Daft Prank

Ao que os ouvidos captam, a faixa do Daft Punk em parceria com Jay-Z é bem fraca. Ao que tudo e todos indicam, a música é realmente dos caras. Novidade nenhuma nessa discussão, especialmente se se tratar de mais uma lorota da rede. O duo francês é especialista em aparecer onde não é chamado.

Na lista abaixo, escrita originalmente para o site da MTV Brasil, elenco sete faixas que diziam ser do Daft Punk, mas não são. Quem sabe essa Computerized também entra na lista.

Vários clones do Daft Punk invadiram a cidade australiana de Wee Waa em maio de 2013. Os robôs tinha cabeça de papelão e quase sempre estavam no corpo de crianças. O truque fez parte de uma ação de lançamento de ‘Random Access Memories’, novo álbum do duo francês.

As versões de mentira do alter ego eletrônico de Guy e Thomas foram planejados pelos próprios. Logo eles que foram vítimas nos últimos dez anos de incontáveis produções falsas. No mundo da música poucos artistas receberam tantas atribuições inexistentes quanto eles.

Do ápice de ‘Discovery’, terceiro álbum do duo, ao novo LP, o Daft Punk chegou a ser vítima até de uma falsa apresentação — em 2009 houve vendas de ingressos para um show que nunca aconteceu em Shangai, na China.

Os fatos ou factóides levantam questões sobre o duo: Qualquer um pode fazer o que eles fazem? O estilo deles não para de ser reproduzido? Afinal, existe alguém de verdade por trás daqueles capacetes de metal ou papelão?

Tire suas conclusões com algumas faixas que contam a recente década da dupla feita por ninguém menos que qualquer pessoa que não seja o Daft Punk.

2001: Discovery Beta
O álbum ‘Discovery’ alçou o Daft Punk ao céu do universo musical. A combinação de house e eletro revista para o novo milênio carregou sonoridades antigas e manobras inovadoras: solos de rock progressivo, samples suingados de disco, modulações vocais, crescendos melódicos, eliminação suscessiva de camadas instrumentais e compassos dançantes. O resultado também trouxe críticas celebradas, prêmios globais e paradas de sucesso.

Ainda no voo no showbiz a dupla estrelou a propaganda de uma famosa marca de roupas norte-americana e o álbum serviu de trilha sonora para a animação ‘Interstella 5555’, lançada em 2003. O filme foi base para todos os clipes do LP. Na MTV, o mais bem sucedido foi o single ‘One More Time’.

Se vídeo ainda não era a febre da rede, a música começava a virar mania. O Daft Punk estreou um serviço online de música no seu site, mas o show acontecia por baixo da oficialidade. No Napster, antigo programa para baixar arquivos, o álbum do duo transitava vagorosamente entre conexões discadas enquanto disputava espaço com um certo ‘Discovery Beta’. O suposto lado B enganou muita gente à época com seis faixas inéditas. Hoje sabe-se que tratam-se de composições de fãs e produtores. Uma das primeiras levas do French Touch, escola-gênero da eletrônica no qual a dupla é mestre.

2004: ‘Call On Me’
No ano seguinte à explosão franco-robótica o duo se dedicava a projetos solos. Guy dava atenção a seu selo, Crydamoure, enquanto Thomas produzia faixas com parceiros como DJ Falcon. Uma das criações foi sobre o sample da canção ‘Valerie’ do cantor Steve Winwood.

Apesar de terem composto-a, os dois não lançaram a faixa que era tocada em sets e apresentações. Assim ela chegou aos ouvidos do selo ‘Ministry of Sound’. A gravadora se interessou pela sua divulgação, mas Thomas e Falcon recusaram o convite da gravadora. Meses depois o DJ Eric Prydz surgiu com ‘Call On Me’, música que usa o mesmo sample dos franceses.

Por mais que pareça, Falcon não considera que houve roubo na história. A música de Prydz guarda diferenças que a colocaram no topo das paradas da época: batidas potentes típicas do eletro house e um clipe pra lá de sensual. Tudo ao estilo de Benni Benassi, outro DJ de sucesso á época. E nos programas de troca de arquivos era possível encontrar a faixa atribuída ao Daft Punk.

)

2008: ‘Love’
O Daft Punk permanecia em silêncio. No ano anterior, o duo havia lançado seu primeiro disco ao vivo. Mesmo que não trouxesse grandes novidades sonoras, Thomas e Guy colocavam-se na agenda outra vez com o espetáculo criado pelas suas apresentações. A pirotecnica planejada sobre o maquinário em forma de triângulo seria inspiração para nomes no futuro, de Justice a Deadmou5.

