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Música

Ouvindo Frenético

O autor do crime, dessa vez, foi um amigo. A título de proteção não revelo o nome, embora por amizade eu tendesse a revelar. O fato foi que começou com uma frase, “to viciado nessa porra”. Quando escuto isso já imagino as cenas. Em todas eu tenho curiosidade — e inevitável. Até perguntar ou experimentar, contudo, há dezenas de passos. Dessa vez eu corri com os dedos e logo perguntei, “qualé a boa?”. Ele me passa um link e a merda está feita. Viciei. Sou suscetível demais quando a coisa é boa. Acertei na pergunta e na suscetibilidade. A bola da vez é Soil & “Pimp” Sessions.


Um bando de japoneses (e eu te devolvo a pergunta, Tas: para bem ou para o mal, que água eles bebem?) que se bandearam pro free jazz numa pancada só. Arrisco duas palavras: Freenetic Jazz. Veja bem, não é um rótulo, como Nu Jazz. Pra uma trupe de Tóquio que se conheceu em baladas, tem influências latinas e contam no quadro de integrantes com um agitador, isto é, diferente de vocalista, um rótulo é no máximo um detalhe nas suas roupas extravagantes — de fazer inveja ao Também Sou Hype.

Soil & “Pimp” Sessions já espanta pelo nome. Só consigo enxergar algum significado para Sessions. As canções pairam numa intuitividade que fica entre o aleatório e o caótico. Um, por sabermos as forças que impulsionam os improvisos, advindos de marcações de tempo perdidas no espaço (ou na tempestade, vide Storm); o outro, por nem imaginarmos onde tudo aquilo vai dar, como em Fantastic Planet, que bate num consistente hard bop de Nova Orleãs até cair numa boate em alguma ilha do caribe, tocando salsa ou rumba.


No caso do álbum Planet Pimp, a produção teve o trunfo de usar dosadamente efeitos eletrônicos, como se pode ouvir em Go Next! e The World Is Filled by… . A precaução afasta as canções de um fusion forçado ou ultrapassado. É apenas mais um artifício pra empolgação dos japoneses. Nessa loucura, por vezes eles mesmos se perdem: os arranjos quebram a harmonia ou ocorre tal grandiloquência que vira gritaria. E na hora da calmaria — a última faixa, Sorrow — não fazem mais do que um lounge bem xôxo.

O que interessa é que já carrego no bolso e parei de usar escondido. Não obstante, tô falando pra todo mundo aqui. Escute no último volume, mas depois não deixe sua mãe pensar que foi influência minha.

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Maré punk

Não é de hoje que o espírito DIY toma conta dos dedos, mãos, recortes e aspirações das pessoas. A juventude, que sempre desponta e descobre as vanguardas, é o expoente do faça-você-mesmo desde o punk. Foi lá nos idos de 70 que, separados pelo Atlântico, jovens novaiorquinos pós-hippie-folk-rajneesh e a garotada londrina filha do operariado fizeram transgressão com as próprias mãos. Uns no CBGBs, outros na lojinha do Malcom Mclarem, cada qual com suas roupas rasgadas e cortes malfeitos; espetos e furos por todo o corpo; cabelos espalhafatosos. Mas a essa época ainda havia um mar de distância, felizmente ultrapassado por Ramones e Clash.

À esses anos, o mundo já era grande, embora a Terra desse sinais de ficar cada vez menor: a primeira transmissão de guerra pela TV (Vietnã), o primeiro homem a pisar na Lua, a bipolaridade EUA-URSS. Vêm a new wave, o Dead Kennedys, os quadrinhos do Watchmen, a Legião Urbana, a Perestroika, Collor, Nirvana e Clinton. Permeando os anos, tal qual uma costura rota, o espírito punk: fanzines, posters, hardcore, grunge, eletrônico. Daí pra frente começa-se a falar de internet — começa-se a falar na internet.

A rede não criou a roda ou a roca do DIY. Sequer as potencializou. A internet ofereceu possibilidades. Abre-se um rizoma para o punk. Para ser punk, não precisa ser punk. Se Heidegger vivesse, diria: a essência do punk, não é o punk. Fazer por conta própria nada tem a ver com niilismo ou negação ao sistema. As jaquetas fedorentas dos Pistols ainda precisavam da cena proletária, aquela com resquício na mulher trabalhando 18h por dia numa grande tecelã. A única indústria contra a qual se opõe a essência punk, isto é, o DIY, é a indústria cultural. Entenda-se ela como algo bem maior que uma fábrica da Coca Cola com seus publicitários e CEOs meio homens meio suínos.

Indústria cultural, em suma, é algo que nunca sai de moda e nunca sai da moda. Se antes da web ela tinha um poder televisivo e global, agora anda penando para surtir os mesmos efeitos de antes. Como adversário, ele o espírito punk, a essência do faça-você-mesmo, que pelos becos da rede encontrou em nichos e pequenos grupos seus fiéis escudeitos. Em frente ao pc pode-se aprender a pilotar um avião ou a fazer coisas mais nobres.

Ser punk nos novos tempos significa:

Fazer camisetas, ou tê-las sempre personalizadas:



Ter blog ou qualquer espaço para se expressar verbalmente: twitter, foruns, wiki variáveis.

Fazer música lo-fi e usar uma tecnologia tão fácil quanto e muito mais avançada para divulga-la: myspace, purevolume, trama.

Recortar, colar e dobrar muito mais que roupa ou papel: Girl Talk e Kutiman.

Ouvir Ramones na propaganda da Coca e The Clash em propaganda de telefonia:

Música

Congratulações, Coltrane

Se estivesse vivo, John Coltrane faria ontem, 23 de setembro, 82 anos. Trompetista, jazzista e, muito mais, músico e artista, Trane elevou o jazz à erudição com manobras como “Coltranes Changes”. Por outro lado, nunca tirou o jazz do seu suporte: o improviso, a intuição. Genial.

Giant Steps: Coltrane brinca com as possibilidades harmônicas

Davis e Coltrane: o melhor do cool jazz

O clássico: A Love Supreme

Bônus: Tito Puente e o swingado bebop Take Five, música tocada por Lisa e Bart no “episódio do jazz” — passou hoje na Globo.

Música

Mombojó + China =

Fui ao show do Mombojó e do China, no último sábado (13), no Studio SP. A Dona Guta, felizmente, ainda presenteia São Paulo com boas casas. Caso do Studio, cuja estrutura e ambiente põem mais próximos artistas e espectadores, espectadores e espectadores, espectadores e arte. O requisito básico pra entrar, pelo menos no line-up do mês, é que o artista esteja realmente colado em sua expressão. Aí é baba pro Mombojó. Descobri que pro China também.

Começando pelo sino-pernambucano que nunca tinha ouvido. Acompanhado da HStern Band — de ouro maciço e com lapidação no porvir —, China me estufou duma música digna da galera recifense-olindense. Pois essas são as cidades satélites do melhor rock (só?) que se produz no Brasil. E isso não é de hoje. O Camisa de Vênus foi a ponta de um inselberg. O corpo viria com o manguebeat de Chico, Nação e Mundo Livre. Dali pra frente o vento tomou de conta e fez o favor de espalhar as sementes da boa música. Brotou China, Mombojó, Cordel do Fogo Encantado, Bonsucesso Samba Clube, Eddie, Fóssil, Catarina dee Jah — as duas últimas ainda para serem escutadas pelo blogueiro.

O som de China é cheio de samples e riffs que se confundem. Pode ser electro house, new rave ou o que for: o eletrônico é a face-mor das novas influências, caracterizada pelo abraçar de uma tecnologia e o regurgitar novo desta — como fizera Lúcio Maia nos longínquos anos 90. Parece mesmo uma evolução do New Wave, bem perceptível em Câncer.

Votem no cara pro VMB: http://mtv.uol.com.br/vmb2008/cat_aposta.html

Falando em guitarrista, foi em Asas nos Pés que ouvi a pancada chinesa. Ora fazendo a linha melódica, ora passando o bastão pros samples, a guitarra é de acordes agressivos e intermitentes. Faz o tom potente da música. A bateria não lembra em nada o tambor do Maracatu. Não fosse a marcação de tempo e compasso difusa e quebrada. Pra completar a cozinha, o baixo sutil e, como não se tem visto ultimamente, presente em toda a música. Alicerce das horas necessárias.

Nos pés de China também deve ter algo mesmo, quem sabe asas. O cara tem uma dancinha inigualável, meio Jamiroquai, meio mestre-sala, meio ataque epilético. Tão personna quanto sua cantoria. Simples e voraz, daquela que quer alcançar todo mundo que está por perto sem nenhum floreio. A canção de Roberto Rei Carlos, Não quero mais seu amor, ficou pequena pra ele. Suas composições vem igualmente carregadas de uma megalomania bem chinesa. Na singeleza de cada coisa, como dormir e acordar, cai-se sobre um território vasto de sentimentos e sensações. Maior que a China, esse espaço da poesia é sempre explorado, mas nunca visto em sua infinitude. Tomara que o pernambucano continue nesta aventura, pois ainda há muito o que descobrir. Não só nas letras, mas também na melodia.

Finito o show do China, veio Mombojó. Veja bem, não foi assim: acaba uma coisa, respira, começa outra. Foi de lambuja China + Mombojó. Uma coisa junta na outra e dá nisso. O entrosamento entre os caras só valeu mais o ingresso. Digo que essa turma de meus conterrâneos de ascendência (existe isso?) ainda vai dar muito mais caldo.

Felipe: agora a gente é radiola de ficha?, sobre o esganiçado insistente por Duas Cores.

O show do Mombojó eu já tinha visto numa outra vida deles pra sampa. Foi em dezembro do ano passado, na choperia do Sesc. Dia bom. Logo de cara admirei as possibilidades levadas a cabo pelos caras. Rock novo, samba em toda a sua marcação, a suavidade do sopro, a ecleticidade sampleada. As letras vêm fácil, como em China, sem deixar a poiese. Foi tudo isso que vi em show. Confesso que não foi com todos os watts da primeira vez. Muitas músicas eram do segundo álbum, que não é de muito meu agrado (prontofalei). Nem por isso a performance foi menor. De lá pra cá o que vi foi um trabalho pensado em cima do som, das enes possibilidades — novamente elas. Algumas releituras e novos arranjos. Tudo que amplificasse a sonoridade de Felipe (bom nome) e companhia. Execuções memoráveis como Duas Cores (suplicado pela mina-mala-bêbada), Missa, Faaca O Céu, o Sol e o Mar me fazem esperar ansiosamente a próxima vinda deles.

Mombojó + China = música boa e dança peculiar…

Se todos os shows da noite (três, pra ser bem claro) se resumissem a uma música, seria mesmo a última. Olha que fechar com chave de ouro é difícil. China e HStern Band sobem ao palco para, junto de Mombojó, fazerem a maior concentração de recifenses e olindenses por metro quadrado da Augusta. Tocaram Deixe-se Acreditar. Dessa hora só consigo falar sobre o final, que demorou pra chegar. Que também o final do melhor do rock brasileiro esteja longe. A história da boa música nordestina esteja mais pra um romance que pra um cordel.

Obrigado ao Gian Lucca que gentilmente cedeu as fotos para serem postadas aqui!
Música

Planeta Terra traz Offspring? [editado]

Saiu a line-up do Planeta Terra no blog da Ilustrada. Bloc Party vem como carro chefe, provavelmente com a turnê do novo álbum. Vale lembrar que eles também vão tocar no VMB — é uma premiação de um canal de televisão!

Bloc Party também na emetevê.

Se comparado com o Tim, parece que os festivais brasileiros estão buscando um equilíbrio entre o mainstream e o underground (aquele que era alternativo e hoje tem gente que gosta de chamar de indie). Enquanto o Planeta Terra também vai contar com (ex-)hypada Mallu Magalhães e os tarimbados Jesus and the Mary Chain, o Tim Festival tem na lista Kanye West e The National.

Dexter Holland e a nova fase cabelo esvoaçante.

Surpresa mesmo apenas a história do Offspring. Esses, sim, se vierem serão uma surpresa — e boto fé que vai ser uma surpresa boa. No site oficial dos caras existe um hiato entre o fim de outubro e o fim de novembro. O festival do Terra acontece dia 8 de novembro.

* Alexandre Matias levantou a bola: boatos do Queens of the Stone Age e do Broken Social Scene. Só falta vir o Rage Against the Machine!
Aí é pedir demais, e demais já é a esmola…A propósito, Tim o quê?!