Danza Ku o quê? A evolução do guettotech africano

As duas novidades que aproximam Brasil e Europa nascem entre lá e cá. A primeira é o sertanejo universitário. Michel Teló já é hit do verão passado no velho mundo e agora duela espaço com Gusttavo Lima. Os brasileiros atiçam a curiosidade musical europeia com a língua (será que é espanhol?), a sonoridade (acordeon e sensualidade andam juntos?) e, essencial ao pop, a facilidade de encontros e misturas (remixes, edições e mashups saem pelo ladrão na rede).

A outra novidade é a música eletrônica africana. Nem tão nova em influência, mas sim em alcance. Outro sucesso do julho passado na Europa, o “Danza Kuduro” abre as aparições diárias de Carminha e companhia no horário nobre da Globo. Aqui na versão asséptica “Dança Com Tudo”,  a música culminou o flerte que já existe há bons anos entre a periferia africana e a periferia brasileira — agora apelidada como Classe C pelos produtores e investidores. E no caminho entre elas, o velho mundo.

O toque eletrônico originalmente africano vem com força para a Europa nas últimas décadas do século. Não à toa, a Angola de tradição portuguesa, acostumada a misturas e influências, é a primeira a desembarcar seu produto no continente. O kuduro é filho célebre de DJs e produtores africanos como Tony Amado e, embora seja feito desde os anos 80, só ganhou seu nome e forma na virada para os 90.

No começo, os kuduristas recebiam influências da nova cena eletrônica que surgia em Detroit e já respingava na Europa. A semelhança com o deep house das primeiras gravações é evidente nos graves cortados e na repetição exaustiva dos temas. À essa época, o termo afro-house caía bem. Ele caduca com a evolução do ritmo, hoje em dia mais habituado à sujeira do grime e à velocidade do drum’n’bass. As faixas atuais ficam em 140 BPM e vem com a letra de um MC, obrigatoriamente.

(O processo, que pode ser visto como estagnação ou como diversificação, se assemelha bem ao que sofre o funk carioca: global, o ritmo cai em fórmulas ao mesmo tempo em que se renova em outros guetos que não os do Rio de Janeiro.)

Kuduro de raíz ou ku-dance: o som angolano não é tão parecido com a música que assola o ocidente e leva seu nome, interpretada pelo portorriquenho Don Omar e pelo português Lucenzo.  A faixa original de Avenida Brasil tem batidas em síncope e uma cantoria sobreposta, mas não se pode confundir ku com cou. O “Danza Kuduro” está mais pra “Danza Coupé Decalé”.

Aí vem outro tronco da cena eletrônica africana. Um tronco que, curiosamente, não nasceu na África. O Coupé Decalé nasce em Paris na virada dos anos 2000. À moda antiga, o ritmo vem de clubes marfinenses na capital francesa. A distância da terra natal produz um som muito mais calcado em tradições africanas. Seja pela raíz afro, seja por influência do proprio kuduro, o Coupé Decalé mira na dança pela pancada eletrônica, mas não abandona estruturas melódicas e instrumentos emulados da Costa do Marfim. A língua, contudo, é o francês do colonizador.

Esse é o caminho que segue o Coupé Decalé. Da metrópole à ex-colônia que acabara de sair da guerra, o ritmo vem como um novo convite para o Franco-Eldorado. Os clipes que circulam mostram imagens de festas, ostentação e consumo e as letras não falam de luta ou pátria. As canções falam de assuntos prosaicos e divertidos, como a dança da gripe aviária (?!). O ritmo é tão forte que influencia um dos grupos mais tradicionais da ilha, o Magic System.

No vai e volta, o Coupé Decalé acaba por se pulverizar em dezenas de sub-gêneros (como o Wossolo), seguindo a tradição dos ritmos eletrônicos. Ao mesmo tempo, o som estimula a produção de parte do pop francês e continua a subir o globo, ao contrário das previsões da gravidade. A próxima parada do forte guettotech africano é a mãe de toda a deturpação, a ilha que já dominou 2/3 do mundo, a sede da mais recente Olimpíada: Grã-Bretanha.

Dando um zoom na capital da Inglaterra, Londres, como sempre, absorve os ritmos e os regurgita em meio a sujeira, barulho e poluição. A força maior da África na terra da Beth, no entanto, vem de Gana e Nigéria. O Afrobeats — com s, sem Fela Kuti — é quente e ganhou força esse ano. Surgido nos clubes e festas da juventude negra britânica, o ritmo bebe em gêneros ganenses e nigerianos (como o juju e o hiplife) e é novo até na ilha bretã. Isso significa dizer que, com boas chances, será o Afrobeats quem dará o tom das pistas em pouco tempo.

Ainda que fosse só pela sua forte pegada nas batidas — quase sempre em duas ou três camadas, intercaladas e em menor quantidade por minuto –, também há uma forte proximidade de músicas como Oliver Twist e The Thing ao atual hip hop norte-americano. Além do ritmo, a melodia cadenciada e a estética gangsta não deixam mentir. Deve ser breve a aparição de faixas do nigeriano DJ Abrantee (mestre do gênero, na foto) featuring Jay-Z ou Snoop Dogg — ou Snoop Lyon, já que, via Diplo, ele tem flertado com dancehall e reggae jamaicano, ritmos que também influenciaram a atual produção eletrônica de Gana; mas aí são outras quebradas e outros guetos de uma cena maior, a da periferia mundial.

Se liga aí, é hora da revisão

Pre resumir tudo em música:

– Kuduro:

– Coupé-Decalé

– Afrobeats

E mais importante de tudo: esse texto é apenas um recorte do que vem acontecendo com a música eletrônica africana. A intenção nunca é abraçar tudo que rola num dos lugares mais férteis em produção artística no mundo.

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