Como “Jenifer” consolidou a bateria do forró (e o forró) no pop brasileiro

O som do teclado, da guitarra, dos metais, da percussão, enfim, nada disso é tão poderoso quanto as pancadas que abrem o refrão da música da Jenifer, aquela do Tinder do Gabriel Diniz. O som, que repercute como uma espetada lá no tímpano, também pode ser ouvido em canções como “Quem Me Dera“, de Márcia Fellipe e Jerry Smith, e “Só Pra Castigar“, de Wesley Safadão. Essas músicas somam quase meio bilhão de acessos no YouTube e dão a letra: a bateria do forró tem dado o ritmo da música popular brasileira, e a partir desse instrumento o gênero nordestino vem se embrenhando pelo país.

O som característico da bateria do forró tem até um nome. “O pessoal chama isso de ‘latido de cachorro'”, diz Maurício Mendes, baterista da banda Chicabana e ex-baterista da Calcinha Preta. Esse barulho animal é resultado de técnicas que, ao longo das últimas décadas, foram criadas e transmitidas entre produtores e artistas de grupos como Aviões do Forró, Cavaleiros do Forró, Magníficos, Limão com Mel, Garota Safada, o próprio Calcinha Preta, e muitos outros. “Várias bandas foram adaptando esse som, até chegar ao que temos hoje”, diz Mendes.

O músico explica que tudo começa com a estrutura do instrumento. No forró atual, a bateria é responsável pelo ritmo. O chimbau faz as vezes do triângulo e a caixa, no lugar da zabumba, libera um som mais agudo graças a seu tamanho diminuto. Além disso, eles são acompanhados por uma segunda caixa maior ou tambores de sons marcantes aos ouvidos. Esse é o caso dos tons, que podem vir em até quatro tamanhos diferentes, e dos rototons, tamborins formados apenas por aro e pele. É esse conjunto que dá aquele som estirado, ouvido a metros de distância do alto falante ou do palco.

Geralmente, tons e rototons são ouvidos em momentos de destaque das músicas, o que é o caso do refrão na música da Jenifer. Tamanha importância, diz Mendes, também tem razões acústicas. “O técnico de áudio pega todas as frequências da bateria e destaca o som”, explica. “Normalmente, ele ‘corta’ o som que você não quer, mas no forró a gente pega todas as frequências e aumenta mesmo”. Isso significa dizer que, sim, alguns trechos da bateria de forró soam mais alto que o normal.

Esse protagonismo é tamanho que bateristas de forró ganharam destaque nos últimos anos. Wesley Safadão lançou o bordão “Puxa, R10” para as entradas mais virtuosas do baterista Rod Bala. O músico Riquelme, quando integrava a banda Aviões do Forró, ficou imortalizado pelas chamadas do vocalista Xand — vale a pena dar uma olhada nos melhores “burgudududu” do cantor. Dessa época, ele ganhou até uma música pra chamar de sua: “Quando o Riquelme Toca”.

Em 1min46s é possível ver uma placa em que se lê “Simbora meu Riquelme na batera”.

Riquelme é atualmente baterista da banda de Solange Almeida (ex-Aviões do Forró). Nascido Pedro Alves Dario, no Ceará, ele é um dos arquitetos da sonoridade do forró eletrônico ou forró moderno. Ainda no início dos anos 2000, ele foi um dos primeiros músicos do gênero a consolidar esse uso da bateria hoje tão comum. “Eu comecei a botar vários ritmos em cima do forró, levada de xote, chimbau de pagode”, ele diz. “Foi uma coisa tão invocada que, até hoje, não muda.”

De “Meu Vaqueiro, Meu Peão” a “Jenifer”

A inventividade de Riquelme também reside em unir elementos e técnicas que se espalharam pelo nordeste entre os anos 1990 e 2000. Uma das mais importantes bandas dessa época é o Mastruz com Leite. O grupo, que assina o sucesso “Meu Vaqueiro, Meu Peão“, foi um dos primeiros a utilizar bateria em seus shows e gravações. Arthur César, baterista do Mastruz até hoje, é um dos primeiros instrumentistas a fazer a passagem do trio clássico de forró para uma banda. “O Mastruz separou uma fase do forró tradicional, do Luiz Gonzaga, em que a bateria ficava escondida, e com eles começou a onda do forró moderno, do forró eletrônico”, explica Mendes.

