Chorão morreu. Foi-se uma época.

Ontem foi dia de recuperar o CD. Aquele disquete platinado que jogou o K7 de canto no fim dos anos 80. K7 que por sua vez tinha colocado o disco de vinil para escanteio.

O CD também está com os dias contados. Pouco a pouco vem sendo substituído para, daqui a alguns anos, virar pauta de matéria retrô e lembrança de uma década. Assim como o Charlie Brown Jr — cujos CDs mereciam a visita.

Ontem foi o dia em que morreu Chorão, vocalista e mentor do Charlie Brown Jr. Nascido em São Paulo, era conhecido pelo ufanismo a Santos, cidade que lhe foi acolhedora depois de tanta porrada na capital. Caiçara por opção, ali ele ganhou o apelido-nome-próprio e conheceu Champignon, Marcão e Pelado. Fez-se  uma quadrilha e nascia uma das bandas mais importantes do rock brasileiro entre os 90 e os 2000 — o auge do CD.

A relevância do CBJr para a música jovem — porque, à época, o rock era a música jovem por excelência — é comprovada pelo tanto de textos que pululam na rede nessa data finada. A morte de astros tem mania de criar santos, mas Chorão não tinha nem asa de anjo. No máximo de marginal alado, como se definia. Chorão era de osso e carne de pescoço. Metido a anti-herói da Marvel. Ainda assim foi pauta de muita gente. Gente boa, gente velha, gente entendida, gente que não engolia o cara.

Não fazem isso porque ele merece reverência a posteriori. Ao contrário, a reverência é a priori. A importância de Chorão e do Charlie Brown Jr vem de antes. Lá do começo. O Charlie Brown Jr foi uma banda de começos.

Não fossem eles, talvez o rock brasileiro ainda estivesse submetido a idiossincrasias antiquadas. O ranço do BRock oitentista que tocava na rádio e insistia em emular o som branco de língua inglesa. Chorão e sua renca, o Rappa, Raimundos, Chico Science e Nação Zumbi, Planet Hemp e Skank. Eles quebraram paradigmas, baquetas que batiam em caixas estiradas e palhetas que tocavam acordes de Rolling Stones ou Police. Cada qual a sua maneira.

Não fizeram isso porque se viam numa revolução — male male, ela já fora feita umas duas vezes. Faziam isso porque a ordem era outra. Uma nova ordem mundial em que muros caíam e a bipolaridade não fazia mais sentido. Era preciso juntar referências sem vacilar. 8 ou 80.

Chorão sacava disso. Ele era o maestro do Charlie Brown Jr. O grupo foi forjado no hardcore norte-americano pós-Black Flag. Do StraightEdge do Minor Threat ao protesto do Pennywise, passando pela velocidade pós-punk do Offspring e chegando aos riffs do Bad Religion. O segundo disco da banda é a carteira de identidade dessa verve que sobrevive até a primeira separação.

Preço Curto Prazo Longo, de 1999, tem 26 músicas. Quase 30 canções em um único disco. O segundo álbum de uma banda de rock brasileiro. Algo impensável para o 2013 do SoundCloud em que é igualmente difícil de imaginar novas grandes bandas.

Champignon segura a bronca abusando de slaps em linhas de baixo que não  servem apenas de sustentação. Marcão palheta riffs de poucos acordes e slides para depois se deixar levar em solos. Pelado aproveita tons e pratos contrastando os vários climas das canções.

Sobre essa cama longa o CBJr bebia e fumava e cheirava outras sonoridades que dariam tônica ao seu trabalho dali em diante. A levada skacore de “Zóio de Lula”,  as diferentes células de ritmo e andamento de “Não Deixe o Mar te Engolir”, os reverbs e delays metalizados de “Hoje de Noite”. E o rap.

Para fazer música Chorão se juntou a nomes como ParteUm, RappinHood, Negra Li, RZO, Homens Crânio e DeMenos Crime. Homenageou Sabotage. Marcelo D2 e Rodolfo também estão na lista. Chorão trouxe a quebrada para os palcos como se a baixada santista fosse perto dos estúdios da Globo. O Hip Hop deixava de ser exclusividade da periferia — como estética, não como gênero.

Chorão foi responsável por esse crossover de pessoas, que acaba sendo um crossover de estilos, que acaba sendo um crossover de ideias. Uma coisa por cima da outra. Algo feito com propriedade por bandas como Beastie Boys e Rage Against the Machine.

A propósito, Chorão usa uma camiseta do RATM no clipe de “Proibida Pra Mim”. Colorido com cara de sitcom enlatada, o vídeo tem como protagonista a bela Alessandra Scatena, então ajudante de palco do Domingo Legal, o programa do Gugu no SBT. É uma série de fatos que torna a fita obrigatória na história recente da TV e da MTV no Brasil.

O Charlie Brown Jr. escreveu boas páginas do canal cujo M significa Música. São dezenas de clipes, alguns especiais, shows e o disco Acústico. O ápice do Charlie Brown Jr.

A essa altura, Chorão também era o primeiro a levantar a bandeira do skate em rede nacional. Quando não ele, apareciam outros sobre as quatro rodinhas nos seus vídeos. Os palcos viravam pistas de street caso não viessem com o half.  E entre uma música e outra saía um grito de “skate na veia”. Parece bobagem hoje (ou não), mas o carrinho sofria muito nos anos 90. Quiseram até bani-lo de alguns lugares. Chorão botava banca e segurava o shape.

No underground essa era a missão do Gritando HC. A feroz banda paulistana de hardcore gritava “Ande de Skate e Destrua”. De moicano em pé, o grupo não tinha compromisso assumido com o sistema. A existência de bandas como o Charlie Brown Jr mantinha vivo e mambembe o que acontecia por baixo dos panos da grande mídia. Do Napalm ao Hangar, o rock alternativo respirava nichos porque havia mainstream.

E o mainstream era bom — ou éramos moleques demais.

As letras não eram profundas. As rimas eram sempre fáceis. As métricas encaixavam sem problemas. Não havia significado hermético com assonâncias e versos alexandrinos. As frases desse Alexandre falavam de vitória, humildade, casos, rebeldia. Nem de longe vão figurar no panteão do cancioneiro brasileiro — Chorão não é  um poeta e o Charlie Brown Jr tinha limitações evidentes nos últimos anos da banda.

Mas essas frases estavam nos nicknames do MSN Messenger. Apareciam rabiscadas em carteiras de salas de aula. Eram repetidas à exaustão na 89 FM. Ganhavam prêmios e discos de vendas. Surgiam como títulos de páginas no Fotolog.net. Estampavam camisetas de uns R$ 15 da Galeria do Rock. Viravam gritos de guerra em shows. Abriam novelas com historinhas juvenis. Embalavam tretas e rolos. Respondiam perguntas dos Cadernos de Perguntas. Tornavam-se pichações em paredes da rua.

As músicas do CBJr são identidade de uma época. Hoje, a geração dos 20 e poucos anos e quase 20 horas de trabalho. Àquele tempo, a geração que ansiava uma revolta, ainda que rasa, porque eram adolescentes. Ou a geração que conheceu o rap, o hardcore, o skate, os palavrões porque estavam aprendendo sobre as coisas nos últimos anos do século. Provavelmente a última que viu o rock como hino entoado na música pop.

Foi a molecada que viu no CD uma evolução da tecnologia e no Charlie Brown Jr uma das últimas grandes bandas do rock nacional — sem pieguice, afinal, existem grandes bandas do rock nacional?

Ainda não se sabe a causa da morte de Chorão. Pode ser cocaína. Parecia inofensiva mas te dominou, cantava.

[ssba]

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