Dando close com a Karol Conká em Paris

Parisienses tem mania de usar preto. Vez ou outra, eles arriscam acessórios neutros ou aquele Stan Smith no pé. A matiz de tons facilita a identificação dos turistas, quase sempre com roupas coloridas. A exceção é a Karol Conká. De cabelo rosa, brinco amarelo e meia com estampa de onça, ela não está na Europa a passeio. A rapper faz sua terceira turnê internacional e toca na edição francesa do Afropunk — festival que celebra a cultura negra.

Um ótimo pretexto para sair em busca da cultura africana da cidade, bater umas fotos e trocar uma ideia no apertado metrô de Paris sobre o disco novo, machismo e cabelo.

Esperando o metrô.

Esperando o metrô.

“Isso aqui não tem no Brasil!”, exclamou ela quando parou em vitrine de Château d’Eau. O bairro que concentra cabeleireiros e lojas especializadas em cabelos afro entrou na lista de lugares favoritos da Karol. E os vendedores de lá agora tem em Karol uma das freguesas preferidas. A rapper saiu carregada de pacotes com metros e metros de cabelos de cores, tamanhos e funções diferentes. Quem chegava perto queria saber quem era aquela mulher.

Dando uma olhada nas vitrines.

Dando uma olhada nas vitrines.

Garfando as madeixas.

Garfando as madeixas.

Uma cabeleireira resolveu não esperar a resposta e puxou a rapper pra sua loja, deu cartão e quase marcou uma sessão pra renovar o penteado. As novas aquisições vão para o clipe de “É o Poder”, música feita em parceria com o Tropkillaz. A faixa faz parte do novo álbum, previsto para esse ano. O disco terá participação do Boss in Drama, do guitarrista Gee Rocha e do rapper Don Cesão, amigo de longa data da Karol. Ela também convidou a cantora Ludmilla, mas a parceria ainda não está fechada. Todas as letras terão a assinatura com K, à exceção de “Cabeça de Nego”, do Sabotage. Parte da renda do disco será revertida para a família do rapper. “Vai ter rap, música pra balada e vai ter uma linha vocal mais avançada, com melodias”, me disse ela.

Várias opções de produtos para mulheres negras.

Várias opções de produtos para mulheres negras.

Agarrou tudo!

Agarrou tudo!

Essa é uma das razões que colocou “Back to Black”, da Amy Winehouse, no seu novo repertório. Tentar algo novo é algo a que Karol está acostumada desde seu primeiro disco, “Batuk Freak”, de 2013. Além de letras que vão na tangente da denúncia de problemas sociais, o álbum tem bases que funcionam no freestyle e na pista. “O rap nacional falava muito de problema e estava certo, senão muita gente não saberia o que acontece nas periferias”, me disse ela. “Mas tendo em vista que temos esse estilo, eu quis trazer um estilo novo e por isso minhas músicas falam de auto­estima, soluções.”

Isso não quer dizer que Karol não bata de frente. Ao contrário. Ao observar bares repletos de homens ao lado de uma estação de metrô próxima ao famoso Moulin Rouge, a rapper lembra do dia em que deu um chega pra lá em um homem que a abordou naquela mesma Paris. “O machismo é desgastante, mas eu aprendi que quando a gente ignora a gente faz o problema continuar ou aumentar”, me disse ela. “Tem que problematizar, sim, tem que ir nas redes, tem que falar.”

pausa-para-uma-foto-enquanto-ela-tira-foto

Pausa para uma foto enquanto ela tira uma foto.

A rapper troca essa ideia poucos dias depois de vir à tona o estarrecedor caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro. Ela não atribui ao funk a culpa irrestrita pela violência contra a mulher. Por outro lado, também acredita que a música tem uma responsabilidade: achar uma saída para o que tem de ruim por aí. Nesse sentido ela não nega que se identifica não só com o público feminino, mas também com a galera LGBT. “Música falando besteira sempre existiu, em todo lugar”, me disse. “Que o hip hop é uma cultura machista, a gente sabe, mas o que muita gente não sabe é que ele está deixando de ser.”

Com trinta anos e três passagens na gringa, a rapper está confortável com o título de popstar. Para ela, as turnês são um sinal de que as coisas estão no caminho certo. Depois do rolê, voltamos para o centro cultural de hip hop no meio da cidade onde uma molecada ensaiava uns passos. Ela chega a comparar Paris e Curitiba. “As pessoas também não se vestem de maneira colorida, falam baixo, são reservadas”. Karol estava em casa e não pensou duas vezes quando alguém lhe fez cara feia: soprou um beijinho e deu uma piscadela pra moça que andava de preto.


Matéria originalmente publicada em junho de 2015 no Noisey. Fotos por mim.

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