Garotos à época, os artistas e um sem fim de jovens engatinhavam nas redes sociais — o Orkut estourava no Brasil. O e-mail ainda tinha papel essencial na troca de mensagens e arquivos. Assim correu pela mão de de blogueiros de música uma suposta nova faixa de Thomas Bangalter. O fato ocorreu no dia dos namorados do hemisfério norte e a música conquistou os mais afoitos e carentes também pelo nome ‘Love’.

Ledo engano. Apesar de carregar a aura setentista em que o Daft Punk está imergido, a música era composição do produtor e DJ britânico Louis La Roche. Ele logo se eximiu de culpa no boato, mas assumiu o filho rejeitado pelo duo.

2010: ‘Tron’
Os robôs estavam vivos. No ano de 2009 corria à boca pequena que os franceses voltariam a trabalhar com música para o grande público. A convite da Disney eles fariam a trilha da refilmagem de ‘Tron’. O clássico da ficção científica em computação gráfica teria máquinas no comando sonoro.

No afã do retorno aos estúdios vazava uma nova canção do Daft Punk na rede. Ao menos era o que pensavam os que acreditaram na autoria de ‘Fragile’. A música surgiu na rede entre 2009 e 2010. Em pouco tempo ela foi desmentida por sites especializados em música. As revistas sequer noticiaram o fato porque a internet já furava com propriedade a grande mídia.

Embora tenham negado a autoria logo que o som veio à tona, Guy e Thomas usam andamentos velozes, progressões de notas e clímaces potentes filtrados por sintetizadores na sua incursão pelo cinema — sonoridades que também são encontradas em ‘Fragile’.

2012: ‘Renoma Street’
A França não é muito conhecida pelo seu humor, mas sabem fazer graça no hexágono — apelido do país por causa da sua forma geográfica. Aproveitando a iminente volta dos conterrâneos, os jornalistas da revista Tsugi adicionaram uma tal ‘Renoma Street’ em uma de suas listas de junho de 2012.

A faixa atribuída ao Daft Punk precisou de dois dias para ter seu nome espalhado pelos quatro cantos da rede. Quatro dias para alcançar três mil referências no Google. Cinco dias para ganhar vida — não pelas mãos robôs. Dez anos antes o caminho seria inverso. Num mundo de estúdios de quarto e softwares piratas a ordem da cadeia de produção foi subvertida.

O esquema de uma pegadinha, contudo, segue o mesmo. Seis dias após a menção, a Tsugi negou a existência da canção e poupou mais uma esquiva do Daft Punk. Falso. Fake. Faux.

2013: ‘No End’
Conhecida como ‘No End’, a faixa ‘Metal Film Transistor’ surgiu na internet, em algum momento do último março, com a assinatura do duo francês. A crescente ansiedade dos fãs somada às notícias de um novo álbum foram suficiente para ratificar a veracidade da produção.

Outro fator considerável é o diz que me diz sintomático da rede. A velocidade na troca de arquivos e os serviços de streamig colocara o duo nas primeiras fileiras de postagens da blogosfera. A dupla certa, na verdade, era outra.

O duo norte-americano Art-Institute é autor da música, mas não se responsabiliza pelo boato que envolveu o Daft Punk. A desculpa para a confusão reside no uso de vocoders e no clima eletro típicos na obra dos franceses.

2013: ‘Get Lucky’
Em meados de abril a vontade de ouvir os franceses já virava obsessão para alguns. Qualquer um que gostasse um mínimo de música estava sujeito a topar com o frisson do Daft Punk. O lançamento de ‘Random Access Memories’, ao contrário de toda as faixas dessa lista, já era real e tinha data marcada. A reboque surge mais uma série de músicas falsas do duo francês.

A maioria das faixas usa trechos dos anúncios do disco. Uma delas não passa de um vai-e-vem de dez horas com um mísero pedaço do single. Outras são refinadas na combinação de trechos disponíveis. Alguns arriscaram mashups.

O destaque entre tantas é uma versão que ganhou lugar de honra na seleção de uma rádio francesa. Anunciada com pompa e circustância, a ‘Get Lucky’ da Fun Radio é uma colagem que enrola qualquer radialista desatento. A falta de algumas estrofes e o corte brusco no meio da música desvelam uma das últimas farsas envolvendo o Daft Punk.

Facebooktwitterredditpinterestmail
[ssba]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *