Dum Dum Girls, Beth Jeans Houghton e o algo a mais das mulheres na música

Não é uma visão machista, muito menos feminista. É, sim, tão verdade quanto inexplicável: existe alguma coisa entre mulheres, cordas e baquetas que deixa tudo melhor do que realmente seria. O festival “Les Femmes S’em Melent”, voltado especialmente às artistas da cena independente, vem comprovando isso durante o mês de março, na França. Ontem foi a vez da prova real, com o Dum Dum Girls na linha de frente do palco da casa de shows Le Ciel, em Grenoble.

A banda da California já tem um certo respaldo no mundo indie depois de três EPs e dois álbuns, sendo o primeiro, “I Will Be”, de 2010. Ali as garotas mostraram que nem só de praia se faz o “Golden State” ao reviver uma pegada lo-fi e garageira. A graça do Dum Dum Girls era a imperfeição em faixas suaves, esquema bailinho de filme adolescente, ou, quando muito, levemente agressivas, mais pelos rápidos andamentos que pela força sonora.

Dali em diante, foi quase um ano e meio até o segundo disco e pela estrada ficaram a chiadeira dos vocais, os amplificadores microfonados e até as rebarbas de cordas. A escolha foi intencional, numa tentativa de aumentar o alcance do público, como afirmou para um site britânico a líder do grupo, Dee Dee (a semelhança com o Ramone não é coincidência). Certa ou não, a opção da banda surtiu efeito. Ao vivo, o Dum Dum Girls mostra originalidade com referências a seu próprio estilo, do surf music ao rockabilly, passando, é claro, pelo punk.

Uma das faixas do primeiro álbum, a canção “Bhang Bhang” fica muito mais encorpada sobre o palco que na versão de estúdio. Além de guitarras mais potentes, a bateria de Sandy Vu não fica por menos. Versátil, ela consegue sair nas horas certas de sequências simples para explorar melhor seu instrumento. A moça toca o show inteiro ao lado de um ventilador, com seu cabelo esvoaçando entre marretadas e vento. Cena que se encaixaria muito bem em um filme do cineasta Quentin Tarantino, não só pela imagem, como também pela trilha.

Todo o concerto, na verdade, serviria para um filme do diretor de Pulp Fiction. É fácil imaginar Mia Wallace dançando ao som da nova música do grupo, ainda não lançada. Enquanto Dee Dee canta “I feel nothing”, a guitarrista Jules usa reverbs e tremolos como bem fazia Dick Dale. Para não ficar muito ensolarada, a música tem uma linha de baixo decrescente a cada compasso. Mais sombria, ao estilo do The Cramps.

Outras canções, como o mais novo single “Coming Down” e “Just a Creep” estão na lista do show de quase uma hora. Todas vêm a nova onda do Dum Dum Girls: reforçar as influências com assinatura própria. Isso vai da música ao estilo das moças, que, embora tenham largado o lo-fi, não abandonaram as maquiagens escuras, as meias-calças customizadas e aquela singela mexidinha para o lado a cada paletada.

O mundo de sonhos da jovem Beth Jeans Houghton

Antes das garotas da California subirem ao palco, foi a vez de uma britânica não muito conhecida se apresentar. Por isso mesmo, as primeiras impressões sobre Beth Jeans Houghton logo recaem sobre outras colegas mais famosas. Um vídeo mais antigo do Youtube pode denunciar uma Laura Marling, sua voz nas canções mais recentes pode lembrar uma Feist e seu estilo, de certa maneira, pode dar até numa Lady Gaga. “Eu ignoro todas essas comparações”, disse ela à reportagem da MTV, logo após o fim do seu show. Mas aí é preciso voltar ao começo, aliás, para bem antes do show, para compreender que a moça tem razão em fugir dos paralelos.

Em 2008, a artista surgiu para o mundo com seus 18 anos e um primeiro EP, “Birdy”. Em 2010 ela assinou contrato com a gravadora The Mute, que tem nomes como Nick Cave & The Bad Seeds e Depeche Mode na sua discoteca. A banda teve um de seus álbuns produzido por Daniel Miller, o mesmo que produziu o primeiro disco de Beth. Ela explica, no entanto, que ele não teve tanta influência assim no resultado final de “Yours Trully, Cellophane Nose”. “O disco já estava gravado antes de eu assinar com a Mute.”, diz.

O hiato entre 2008 e 2012 foi o tempo de surgirem e/ou se consolidarem as três moças às quais Beth é frequentemente comparada. Se for para enquadra-la em alguma prateleira, entretanto, pode-se colocá-la ao lado de bandas como Beirut, Florence and The Machine e Mumford and the Sons. Longe de afirmar que seu som é totalmente novo, nem tampouco mais do mesmo. Assim, à clássica pergunta sobre as influências ela responde: “gosto de músicas antigas”. Essa preferência se reflete em uma boa surpresa, seja no disco, lançado em fevereiro último, seja no show, parte de sua primeira turnê fora do Reino Unido.

As canções velhas de que Beth fala são de bandas marciais, bluegrass e folk. As referências ficam claras no show em músicas como a festiva “Sweet Tooth Bird”, em que ouve-se um banjo elétrico fazendo o tema, o trompete avisando sobre a presença do grupo e o rufar constante da caixa. O trunfo aqui é especialmente de seu grupo, The Hooves of Destiny, entrosado como se tivesse sido formado entre amigos de bairro – e foi, como nos disse Beth. O toque de modernidade do som se dá ali também, com a bateria que às vezes descamba para o Vampire Weekend, a presença do teclado e as quebras inesperadas de ritmo em todos os instrumentos.

Esses três pontos são fundamentais na maior característica do seu álbum e do seu show: a atmosfera de sonho que embala todas as canções, da letra à melodia. São detalhes pequenos que somados à própria Beth dão o ar fantástico às músicas. No single “Dodecahedron”, a cantora vai de sonhos a pesadelos com o timbre da sua voz ou cantando em coral com os companheiros de banda, sem deixar de dedilhar sua guitarra. No palco, ela usa uma maquiagem carregada, como uma criança que pegou escondido os cosméticos da mãe. Nem seu cabelo propositalmente bagunçado escapa do tom infantil. Uma competição de arroto, acreditem, também está na lista de molecagens. Para voltar ao mundo real, só terminando com assuntos da carne. Beth Jeans Houghton and The Hooves of Destiny terminam o show com uma excelente e inesperada versão de Like a Prayer, da Madonna.

Texto originalmente para o Portal MTV.

Facebooktwitterredditpinterestmail
[ssba]

2 thoughts on “Dum Dum Girls, Beth Jeans Houghton e o algo a mais das mulheres na música”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *