Deixe a melanina fluir. Deixa cair. Deixa balançar.

O título que coroa o post é inspirado na frase de um amigo com grandes aspirações de escritor. O rapaz tem aspirações a pé-de-valsa também. Ao som de Clube do Balanço, aliás, só não é quem não quer. Que digam as pessoas sambalançando na comportada sala do Itaú Cultural. Foi a cena do show do primeiro domingo do mês de abril, fim da micro-turnê da banda que destila balanço e o melhor da música negra pelo Brasil há um bom tempo. Do passado a maior lembrança foi Simonal, trazido ao palco por interprétes como Tereza Gama e a cria do genial rei do suíngue, Simoninha.

A chuva da outrora cidade da garoa quase afastou a galera que ia pro show. Não foi o caso, do contrário não haveria três sessões, uma seguida da outra. Todas foram abertas pelo DJ Gran Master Ney e pela Equipe Soft Fest, que aqueceram a galera com soul e funk, de James Brown a The JB’s. Cada um carrega anos e bailes com milhares de pessoas nas costas. Festas R&B e Samba Rock eram eventos grandiosos no fim dos anos 80: lotavam clubes esportivos com gente vestida na estica e soundsystem amplificadíssimos. “Um tempo bom, que não volta nunca mais”, mas nem por isso não pode ser lembrado — ou revisitado, como tem sido feito.

Também são responsáveis por isso bandas como Os Opalas, Farufyno e o próprio Clube do Balanço. Subindo ao palco ao som de Zula, o vocalista e guitarrista Marco Matolli já faz todo mundo sócio do Clube. O percussionista Fred Prince vem na marcação cadenciada do samba enquanto o batera Edu Peixe varia nos ataques a seus pratos. A metaleira só favorece ao balanço. O tom fica mais suave com A Sereia e o Marujo, mas a interpréte Tereza Gama faz questão de não deixar a peteca cair com seu vozerrão que sai fácil, fácil. Com a Equipe de dança do Moskito estaria mais do que feito o baile senão fosse a falta de um convidado de honra.

Simoninha que me perdoe, mas o convite mais célebre foi o de Simonal. A começar por “Vem Balançar”. Encantada por Elis e Simona, a canção é a receita de um arranjo imponente de sambajazz. Pro samba-rock, o Clube somou o trompete de Reginaldo 16 e o trombone de Tiquinho, mas perdeu muito enquanto subtraia a virtuose do piano e da bateria — no original, provavelmente, do Zimbo Trio ou Som3. Chegando Simoninha, Simonal está mais no palco do que nunca. Talvez na figura de Simoninha (é inevitável não juntar um no outro, ainda mais com trejeitos, o dar de ombros, o “deixa cair”), mas principalmente no seu melhor: a música.

Atualmente, o legado de Wilson Simonal é pouco conhecido pelo grande público. Aquele que chegou a ser um dos maiores (senão o maior) cantor do Brasil quase nunca é lembrado por sua herança à música brasileira: divisões harmônicas, voz melódica, arranjos orquestrados, etc. O presente dado por Simonal e pelos músicos que o acompanharam ao cancioneiro brasileiro foi em muito condenado ao ostracismo, tal qual ele mesmo — vítima de um “pessoa errada na hora errada no lugar errado”. Para o bem dos ouvidos, o rei da pilantragem e de muito mais tem sido relembrado ultimamente, junto dessa retomada dos bailes e da música negra autentica brasileira.

Assim, além de “Vem Balançar”, Clube, Tereza e Simoninha ainda interpretaram a brincalhona “Galha do Cajueiro” e o lado-B “Colecionador de Amigos”. O set list ainda contou com “Paz e Arroz” e “Balanço”. O espetáculo de dança do Moskito e o espetáculo da sua parceira são outros detalhes que deve ser lembrado. No mais, é só balanço.

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