Como você ouve música?

Em uma de suas charges (que não encontrei na internet), o falecido Millôr escreveu que “a música é a única arte que te pega por trás”.

É verdade. As propriedades físicas do som, a natureza musical, permitem que ele chegue aos ouvidos independente da atenção dedicada a ele. Basta que o seu volume seja suficiente para mover moléculas do ar, num movimento que chegará até os tímpanos. Talvez por isso não dediquemos a devida atenção aos barulhos de algum lugar, seja rotineiro ou novo. Por exemplo: as recordações que guardamos de uma viagem são, geralmente, fotos. Não à toa imagem e imaginário têm a mesma raíz.

Acontece que essa afirmação do Millôr ganha mais sentido em tempos de MP3 e fones de ouvido. A portabilidade e banalidade que a música em formato digital promove mata, aos poucos, hábitos de apreciação da música. Escutá-la, somente, é bem menos comum que usá-la como acompanhante para alguma outra coisa, tipo escrever esse texo. Assistir a uma ópera em três atos e mais de cinco horas é um dom para um público selecionado. É difícil ouvir um disco inteiro, de cabo a rabo, seguindo a ordem das faixas.

headphones

Dá para dizer que o shuffle é um dos sintomas (ou causas) tecnológicos de uma sociedade sempre atrás do novo a todo o momento e o mais rápido possível. Lê-se: sempre desatenta.

Por isso são tão atuais as dicas que a blogueira Maria Popova pescou no livro Music: Ways Of Listening. Todas elas referem-se a essa questão pouco dita, porém necessária: como ouvir música?

Não que precisemos de cursos, cartilhas e livros de auto-ajuda para aprender a ouvir. Escutar é natural, natural a ponto de camuflar detalhes que, se percebidos, tornam a atividade melhor e mais prazerosa. Absorver esses detalhes é, sim, um aprendizado. É a distância entre engolir e degustar, seja qual for e onde estiver o alimento.

A música pode ser de várias formas e pode aparecer em vários lugares. O compositor francês Pierre Henry, pioneiro da música concreta, acredita que ela está em tudo. Daí suas obras com amostras eletrônicas de ruídos corriqueiros, como os que saem de uma construção civil. Um passo em direção da apreciação musical é dar-se conta de que sons como os que vêm de um martelo batendo num prego não fazem uma mera trilha-sonora. Ao contrário, nesse caso os sons revelam os materiais dos objetos, a distância e a força da batida e, ainda, relacionam-se com o ambiente: seu tempo, seus elementos, suas imagens.

(A trilha-sonora, ela mesma não é mera; se o filme for bom, ela está ali por algum motivo e vai desencadear, de certa maneira, esse processo do martelo no prego.)

Dar ao som todas essas características é algo que parece ser simples, mas não o é face a tamanha rapidez e novidades do mundo. Quem aí consegue descrever a sua rua falando apenas dos sons que saem de lá?

Soundscapes

Descrever a música já é mais um desses aprendizados — o qual o livro também toca. A armadilha de qualquer crítico musical por dois motivos: a busca pela palavra perfeita e a eterna luta entre objetividade e subjetividade.

Música não é ciência, não é exata, nem ciência exata. Como falar de algo tão incerto, então, usando palavras certeiras? Acredito que esse é mais um dos momentos filosóficos de boteco em que a resposta está mais no caminho que no destino. Um “grave pesado”, uma “levada”, um “à la alguma coisa” fazem parte do vocabulário musical, muito embora existam palavras irretocáveis como andamento, ritmo, timbre — essas muito mais acomodadas na teoria que no dia a dia da música.

Quanto mais perto do alvo estiverem, enfim, essas palavras contribuem para ouvirmos melhor. Elas organizam o pensamento e ajudam a dar um tom mais objetivo à audição. Subjetividade é ótima pois é ela quem vai dar cores e sabores aos sons, mas a objetividade põe as coisas nas prateleiras. Sendo objetivos podemos comparar, analisar, enquadrar, dissecar e, aí sim, dar um toque de achismo no final.

Record Clock

Nessa esteira também vêm uma infinidade de atributos que podem ser dados a uma música segundo o que a envolve. Quem é o compositor, quando foi composta a canção, quem participou da sua gravação, onde foi executada. Ainda que pareçam a dose de subjetivismo, são fatos concretos indissociáveis da obra. Talvez a presença de Eumir Deodato na produção de um disco do Kool And The Gang não tenha influenciado na sonoridade da banda, mas é bom saber disso. Melhora a argamassa que vai ligar a banda a outros grupos, a movimentos, a questões sociais e, quem sabe, a sonoridades brasileiras.

Preparar o ouvido é necessário, mesmo que a culpa por deixá-lo meio de lado não seja nossa. Vivemos num mundo de inquestionável força da imagem. A TV foi só um passo ante as várias telas que temos hoje, do smartphone ao monitor do elevador. O videoclipe é uma tentativa de colocar a música nessas telas, mas ela já estava ali sem o vídeo, sem precisar te pegar por trás das imagens.

Encarar a música de frente é apreciar a música. Isso não depende de muito. Na verdade, depende de bem menos. Menos pressa, menos shuffle, menos poluição sonora e, quem sabe, um a mais de uma pesquisa aqui e acolá. Com o tempo, até o martelo batendo no prego pode parecer uma melodia interessante.

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