão à obsessão do corintiano com o torneio sul-americano. Além dela, a Bonde Louco, a Fogo na Bomba e a Anjos do Campo (a ala feminina) empurram o Noroeste em todos os campos de várzea de São Paulo, chegando a alguns milhares de torcedores em partidas decisivas. “Onde tiver Noroeste a gente está envolvido”, diz André Correia, presidente da Nação.

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Esporte

Será só futebol

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O apito final soou como um silvo agonizante de monitor cardíaco. Faltariam palavras para escrever o aconteceu na partida entre Brasil e Alemanha do dia 8 de julho de 2014. Passadas algumas horas, a rede — que, para alegria de Barbosa, não havia em 1950 — fez seu trabalho. Retumbou a maior derrota da história da Seleção Brasileira sob diversas análises, ideologias, piadas rasas, dramas teatrais e pranchetas táticas.

O tempo, falastrão, dirá quais cronistas ganharão o privilégio da exceção à regra (clara) da história, cujas páginas são dedicadas aos vencedores. Enquanto o calendário não passa para deslumbrar o tamanho da cratera e desanuviar o futuro do pós apocalipse, vale recorrer a Gilberto Freyre e seu olhar aguçado de pena afiada.

O desenvolvimento do futebol, não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e de cultura. A capoeiragem e o samba, por exemplo, estão presentes de tal forma no estilo brasileiro de jogar que de um jogador um tanto álgido como Domingos, admirável em seu modo de jogar mas quase sem floreios – os floreios barrocos tão do gosto brasileiro – um critico da argúcia de Mario Filho pode dizer que ele está para o nosso futebol como Machado de Assis para nossa literatura, isto é, na situação de uma espécie de inglês desgarrado nos entre tropicais. Em moderna linguagem sociológica, na situação de um apolíneo entre dionisíacos. O que não quer dizer que deixe de haver alguma coisa de concentradamente brasileiro no jogo de Domingos como existe alguma coisa de concentradamente brasileiro na literatura de Machado. Apenas há num e noutro um domínio sobre si mesmos que só os clássicos – que são, por definição, apolíneos – possuem de modo absoluto ou quase absoluto, em contraste com os românticos mais livremente criadores. Mas vá alguém estudar a fundo o jogo de Domingos ou a literatura de Machado que encontrará decerto nas raízes de cada um, dando-lhes autenticidade brasileira, um pouco de samba, um pouco de molecagem baiana e até um pouco de capoeiragem pernambucana ou malandragem carioca. Com esses resíduos é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é. A dança dançada baianamente por um Leônidas; e por um Domingos, com uma impassibilidade que talvez acuse sugestões ou influências ameríndias sobre sua personalidade ou sua formação. Mas de qualquer modo, dança. (Prefácio de “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho)

A derrota de 7 a 1 foi a derrota da capoeiragem, do samba, do barroco, da literatura, da molecagem, da malandragem e do tal apolíneo-dionisíaco — um gol por vez. Por 90 minutos, o Brasil ruiu frente ao carrilhão germânico, bárbaro e odiosamente polido, pois nem a brecha da ofensa nos foi dada. Da maneira como aconteceu, a derrota nos tirou a folha de identidade colada à primeira página do passaporte com salvo-conduto para qualquer lugar do mundo.

Mas é só futebol. E a capoeiragem, o samba, o barroco, a literatura, a molecagem, malandragem e o tal apolíneo-dionisíaco sobreviverão para reaparecer de tudo quanto é jeito. Muito cedo ou pouco tarde, estarão em novas equipes, times, seleções e, mais importante, peladas, altinhas e jogos de várzea. Com a bola no campo, esses jogadores farão coisas que, de tão simples e belas, serão só futebol.

Não se trata de mística, sebastianismo, catolicismo, espiritismo, pachequismo, scolarismo. É ceticismo do mais racional possível.

