DJ brasileira filha de imigrantes, Lyzza se destaca na cena eletrônica da Europa

A história se inicia como outras. Mulher desempregada deixa o Brasil em busca de melhores oportunidades na Europa. A tiracolo, uma filha de seis anos e uma bolsa com alguns contatos. O lugar escolhido para tentar a vida nova é Amsterdã, capital holandesa. E enquanto sua mãe limpava a casa e cuidava das crianças do patrão, Lysa da Silva — um sobrenome também comum — assistia a desenhos animados no quartinho.

Quando adolescente, ela mudou o nome para se lançar na música. Hoje, aos recém-feitos vinte anos, Lyzza é uma das novas caras da cena eletrônica europeia. A DJ e produtora já estampou publicações internacionais, como Pitchfork, Crack e Dummy Magazine, além de ter se apresentado em palcos importantes do continente: o festival Sónar, em Barcelona, o clube DC-10, em Ibiza, e o Montreux Jazz Festival, na Suíça.

A fluidez com que atravessa gêneros e estilos, sem deixar escapar as batidas que dão ritmo a uma pista de dança, tem chamado a atenção dos ouvidos europeus. Em uma única performance, Lyzza cruza uma versão industrial do clássico Macarena, um hit de Mc Bin Laden e músicas cuja aspereza típica do techno é conhecida apenas pelos frequentadores da noite.

A verve prevalece em seu trabalho enquanto produtora. Em outubro de 2018, ela lançou “IMPOSTER”. Lyzza abre o álbum com uma canção ornamentada de suaves arpejos de piano e fecha com uma sétima faixa que entraria no sub-gênero gabber — uns chamariam de “bate-estaca”.

“Quando eu toco como DJ, eu me comparo ao coelho que leva a Alice para o buraco”, diz ela, em frases que mesclam português e inglês. “Você tem todo o controle sobre as pessoas e elas tem de aceitar aquilo que você está dando. Mas na composição, sou eu sozinha lidando com a ansiedade, fazendo música no meu quarto.”

Essa fuga de rótulos não é uma tática nova na música. Existe um frescor da idade, entretanto, nas palavras de Lyzza. Ele é cozinhado nas aspirações de uma juventude que põe em xeque as etiquetas mais básicas da sociedade, como gênero, sexualidade ou padrões de beleza.

Se essa geração faz esse questionamento na Internet por meio de redes como o Twitter, o Instagram e o SoundCloud, ela também o faz na pista de dança. Da mesma maneira como manda a moda, agora antiga, dos primórdios da música eletrônica em Chicago, Londres ou São Paulo.

“Não havia muitos DJs jovens, mulheres e pretas em Amsterdam quando eu comecei a tocar, há quatro anos, mas eu sentia que pessoas LGBT ou pessoas que não eram brancas me aceitavam”, lembra ela. “Tem minorias que se sentem confortáveis de estar no mesmo espaço em que eu estou tocando”.

Chega a ser natural que ela aponte músicos como a islandesa Bjork e os americanos Marilyn Manson e Lil Uzi Vert no seu rol de inspiração. “Por que somos colocados em caixas que nós mesmos não escolhemos?”, indaga-se ela. “Esses artistas escaparam a essas categorias.”

Foi frequentando baladas e oficinas de DJ de Amsterdam que, aos 16 anos, Lyzza começou sua caminhada na música. Ainda que fosse menor de idade, ela dava um jeito de estar presente nas festas da capital holandesa.

O renome veio graças a apresentações em outros países, quando ela passou a figurar em sites especializados e postagens de gente entendida da noite. No começo, dormia na casa de amigos que, por compartilhar o mesmo gosto musical, tinha feito pela internet.

“A Lyzza brinca bastante com o funk, mas também gosto muito dela enquanto cantora, e cantando em português. É necessária essa inserção do funk no mundo club feita por brasileiras”, diz a DJ e produtora Badsista, que vive em São Paulo e faz parte do coletivo TORMENTA.

O trabalho de ambas as artistas e também do coletivo tem propostas discursivas e estéticas semelhantes. Tanto por isso, a paulistana produziu o remix de uma das faixas do primeiro EP de Lyzza. O álbum não tem data de lançamento, mas o próximo compacto de inéditas deve sair em outubro.

O disco será lançado em Londres, onde Lyzza vive hoje. A mudança não veio sem o aval da mãe. “Hoje ela me apoia bastante, procura meu nome na internet, me manda coisas que as pessoas escrevem sobre mim no Twitter, tenta até me dar dicas”, diz ela. “Eu espero que um dia eu consiga fazer com que ela tenha uma vida de mãe, apenas, que eu consiga comprar uma casa pra ela.”

Mudar-se para o Brasil não é uma opção por ora. Visitar o país, sim. Lyzza nasceu em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, e tinha 15 anos anos na última vez em que esteve ali para visitar parentes.

Ela pretende passar por São Paulo e Salvador numa próxima vinda. Será a ocasião de encontrar a cantora Linn da Quebrada e passar na festa Batekoo, das quais é fã. Botar seu som em alguma pista é uma vontade inegável. “Acho que tocar também é um jeito de me sentir um pouco mais próxima da cultura brasileira”, diz ela “Mas eu não sei necessariamente o que significa ser brasileira, nem sei o que significa ser holandesa. Aceitei desde muito cedo que eu nunca ia ser ‘uma coisa’.”


Matéria originalmente publicada na Folha de S. Paulo em agosto de 2019.