Nessa época, Fortaleza era o centro nacional do forró. Tal qual a New Orleans do jazz no início do século 20 ou a Londres do punk nos anos 1970, a cidade era sede de empresários, músicos e grupos que faziam girar o mundo e a economia da música. Artistas de todo o nordeste almejavam em gravar na capital cearense. A maioria deles, como o Riquelme e Mauricio, era autodidata. “Acredito que 90% dos bateristas de forró do interior começavam na música escutando fita cassete, tocando bateria de lata de leite, peças de bicicleta, essas coisas que hoje a gente vê na internet”, diz Mendes, que desenvolveu um curso voltado a bateristas de forró.

Foi também na virada do século em que o termo forró eletrônico ganhou corpo devido à ascensão de tecladistas cantores, como Frank Aguiar, “o cãozinho dos teclados”. Hoje, o teclado é peça fundamental de diversas bandas, por vezes até emulando o som da bateria ou da sanfona. Nos anos 2000, porém, um ar de vilania pairava sobre o instrumento, especialmente entre aqueles que se viam como guardiões de um suposto forró autêntico. Sim, estamos falando da febre do forró universitário que assolou o eixo Rio-SP.

Riquelme, o baterista
Riquelme, o baterista. Foto: Divulgação/Leo Melo

“Era muito forte a ideia de que esse forró com teclado era algo deturpado”, explica a antropóloga Daniela Alfonsi, uma das poucas pesquisadoras a publicar um estudo sobre o tema. Em seu trabalho, ela analisou o círculo de consumidores e artistas de forró em São Paulo na primeira metade da década de 2000 — auge de bandas como Falamansa, Rastapé, Bicho de Pé, etc. “Era muito curioso porque havia bandas de jovens paulistanos tocando forró com zabumba, sanfona, e eles tinham um integrante nordestino, eles precisavam de um integrante nordestino para essa autenticidade”, explica a pesquisadora.

Se o forró universitário perdeu força, o forró eletrônico cresceu e deu crias. “Se você estuda o forró do ponto de vista do forró eletrônico, você vê que ele nunca saiu de cena”, afirma Alfonsi. “A todo o momento, há uma produção de novas bandas e shows, e essas bandas mais populares nunca saíram de cena. Mas elas circulam em outro nível, um nível para o qual, às vezes, a imprensa não dá atenção.”

Forró em tudo, tudo no forró

Nos últimos anos, artistas originalmente ligados ao mais clássico gênero musical nordestino vem ganhando uma popularidade que talvez nem Gonzagão pudesse imaginar. As turnês internacionais de Wesley Safadão, os shows lotados do Aviões do Forró e a tal da “Jenifer” do GD não deixam dúvidas sobre isso. Além do mais, o diálogo com sertanejo, arrocha, pagodão, funk, entre outros, prova que o forró continua a se embrenhar pelo país e ser influenciado pelo que vem de outras regiões. O resultado, seja por razões comerciais, seja por um movimento espontâneo, é uma miscelânea musical em que o forró vira forreggae, forrogode, forronejo ou qualquer outro rótulo que sirva.

“Eu acho que o forró acabou pegando tudo”, diz Alfonsi. “É um ritmo que sempre se caracterizou pela diversidade, porque o forró é uma música pop, no sentido de popular, de povo.

Autor do livro O fole roncou! Uma história do forró (Editora Zahar), o jornalista Rosualdo Rodrigues também enxerga o gênero como uma grande amálgama de manifestações brasileiras — um rubacão sonoro. “O forró é vários ritmos, como o coco, o baião, o xote, o xaxado, enfim, tudo isso é forró, diz ele.”

Para ele, no entanto, a nova popularização do forró, à reboque da bateria, não significa que o gênero seja visto com bons olhos. “Ainda existe um preconceito com o forró, porque ele agora é aceito de uma forma embalada”, diz ele. “O forró aparece aí como um elemento, como uma referência na música, mas ele é parte do nosso DNA musical.”

Comendo pelas beiradas e se transformando, o forró se sustenta até hoje como único grande gênero da música brasileira que nascido fora do eixo Rio-São Paulo. Não por acaso, como observa Alfonsi, o cantor Gabriel Diniz é um violonista. Essa característica tão comum no sertanejo é rara na tradição do forró, mesmo nas bandas de forró moderno — seria mais fácil ver um tecladista à frente da banda.

Ainda assim, o bandleader divide espaço e potência sonora com a cozinha, onde pulsa o ritmo na bateria e seus “burgudududus”. Riquelme e Maurício Mendes não escondem a satisfação em viver uma época de importância do forró e dos bateristas do gênero. “Hoje, a maioria das bandas de forró põe o baterista num lugar mais alto no palco, um lugar de destaque”, diz Riquelme. “Mas o batera tem que ter pegada, porque se tu der uma nota fora do lugar, você acaba com a banda todinha.”


Matéria originalmente publicada em janeiro de 2019 na VICE Brasil.