De onde veio o Class Actress e para onde vai o Brooklyn

“É claro que eu quero ser mainstream”, disse Elizabeth Harper, após seu show, dentro de um camarim com alguns breves metros quadrados. O pouco espaço era adequado a uma banda pequena em formação e em divulgação. Sua apresentação de minutos atrás não deixava mentir. A moça, caída direto do Brooklyn para os Jardins, tocou para uma plateia empolgada que se contava nos dedos e artelhos. Acompanhada de Scott Rosenthal nos teclados e guitarra, Harper foi o Class Actress na estreia do Absolut Inn, bar/balada/livraria/terraço pop-up que abriu há pouco mais de uma semana na rua Oscar Freire.

A sentença da californiana vem de uma discussão tão velha quanto a década passada, mas tão insistente quanto a moda do retrô de décadas também passadas. Mainstream e underground, pop e alternativo, comercial e indie, coxinha e hipster, duplas e duplas. Os nomes mudam e as aspirações também mudaram. O Grizzly Bear virou trilha sonora do escrachado filme The Dictator enquanto o Jay-Z chamou o Dirty Projectors para seu festival de música; o Foster the People encabeçou várias campanhas publicitárias (e até fez música para uma) e a Lady Gaga deve trabalhar com um produtor recém-descoberto de 17 anos; o The XX toca com uma Orquestra Filarmônica enquanto a Rihanna sampleia uma de suas faixas.

Hype e nada mais? Improvável. Rebento da geração iPod? Talvez. Criatura pós-moderna? Quem sabe. Produtores e empresários loucos por dinheiro (e novos públicos)? Bem capaz. Ainda é cedo para entender a colher que faz essa mistura toda acontecer. Harper, que vive no nascedouro de boa parte do recente underground norte-americano, crê mais na última alternativa. “Devemos aceitar a ideia de que para ganhar dinheiro é preciso estar no mainstream”. Para a cantora (atriz e compositora), a autenticidade do artista independe das barreiras de rótulos — e do fato de ele ganhar ou não uma bufunfa com o que faz.

O lugar de onde saiu o Class Actress vem se acostumando com isso. O novo sintoma da bolha pop que engole o distrito novaiorquino é o seriado Girls, que estreou esse ano pela HBO. Pronto para sua segunda temporada, a série conta a história de quatro garotas em seus eternos, meio pobres e meio cômicos vinte e poucos anos. O ambiente são os predinhos de arquitetura protestante depois da ponte cujos arcos lembram arcadas de uma igreja presbiteriana — quanta coisa pomposa para dizer Brooklyn. Com isso ganha mais força a gentrificação do bairro,  outro item que modifica sua antiga vocação de estar fora dos primeiros lugares dos rankings da Billboard e da Spin. “Um lugar para ser ver e ser visto”, diz Harper, que mora por lá desde 2009.

Essa predisposição local ajudou no nascimento do Class Actress. A vocalista, que vinha de carreira solo, se mudou para o bairro a pedido de seu agente. Lá ela conheceu os outros dois integrantes do que viria a ser a banda. “Você é absorvido pelo lugar”, diz ela. Ou o lugar te absorve. O trio já começa a fazer parte do jogo das quadras que agora juntam músicos de garagem e músicos de estúdio. Uma de suas músicas está em outra série com meninas no nome. “Keep You”, canção de trabalho do primeiro álbum, é trilha de um dos episódios de Gossip Girl.

O verso “I want to keep you in my heart” foi o mais gritado pela plateia na breve passagem do Class Actress pelo Brasil. Embora seja esse o hit da banda, mais duas ou três músicas têm apelo suficiente para ganhar público. “Bienvenue”, “Weekend” e “All The Saints” reproduzem células simples de ritmo — um iPod com as bases substituiu o baterista Mark — e convidam a cantar ao mesmo tempo que convidam a dançar. Harper, que diz amar dance music, não esconde as influências: anos 80, Depeche Mode, house music e João Gilberto.

O nosso maior cantor de banheiro (isso é um elogio) surpreendeu Harper à primeira audição. “Me perguntei ‘como pode um homem cantando tão baixo?’ Isso mudou minha vida!”. Mais ou menos, o sussurrar do baiano ressoou na artista. Além de cantora de vogais longas e agudos cativantes, a moça também é atriz, algo que julga ser menos natural a ela. “Cantando não há personagem. Sou eu ali”. A máxima vale para letras que, segundo a autora, são um misto de diálogo, poesia e conversas. A importância lírica e vocal somada ao synthpop repaginado são um bom resumo do primeiro disco da banda e do seu show no Absolute Inn. Como essa formular se comportará frente as mudanças do celeiro do Class Actress, só o tempo dirá. Mais precisamente, alguns meses: o próximo disco está previsto para julho de 2013.

As fotos são do Fernando Prado.

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