Há cem anos o Brasil vive na bicicleta de Leônidas, nos passos falsos de Garrincha, na inteligência de Sócrates, nas firulas de Ronaldinho, na astúcia de Romário, no reinado de Pelé.  Serão precisos pelo menos mais cem anos para que essas coreografias caiam por e pela terra batida dos campinhos. Mais duzentos anos para que símbolos nacionais produzidos, como os bandeirantes do positivismo, tomem espaço de manifestações populares. E mais trocentos anos para que a representação de um povo não se reduza a alguns heróis encarnando um poder mágico em um picadeiro panóptico —  ou só futebol, que nesses últimos cem anos pouco mudou suas regras para se adaptar a atletas cada vez mais sobre-humanos.

No Brasil, ainda será só futebol mesmo que a gestão da santíssima trindade CBF-Cartolagem-FIFA continue a sucatear o esporte com a extrema unção de uma parcela global da imprensa. E como disse uma amiga, quem dirá que foi feio se, daqui a quatro anos, voltarmos a ganhar só com futebol? Como a Argentina pode fazer no domingo, caso vença a Alemanha.

Dirão, com razão, que foi injusto. Não a injustiça agridoce do pior que vence o melhor, mas, sim, a injustiça que se esbalda na estrutura futebolística: um círculo de anciãos que teima em ceder espaço a novos dirigentes, técnicos conservadores e antiquados, contratos cujo retorno financeiro é desigual e questionável, campeonatos com baixíssimo nível competitivo (se muito, disputados),  sub-empregos em times fora das grandes capitais, o esporte disfarçado de salvação messiânica, entre tantos outros que já são sabidos desde que o Brasil é só futebol.

Nessa balança cética, é mais fácil acreditar no sete pintado de Gilberto Freyre que em alguma mudança substancial. Organizações do futebol não dão a mínima satisfação a ninguém. Pragmaticamente, o poder supranacional da FIFA é maior que a ingerência da ONU. Como a revolução é um sonho, que seja um sonho tropical, antropofágico, manguebeat. Mais vale absorver o que há de bom que importar uma panacéia alemã. Idolatrar um modelo internacional pode trazer resultados até piores que a estagnação. Crer nessa solução equivale a dizer que o Brasil não é um país melhor porque não fomos colonizados pelos britânicos.

Mas crer nessas mudanças é utopia. Pouco será feito nos próximos quatro anos. O futebol, para os manda-chuvas, será só futebol. E para quem joga, será só futebol. E de tempo em tempo o Brasil será só futebol. Bêbados, vamos acreditar na vitória, mesmo que as eliminatórias sejam difíceis, mesmo que a Copa América seja vergonhosa, mesmo que ganhemos a Copa das Confederações — vale algo?

Embora fique o carimbo do 7 a 1, nosso passaporte ainda tem as credenciais da capoeiragem de um lance plástico, do samba duma tabelinha, do barroco entre firula e objetividade, da literatura de um novo esquema tático, da molecagem do improviso, da malandragem da catimba e até o tal apolíneo-dionisíaco, coisa de gênio para gênio. Itens que, embora escassos na safra de 2014, dão no pé por aqui.

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Esporte

Black Stars Blocs

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A seleção de Gana deu um nó tático na FIFA.

Como não tinham recebido a premiação pela classificação para a Copa do Mundo, os Estrelas Negras ameaçaram greve: não jogamos contra Portugal pela última rodada da fase de grupos. Sequer cruzaram os braços, a exceção de um treino boicotado, tamanho o poder de barganha que tinham em mãos. Um avião caixa-forte saiu de algum cofre escuso para desembarcar no Brasil com três milhões de dólares em espécie. Numa das cenas mais insólitas dessa Copa, o bicho chegou em Brasília e, com razão, foi escoltado até o hotel dos ganêses.

Se eles fossem metroviários em vésperas da Copa, muita gente ia olhar feio. O Datena ia parar de narrar jogo para voltar correndo pro Brasil Urgente. O tal yellow bloc logo deitaria-lhes a pecha de black stars blocs.

Como são jogadores, conseguiram no máximo arrancar um desagrado da FIFA, por ora. Como o prêmio não será tributado, a Fedération já não pode se gabar de ser a única turma livre de impostos no Brasil. Menos um título corporativo para ela, já que também não deve ser a única a movimentar grandes quantias de dinheiro durante o espaço-tempo Copa. Aliás, sobre dinheiro: embora o valor laureado ao time de Gana seja ultrajante a muita gente (inclusive aos metroviários), a grana nem é tanta perto do soldo do menino Neymar. Nessa história de futebol moderno não tem peladeiro, e sabe-se que o dinheiro fala mais alto que a camisa. O prometido era devido. Como quem devia, temia, a grana pingou.

