Cria de fábrica de hits, MC G15 é a nova estrela da indústria do funk

Matéria originalmente publicada na Folha de S. Paulo em fevereiro de 2017.

Desde que compôs a letra de “Deu Onda”, o sucesso do verão de 2017, Gabriel da Paixão Soares, 18, viu sua vida mudar. Conhecido como MC G15, o funkeiro atingiu o auge da fama em janeiro. Na sua agenda, ele agora encaixa participações em programas de TV e rádio, gravações de músicas e cerca de 50 shows por mês em todo o país.

“Percebi que era sucesso quando vi todos os artistas cantando”, diz G15. De Neymar a Anitta, passando por globais, muita gente se rendeu à música em parceria com o DJ Jorginho. Sem falar na paródia feminista “Minha Xota te Ama”, da MC Luana Hansen —uma referência ao verso “meu pau te ama”, da versão proibidona de “Deu Onda” (no rádio, virou “o pai te ama”).

“Gravei minha voz no estúdio dele, passaram 15 dias e a música chegou no meu celular”, explica G15. “Mas não achei que ia ser sucesso.”

Gabriel aprendeu a tocar bateria na igreja, quando criança. Foi o tamborzão de um baile, entretanto, que fez sua cabeça, aos 15 —por isso o número no seu nome artístico.

De lá pra cá, fez um caminho que seria impensável nos anos 1990: saiu do Rio para São Paulo querendo fazer funk. “Em São Paulo, isso virou trabalho”, diz ele. “Profissionalizaram o funk e os caras levam muito a sério, você faz uma carreira e faz sucesso.”

Os caras a que G15 se refere estão por trás de empresas como a GR6, a KL Produtora, a Gree Cassua ou a Funk da Capital. Esses híbridos de produtora, gravadora e agência de eventos consolidaram o funk em São Paulo a patamares de negócios valiosos.

“Já me ofereceram R$ 25 milhões para uma sociedade de 50%”, explica Rodrigo Oliveira, ou Rodrigo GR6, o fundador do selo que tem no seu plantel de artistas nomes como MC Livinho, MC Pedrinho, MC Brinquedo e MC João.

Assim como o MC G15, eles são as vozes de vários hits do funk dos últimos anos. Por isso, não é raro encontrar adolescentes à espreita na avenida Conceição, na zona norte de São Paulo, próximo à sede da GR6.

Uns esperam esbarrar em um dos ídolos que entram e saem para sessões de gravações ou filmagens de videoclipe. Outros anseiam por ver ao menos alguém com uma camiseta ou um boné em que se leia o logo da empresa para, quem sabe, ser convidado a tentar a carreira de MC ou DJ.

FÁBRICA DE SONHOS

“Quando começou, em 2013, a recepção era a sala da casa da minha mãe”, diz Oliveira. Hoje, a espera é feita no rol de um imponente casarão em frente a um estacionamento para carros espaçosos e uma loja da 4M –braço de vestuário da GR6.

De paredes pretas e detalhes em amarelo, o QG da empresa tem salas administrativas, quartos transformados em estúdios de gravação e rádio, uma piscina, uma churrasqueira e uma garagem. Um grafite ao lado da quadra de futsal deixa claro: “Fábrica de Sonhos”.

Nessa usina, as engrenagens fundamentais são os músicos. Além de 500 pessoas empregadas direta e indiretamente, segundo Oliveira, a GR6 tem no seu catálogo 70 MCs e um time de DJs que, respectivamente, cantam e produzem dezenas de novas músicas por semana.

Na rotina da empresa, jovens e até crianças se revezam em pequenas salas de captação de áudio cantando letras que falam de festa e diversão, criando batidas e melodias e tentando emplacar o sucesso do próximo baile.

Quando a música é finalizada, a distribuição entra em cena. O vasto acervo de funk está disponível em várias plataformas, como serviços de streaming, perfis em redes sociais ou a rádio online da GR6.

A maior parte da produção ganha uma versão em vídeo e os melhores lançamentos viram clipes sofisticados. A inspiração dessa fábrica, diz Oliveira, vai da força do mercado do sertanejo à estética do rap. “A gente tem aula de canto, a gente tem psicólogo, a gente tem cultura de palco”, diz ele. “A gente se organizou”.

Segundo o proprietário, a gestação de MCs de sucesso custa cerca de R$ 300 mil. O investimento tem tido retorno. Além de cachês que podem chegar a R$ 50 mil –caso do G15–, hits a cada dois meses e shows no país inteiro, a produtora ostenta cerca de 2 bilhões visualizações em seus vídeos no YouTube.

Enquanto a GR6 ocupa a décima posição entre os canais brasileiros mais vistos na plataforma, o segundo lugar do é da KondZilla, produtora que assina boa parte dos videoclipes do selo.

O sucesso do mercado independente do funk em São Paulo é comparável à relevância da Cash Box, da Soul Grand Prix ou da Furacão 2000 nas décadas de 1980 e 1990.

Correndo por fora da indústria estabelecida, essas equipes foram as responsáveis pela consolidação do funk no Rio. Em menos de uma década, ganharam discos de ouro com as faixas mais tocadas nos bailes que organizavam. As festas lotavam clubes e ginásios como o Maracanãzinho.

Os bailes nas periferias de São Paulo não são menos lotados que seus pares no Rio. E depois de sucessos de MCs locais, como Bin Laden, Kekel e João, a onda ainda é favorável para a capital paulista.

Enquanto G15 viu a fama logo no início de 2017, Oliveira, que chegou a se candidatar a vereador em São Paulo, não queria que 2016 acabasse. “A GR6 cresceu muito”, diz. “Aquela casa em que estamos já está ficando pequena.”

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