Eu usei a máquina de ser outro e virei mulher

Eu conheci um pouco do futuro muito tempo antes de você questionar qual a procedência da carne: natural ou sintética? Aliás, a mania de se perguntar de onde vinha a carne começou naqueles anos, mas era uma propaganda. E a clonagem não era carne de vaca. Ninguém se preocupava em distinguir uma holografia de uma pessoa, tampouco se falava em comprar um tablet quântico. O big data era famoso e a mineração espacial era uma das fronteiras finais. Nessa época, houve um dia em que eu conheci um pouco do futuro.

Eu virei outra pessoa. Eu virei mulher.

Não que modificar seu sexo fosse algo do futuro. É verdade aquela história de que muita gente ainda não entendia ou simplesmente odiava as pessoas transgênero – não me pergunte o que eles pensariam caso soubessem da problemática ética e jurídica quanto a fertilização eugênica sob demanda. Mesmo assim, outras identidades de gênero eram realidade. O grande passo adiante, então, era dar um passo com o corpo de outra pessoa. E fazer isso graças a um sistema eletrônico, digital e interativo era mais futurista ainda.

Naqueles idos, ambientes de realidade virtual ainda eram ficção científica. Várias empresas tinham se arriscado nesse mercado, mas nenhuma chegava nem perto do que víamos nos filmes. A Nintendo, por exemplo, tentou um tal Virtual Boy que mais parecia o visor do Ciclope conectado à primeira edição do Mario. Quem ganhou a corrida, afinal, foi o Oculus Rift, da empresa Oculus VR, posteriormente comprada pelo país-corporação Facebook. Eles criaram o aparelho que tornava a experiência de imersão virtual em algo plausível de se chamar real.

Essa é a Marina cumprimentando o Antero, o amigo do Philippe. Ou vice-versa. Crédito: Felipe Maia

Esses óculos eram parte do aparato que me transformou em mulher por alguns minutos. O sistema todo se chamava Machine To Be Another. Ele fora criado por uma equipe liderada por Philippe Bertrand, um brasileiro com nome francês que tinha um laboratório num porão da zona sul de São Paulo. Eu fui nesse laboratório num fim de tarde em 2014 com uma amiga, a Marina. O Philippe tinha pedido para que eu levasse uma mulher comigo para que sua experiência fosse mais interessante. O acordo seria que eu me transformaria nela e vice-versa.

“Quem é você se você consegue entender melhor o outro? A gente conseguiu desenvolver esse sistema hackeando o protocolo de neurociência de um experimento que se chama embodiment”, disse ele, logo que fechou a porta da sua oficina. Para Philippe, todo o processo se resumia a entender o mundo pelo corpo de outra pessoa. “A percepção da sua identidade está completamente relacionada às pessoas a sua volta. A gente criou esse sistema com esse foco: desenvolver a empatia entre pessoas de contextos diferentes.”

Philippe ressaltava a narrativa criada, o protocolo de interação. De uma história emitida por fones de ouvidos a movimentos mimetizados pelos participantes, o entorno era tão importante quanto as máquinas. Não à toa o Antero, um amigo dele, estava lá para nos ajudar com a interação – depois ele também fez o experimento. E Philippe também disse que eu poderia ficar mareado. Mas o que é um enjoo em outro corpo que não o seu? Ou seria mesmo o meu?

Coloquei o Oculus de olhos fechados e só os abri sob o comando do Philippe. Olhei minhas mãos. Vi dedos menores e unhas pintadas. Depois vi minhas pernas delicadas com uma calça justa. Levantei o pé que, agora, calçava uma bota em vez do meu tênis surrado da Adidas. Me apertei, me apalpei e meti a mão no meu peito. Segurei uma maçã de verdade. Poderia comê-la? Larguei-a para me olhar no espelho. Lá estava eu, japonesa de cabelos grandes. Atrás dele, a maior surpresa: um cara de barba rala e cabelo bagunçado. Apertei a mão de quem eu era.

