Cuidado! Cão bravo

Libero Malavoglia conta numa matéria bacana da Vice como via o Carandiru. “Era um ambiente muito diferente. Parecia o Planeta Bizarro das histórias do Super-Homem”, diz o ilustrador, fazendo alusão à capacidade que os presos tinham de transformar tudo em alguma outra coisa útil.

Essa é a sensação dada pela música jamaicana. Questões de esgotamento do material conspiram cada qual em seu cárcere, seja um prédio ou uma ilha, mas, para além disso, a persistente inventividade que se tem às mãos atadas.

O dub brotou nesse concreto. O acaso tirou o vocal de um disco de Ruddy Redwood, dono de um soundsystem. Na hora da festa improvisaram uma cantoria sobre a base, repetida até desgastar o disco de acetato, ou dubplate. A galera gostou. O som reverberou uma série de composições sem voz, especialmente do triunvirato King Tubby – Lee Perry – Bunny Lee. As ondas ecoam até hoje.

O documentário “Dub Echoes“, do Bruno Natal, relata esses causos todos.

Inclusive o da transformação da pedrada “I’m Still In Love With You”, de Alton Ellis. Um dos maiores choradores do rocksteady, Ellis compôs a música em 1967. Dez anos depois ela seria revisitada pela dupla Althea e Donna. Quase quarenta anos depois foi a vez de Sean Paul, jamaicano com pinta de chicano, fazer o mesmo caminho de volta.

Sobe um pouco a rota.

Muda a ilha caribenha, muda o cara. Pitbull, filho de cubanos autodenominado Mr. Worldwide, é um Sean Paul que deu certo. A última faixa arrebatadora do papa-tudo do pop também retoma um riddim pegajoso de Kingston. Funky Kingston, a bem da verdade, do Toots & The Maytals.

Lançada em outubro de 2012, “Don’t Stop the Party” deve se espalhar que nem virose no Brasil. Considerando que nosso verão dura até o próximo verão começar, capaz que o som seja um dos mais tocados do ano.

Pouca gente vai reclamar. Quem não estiver dançando estará, com azar, falando mal do Latino.

Acusado de plágio pelos mais originais comentaristas de redes sociais, motivo de chacota para outros tantos escribas (antigamente chamados jornalistas), ídolo das mais falsas plateias de programa de auditório. Oportunista de hits de sucesso, incansável moneymaker dos palcos, reprodutor fiel de modelos bem-sucedidos.

De tempo em tempo, Latino é retrato do Brasil porque sua música cola como clichê barato. Propõe-se a fazer isso e o faz muito bem, de nada.

(Ainda sobre valores: não discute-se aqui o valor de seus cachês como mérito, tampouco o valor artístico de seus hits como nivelador de algo. Essas questões são de outro texto, muito embora um cara tenha contestado o status quo da arte há quase cem anos com um mictório; e definitivamente essa não é uma comparação entre as duas personas.)

A pedra nesse sapato — que também é pedra fundamental dessa parede — é esse lema de feição militar, um certo (certamente, certíssimo) “Ame-o ou Deixe-me”. O algum-brasileiro que se coloca na intelligentsia para replicar bravatas sob a justificativa de que o atraso é isso, bom tempo era aquilo, lixo é isso, coisa bela é aquilo.

Ora, diga quantos Wagners perdemos por culpa de Latinos, Telós, Limas, Biebers? Wagner esse duramente criticado quando de sua estreia. (Definitivamente essa não é outra comparação.)

E se hoje é possível escutar ópera a alguns cliques de distância é porque espaço tem. Pra todo mundo. Especialmente pra quem não gosta. Nunca foi tão fácil não gostar de algo: basta desligar a TV e ligar o rádio; desligar o rádio e ligar o computador; desligar o computador e ligar o smartphone; desligar o smartphone e ir pra um festa; trocar de festa e, quem sabe, de amigos.

Mesmo assim há quem goste de desgostar. E pra isso a imediação entre púbico e criadores é um amplificador Marshall de ponta, especialmente onde impera a prima inteligente do preconceito, a ignorância.

Daí renasce essa síndrome de cachorro vira-lata, agora exacerbada no outro. Aliada a um ufanismo metido a bobo (oxítona emprestada do francês), ela cria um bando de cachorros loucos que odeia quem late a mesma língua e abana o rabo pra quem late diferente. Espumando feito Pitbulls, rosnam pra dentro e deixam passar o que vem de fora.

Nem se dão conta que o Mr. Worldwide é latino e que o Latino é, vá lá, um senhor mundial.

É tudo osso — ou carne de primeira, como quiser.

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