Desenho reconhecendo arte

Muito bacana essa animação. Legal ver que o autor a criou “só por prazer”. E ainda tem originalidade. Carregar originalidade no traço é tarefa árdua pra qualquer um que crie um objeto de apreensão sensorial — pra não dizer artista e acabar excluindo dezenas de sujeitos. Na percepção visual isso é até mais forte, uma vez que a apreensão pelos olhos carrega, eu acho, as sinapses mais velozes do cérebro. E logo nos vemos falando “isso é tipo aquilo” e lá se vai o original.

Não confuda-se originalidade com estilo. Estilo é juntar muitas características numa só mão. Em Picasso, são as tons e traços vibrantes, o viés social, os cenários. Para ser original é preciso conhecer um bocado de coisas e criar uma coisa nova. Picasso dominava a pintura clássica, mas ficou conhecido mesmo pelo seu cubismo: uma estreia nas artes.

O desenho de Picasso foi reconhecido como arte muito antes da animação fazê-lo. Basta ver que seus rascunhos e estudos estão colocados lado a lado de suas obras primas em exposições. O desenho animado foi criado para crianças, produto cultural, tem um ranço que só saiu do paladar quando a tal cultura pop ganhou status de cultura. Se demoraram pra discutir o cinema como arte, que dirá a animação.

Dá pra dizer que esse dia chegou? Talvez. O selo da arte só vem com originalidade. E o autoral tem espaço na web, em festivais pelo mundo  (como o Anima Mundi por aqui) e no mainstream, como Akira, Cowboy Bebop e Star Wars: Guerras Clônicas — taí um cara com estilo, Genndy Tartakovski.  O patamar de “arte” amplia a discussão e favorece a criação, mas tira um ranço enquanto traz outro: o de que aquilo é, agora, oficial. Surgem regras, conceitos pétreos, mesas, painéis, debates, especialistas. Até que alguém volta para as raízes e faz algo “só por prazer”.

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