Com a seleção de Gana não teve Bom Senso FC. Sócrates, da Democracia, e Saldanha, do Comunismo, talvez não gostassem dos fins, mas quem sabe exaltariam os meios dos Black Stars. E se isso não for suficiente para torcer por eles no jogo contra Portugal, ficam aqui mais cinco motivos para torcer por Gana.

Antes deles, vale saber: para chegar às oitavas de final, Gana precisa vencer Portugal e torcer pela derrota dos Estados Unidos para a Alemanha. No fim das contas, também precisa passar os norte-americanos no saldo de gols. Tarefa árdua, mas possível.

Um dos maiores futebolistas da África é ganês. Abedi Pele, nome dado em homenagem ao rei, foi um dos responsáveis por um dos maiores títulos do Olympique de Marseille, a Liga dos Campeões da UEFA de 1992.

– Gana foi eliminada pela mão de Suarez, o vampiro charrua, na Copa da África. Como o uruguaio já provou que seu caráter vale menos que uma cuia de mate da cisplatina, seria mais do que justo ver o time africano recompensado com a classificação para a fase eliminatória. (Loco Abreu continua sendo um mito pela cobrança por cobertura.)

– O time ganês valoriza as raízes do seu país. Nas eliminatórias para esse mundial, os jogadores e a comissão técnica fizeram uma preleção com cânticos tradicionais da terra.

– O povo ganês curte muito futebol. Não que seja diferente de muitos outros países africanos ou latino-americanos (nós todos do sul), mas a empolgação dos caras com o gol contra os Estados Unidos é de por respeito. E isso tudo no Bronx.

– Gana tem uma das cenas musicais mais prolíficas da África. O continente é grande demais, mas Gana consegue resumir nas ruas de Accra o que se passa no lado ocidental da África. Não à toa, Kwame Nkrumah, seu primeiro presidente, foi um dos pioneiros do Pan-Africanismo. Até ele tomar o cargo e o país se transformar em república, Gana seguiu a infeliz cartilha do dominado e foi colonizada por vários países europeus. Conservou centenas de línguas e adicionou o inglês ao léxico. Hoje, é ladeada pela afrancesada Costa do Marfim e pela opulenta Nigéria. Esse encontro sucessivo deságua em formas revistas do hip hop do norte, do suíngue da África francófona e do jazz importado no começo do século XX.

Numa linha do tempo moderna de ponta a ponta, o highlife do Alhaji K.Frimpong and his Cubano Fiestas…

…evolui até o rap do Blitz, the Ambassador…

…e alcança as massas no Afrobeats do Atumpan.

E não para por aí.

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Cultura, Esporte

Como é o futebol?

Now, as many have said, it’s hard to truly appreciate this stuff if you’ve never played before, but if you haven’t, try this. Imagine you’re running as fast as you can. I mean a full-on panting sprint. Now imagine doing something else with your feet at the same time. Seriously, imagine it. It’s hard to wrap your head around the idea, isn’t it? Now imagine there’s another human trying his best to stop you. Imagine that other human is a brawny Brazilian nicknamed Hulk. When you start to see it that way, you realize that soccer isn’t all about the goals. It’s about all the amazing little things that happen along the way.

Além do excelente exercício de imaginação proposto, o trecho acima convida o leitor a jogar futebol ao menos uma vez na vida. A graça é pensar que essa probabilidade norte-americana praticamente inexiste por aqui. Será que há um filho desse solo de mãe gentil que nunca tenha chutado uma bola de futebol?

O texto completo, um resumido guia do estilo “for dummies”, está aqui. Ele foi escrito por Matthew Diffee, cartunista da New Yorker escalado para escrever sobre a Copa do Mundo. Bem capaz que seja um dos poucos da redação que saiba e goste do riscado.

Nota: aparentemente, este blog volta para mais uma temporada.

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