Festival Afropunk deve ter edição em Salvador em novembro de 2020

Após uma batalha judicial de três anos, o festival norte-americano Afropunk terá uma edição brasileira. Em 2016, a organização do festival deu entrada em processo no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) para obter o direito ao uso da marca Afropunk no país. O registro foi concedido apenas em abril do ano passado.

“Isso nos atrasou, mas acredito que estamos mais preparados agora”, diz Matthew Morgan, fundador do evento. Hoje, o Afropunk é um ponto de encontro de diferentes correntes da cultura negra global. O evento reúne artistas, ativistas e fashionistas em um misto de festival de música, conferência de debates e semana de moda.

“Acredito que todas as outras edições estavam nos preparando para essa edição brasileira”, afirma Morgan. Segundo ele, o Brasil representa uma grande parcela do tráfego no site do festival.

O Afropunk Brasil será realizado em novembro 2020 com o subtítulo “Carnaval da Consciência”. A data faz referência ao mês da consciência negra. O mote, explica Morgan, surgiu após sua recente visita a Salvador. Ele diz que é quase certo que a cidade receberá o evento.

“Usamos esse título para o Afropunk de Atlanta, nos Estados Unidos, mas, quando fui a Salvador em fevereiro, eu entendi o que é um carnaval da consciência”, diz Morgan. “Não oficializamos que será na Bahia, mas estamos inclinados a fazer lá porque a maior parte da população local é negra”.

O festival foi fundado em 2005 em Nova Iorque e atualmente ocorre também no Reino Unido, na África do Sul e na França — edição que deve se assemelhar à versão brasileira. Em Paris, a quinta edição do evento foi realizada em julho e recebeu 13 mil pessoas em um final de semana com apresentações de 22 artistas.

A edição brasileira, segundo Morgan, terá cerca de vinte artistas nacionais e internacionais em dois dias de shows. O público é estimado entre dez e vinte mil pessoas.

Assim como em outros países, será cobrada a entrada para o Afropunk Brasil. As primeiras edições eram gratuitas, mas, diz Morgan, essa modalidade tornou-se inviável à medida em que o festival se agigantava com apresentações de artistas renomados como D’Angelo, Lenny Kravitz e Lauryn Hill. “Começamos a vender ingressos também porque precisamos pensar no valor da nossa cultura”, diz o fundador. “Se nós damos valor a nossa cultura, é nossa obrigação vender ingressos a um preço acessível.”

A organização pretende realizar outros encontros ligados ao festival nos próximos meses em Salvador, São Paulo e Rio. A lista de eventos ainda não foi definida, mas, segundo Morgan, ela vai englobar painéis com líderes de comunidades e concurso de bandas.

Ações conjuntas a ONGs, como distribuição de ingressos, e apoio a microempreendedores também estão na mira do festival. Seguindo os modelos internacionais, a edição brasileira terá uma feira de roupas, acessórios e comida. “Certamente vamos privilegiar negócios de pessoas negras”, afirma Morgan.

Todos esses pontos foram debatidos durante um jantar promovido pelo festival em São Paulo no mês passado. À mesa estavam personalidades das artes e do ativismo negro no país, como Eliane Dias, empresária do grupo Racionais, e as cantoras Xênia França e Luedji Luna. A reunião, diz Morgan, foi uma tentativa de criar um conselho para evitar deslizes na realização do evento no Brasil.

“Houve uma diplomacia da parte do festival de chegar ao país fazendo essa reunião”, diz Ligia Lima, promotora cultural que foi convidada a mediar o encontro. “Acho que as questões raciais são globais e se misturam, mas certamente existem perspectivas locais.”

Mulheres como a maior parte desse conselho são um reflexo da distribuição do público no Afropunk. Isso era evidente na última versão parisiense do festival, realizada na casa de shows La Seine Musicale. Por ali, jovens desfilavam com roupas e penteados inspiradas em tendências que vão do resgate a tecidos tradicionais ao afrofuturismo digital. Pausas para fotos eram essenciais.

Artistas mulheres também eram protagonistas no festival. No sábado, Janelle Monáe apresentou arranjos maximalistas do seu mais recente álbum, “Dirty Computer”. No domingo, Solange Knowles levou seu denso pop conceitual ao público. A rapper britânica IAMDDB aproveitava intervalos da sua performance para falar, como se sem pretensão, sobre feminismo — algo que as gêmeas do Ibeyi trouxeram ao palco como proposta explícita.

A presença feminina ainda soava forte mesmo em momentos em que homens eram atores principais . Quando o cantor nigeriano Burna Boy convocou o público a cantar o refrão de “Ye” —sucesso da nova geração de afrobeats na Europa e na África anglófona—, um uníssono de vozes femininas se ouvia pela sala de show.

“Acredito que 70% do nosso público é formado por mulheres”, diz Morgan. “Homens negros têm um estigma tão rígido colado a eles que é mais difícil sair disso, especialmente em relação a identidade e sexualidade.”

O cofundador do Afropunk foi vítima de críticas em outubro do ano passado. Em um blog, ao menos dez relatos denunciaram problemas no evento como falta de pagamento ou jornadas de trabalho extenuantes. Alguns textos mencionam Morgan. Nas redes sociais, relatos favoráveis à organização e ao festival surgiram como resposta.

“Sempre há alguma verdade nisso, mas, sem me direcionar especificamente a um ou outro incidente, posso dizer que crescemos e tivemos de deixar algumas pessoas para trás, e elas ficaram magoadas”, diz Morgan. “Não somos um negócio tão jovem assim, mas ainda não temos tanta capacidade para lidar com algumas expectativas.”


Matéria originalmente publicada na Folha de S. Paulo em julho de 2019.