O Philippe supervisionou o experimento enquanto a Marina e o Antero brisavam. Crédito: Felipe Maia

Tudo era novo para os sentidos, meus ou da Marina. Ela tinha um PlayStation Eye acoplado bem na frente de seu rosto. Essa câmera transmitia imagens para mim segundo o giroscópio do Oculus. Eu mexia a cabeça, a câmera imitava. Eu mexia o corpo, a Marina imitava. Um processador Arduino traduzia as informações levadas de uma pessoa a outra por um sistema em Pure Data e openFrameworks – nomes difíceis que podem soar primitivos no futuro. “Esse tipo de experimento no âmbito da neuropsicologia custa 100 mil euros. Aqui, ele custa uns 500 euros”, disse Philippe.

Ele colocou o Oculus na minha amiga e eu vesti o aparato com câmera. Depois, ela me contou o que tinha achado. “Você realmente se sente no corpo de outra pessoa, principalmente quando usam os artifícios como som e objetos pra você se sentir bem imerso. Como mulher no corpo de um homem, a primeira coisa que notei foram minha mãos mais fortes e meus pés. Fico pensando: empatia é tudo mesmo. Para resolução de conflitos, brigas simples e às vezes até para guerras. Aquilo de ‘se coloca no meu lugar’ faz mais sentido.”

Essa era a maior crença de Philippe. Ele contou que a Machine To Be Another sempre seguia esse princípio. Além da mudança de gêneros, havia paraplégicos que assumiam o corpo de dançarinos e europeus que tomavam o corpo de imigrantes africanos. A maioria das performances acontecia entre gente que nem se conhecia. Até então, Philippe não conseguira mensurar os efeitos do seu trabalho, mas uma prova da empatia que tanto buscava insistia em acontecer. “Ao fim da experiência, as pessoas abraçam alguém que nunca viram”, disse.

Philippe botava tanta fé na empatia que isso tinha alavancado seu projeto. No fim de 2012, ele conhecera a ideia de embodiment em um livro do Miguel Nicholelis, o nosso primeiro cientista popstar. “Li e não acreditava. Escrevi na página: máquina de ser outro”, disse ele. Um projeto de mestrado na Universidade Pompeo Fabra, em Barcelona, o levara a criar o protótipo da Machine To Be Another. Em parceria com alguns colegas ele criou o BeAnotherLab e o grupo rodou exposições, encontros e maratonas hackers com sua traquitana.

Passados dois anos desde a primeira versão da máquina, Philippe resolveu divulgar o experimento com gêneros. Em cinco dias o vídeo em que ele vira mulher chegou a 2 milhões de visualizações. “O motivo de ter viralizado é que, sem querer, a gente tocou numa fantasia universal: trocar de sexo. Nos comentários do 4chan a galera falava que tinha medo, que nunca faria isso, mas a natureza da interação é o respeito mútuo. Eu me vi no corpo de uma menina e me senti vulnerável porque tinha um cara na minha frente, que era eu!”, contou ele.

Pelo menos até o dia em que fizemos a experiência, Philippe estava em busca de verba para continuar seu projeto. Dali a alguns dias, ele faria parte de uma instalação da ONU com imigrantes somalis, além de outros festivais e residências artísticas pelo mundo. Mas tudo que fizera até então era com grana do BeAnotherLab, um investimento dele e de seus colegas. “Pode ser financiamento de fundações interessadas ou da área médica, algum tipo de entretenimento, enfim, alguma solução pra gente trabalhar o nosso foco”, disse.

Eu mesmo entendi porque empatia era seu maior alvo. O mundo é grande e diferente e Philippe sabia disso: ele conhecera os babas indianos, trabalhara no mercado publicitário e tinha passado por vários cantos da Europa. “A partir do momento que você se coloca no lugar do outro e entende o que ele está sentindo, as relações sociais mudam radicalmente. A desigualdade social não seria tratada da mesma maneira, o preconceito também não seria tratado da mesma maneira, a guerra também não seria tratada assim”, disse.

A essa altura, eu não sei mais o que mudou, não sei se a empatia ou Philippe conseguiram solucionar algum problema humano. No meu tempo, leitores de memória não tinham nem esse significado literal. Eles serviam apenas para acessar arquivos como fotos e MP3s. Espero que você tenha cuidado com eles, porque sempre que seu pai fuçava nas pastas elas ficavam bagunçadas. Mas eu me colocava no lugar dele e quase sempre eu preferia uma conversa em vez de dar broncas ou colocá-lo de castigo.


Matéria originalmente publicada em agosto de 2014 no Motherboard.

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