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Cinema, Música, Vídeo

O encontro de Jefferson Airplane e Jean-Luc Godard

Godard

Ainda sobre o 56º Grammy: a premiação também foi palco para Ringo Starr e Paul McCartney comemorarem, sem tocar Beatles, os cinquenta anos de sua primeira aparição na TV norte-americana — ou o primeiro passo na dominação global da banda.

Dali em diante seriam precisos cinco anos para que os quatro fizessem seu último show como grupo. O concerto no terraço da gravadora Apple ficou tão famoso que ofuscou um brilhante capítulo da cultura: o encontro de Jean-Luc Godard e Jefferson Airplane em Nova York.

Foi em novembro de 1968 quando o diretor francês resolveu voltar ao país norte-americano. Na França, a primavera daquele ano já morria em inverno. Nos Estados Unidos, ao contrário, Godard acreditava que encontraria a revolução.

O panorama daquele momento seria captado por ele no documentário One American Movie, cujas gravações começaram em outubro. Na internet, esse túnel do tempo, uma das cenas está disponível como making of para quem quiser ver.

No dia 30 de novembro daquele ano, no topo do hotel Schuyler, em NY, o Jefferson Airplane toca House at Pooneil Corners. O diretor francês aparece aqui e acolá no vídeo, filmando de outro prédio. Sobre o crescendo lisérgico da canção, a voz xamãnista de Grace Slick rebate nas muradas ao redor e os transeuntes viram plateia.

Ao fim de uma única música a polícia aparece para acabar com a apresentação, ao contrário do que aconteceu no show londrino dos Beatles. Godard não foi preso e rumou para o Canadá poucos dias depois sem terminar o filme. Estava fechado o ano de 1968.

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Todo carnaval tem seu começo

Rodrigo Amarante sofre da nostalgia que acomete Lana Del Rey e tantos outros jovens artistas. O primeiro clipe de seu disco solo, Cavalo, é uma colagem de filmagens antigas da sua família.  Ficou bonito pro quase samba rock Maná, fruto da parceria dele com a banda Bottletop. E ele mesmo explica o porquê desse retorno às fitas:

Essas imagens foram feitas por meu pai e minha mãe em 75 e 76 durante o carnaval em Saquarema, município do estado do Rio de Janeiro. Essas pessoas que se vêem aqui são minha família, meus pais e avós, tios, primos e amigos, gente maravilhosa, meus grandes heróis na infância. Todo ano eles formavam esse bloco chamado Saquarema de Banda. Dá pra ver muito claro porque ao invés de chamar de Banda de Saquarema eles inverteram o nome. Todos eles de banda, alguns mesmo entortados, todos palhaços, crianças em espírito. Foi assim que eu cresci e tão logo eu consegui segurar uma baqueta passei a tocar com eles no bloco. Esses foram os momentos mais felizes da minha infância e eu e minha irmã fomos pra sempre marcados por essa época, essas pessoas. Minha irmã, com quem dirigi e editei esse vídeo é hoje ritmista da Estação Primeira de Mangueira e foi pra ela que eu escrevi essa música. Maná é a graça, a benção, e Má é ela, Marcela. Esse vídeo é uma homenagem à todos que fizeram parte desse bloco, especialmente os mais velhos que faziam tudo acontecer, uma prova de que apesar de nos sentirmos muito modernos e livres no século 21 nossos pais e avós eram muito menos caretas do que somos. Bom, pelo menos os meus.

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Snoop Game

A música pop vive uma terra arrasada do pós-guerra virtual onde o hip hop é o farol das boas novas estéticas. Seus atalaias são deuses renascidos, messias midiáticos, imperadores megalomaníacos e líderes amotinadores. No panteão, Snoop Dogg mantem-se rei, como ele mesmo se denomina, a passos aparentemente desconexos.

De 2012 para 2013, sua guinada à música jamaicana transferiu-lhe de mestre de cerimônias da costa leste a toaster de Kingston. As texturas eletrônicas próprias do Diplo, produtor do álbum “Reincarneted”, deixaram a desejar uma apropriação substancial da prosódia da ilha, mas vieram em prol de uma tomada espiritual e lírica do então Snoop Lion.

O documentário com mesmo nome do disco conta bem essa história com uma taxa de baseados por minuto nunca antes vista no cinema. Ainda que reforce o estigma rastafariganjapower deixado pelo maior diplomata jamaicano — Bob Marley –, o fato é a cereja do space cake bolado de forma pioneira por Snoop. A bandeira da maconha no hip hop é levantada por ele desde o tempo em que o camarada Dr. Dre batia em rappers usuários.

Uma das últimas rebarbas do álbum jamaicano encerra essa dança esquisita de Snoop. Em vez de ostentação, bling bling, performances de belas-artes ou filmes conceituais, o cara presta homenagem ao clássico Pokémon de Game Boy no clipe de “Get Away”. Bela jogada, Dogg Lion.