Festival francês traz eletrônico oitentista e contemporâneo

Alguns elementos na música servem como certidão de nascimento de canções ou artistas. A caixa da bateria, por exemplo, tem data certa quando produz aquele som seco e aparece sozinha marcando o tempo: anos oitenta. Só o que pode fraudar esse documento é a nostalgia que , vira e mexe, invade a cultura popular. O Masquer é dessas bandas com certidão falsificada. O duo sueco, que se apresentou ontem no terceiro dia do festival francês Les Femmes S’en Mêlent, pode passar muito bem como uma banda de synthpop alemão ou new-wave britânico.

Os incautos não percebem o que faz da dupla Kicki Halmos e Pelle Lundqvist uma alternativa considerável na cena indie atual, e não de décadas passadas. “Sempre gostamos dos anos oitenta”, disse a moça, vocal do grupo formado com o amigo em 2010. Em 2011 eles lançaram seu primeiro EP e no começo desse ano foi a vez do primeiro álbum, “Cover my face as the animals cry”. A gravação do disco levou um ano, mas se justifica por ter sido feito de maneira independente – até o selo é da própria banda. A liberdade e o tempo de criação possivelmente contribuíram para a os pequenos detalhes que o Masquer coloca nesse tecido retrô.

Seria como não se lembrar do Joy Division ao ouvir o single “Happiness”. Apesar do título, a faixa tem o ar lúgubre que consolidou a banda de Ian Curtis. Ao vivo, ela mantém a sobriedade. Halmos canta a desilusão com a emoção necessária, lamuriosa e comovida. Enquanto isso, sua mão passeia pelo teclado segurando a tessitura das notas frias. Do outro lado, a linha de guitarra é calmamente desenhada, nota a nota. Embora a matriz do Masquer seja o synthpop, são as cordas de Lundqvist que encaminham o clima pelo show.

Todas as canções seguem esse tom minimalista, nem tão singelo quanto o The XX, nem tão variado quanto o Kisses. A música “Stark Naked” foge à regra por conta dos acordes de guitarra, mas ali está o fio da meada do duo, aquela bateria datada. Curioso é que (se não ficou claro até então, que fique): não há baterista na banda. As baquetadas são digitais – nem saem de um pad, mas sim de um notebook. Não há como não sentir o vazio acústico do som virtual, mas Halmos acredita que o duo não precisa virar um trio. “Eu faço minha bateria”, diz.

Do Brasil à Alemanha, do piano ao eletrônico

Dentro do mesmo caldeirão eletrônico, a cantora brasileira Dillon foi a segunda da noite no festival. Engana-se quem acha que pela origem viria algo conhecido aos ouvidos tropicais. Dillon mudou-se aos cinco anos de idade para a Alemanha e, ainda que já tenha feito apresentações no Brasil, sua música é mais conectada às vanguardas da música europeia que brasuca.

O seu primeiro álbum, “The Silence Kills”, foi lançado no fim do ano passado pelo selo BPitch Control, guarda-chuva de nomes da influente cena eletrônica alemã, como o Modeselektor. Então era de se esperar que o som da artista, que começou com apenas um piano e vídeos no YouTube, também viesse nessa esteira. O salto das teclas do instrumento para a tecla dos sintetizadores e notebooks não aconteceu sem muita experimentação de Dillon.

Uma certa ressaca do dubstep existe em canções como aquela que leva o mesmo nome do disco. Os efeitos minimalistas, os ecos graves e as modulações de voz existem, mas com outras funções e cores. Não à toa já tocou em um festival com James Blake. Mais próxima dela, no entanto, estaria a finlandesa Likke Ly. Dillon é sofisticada ao usar sua voz e tenta realizar, ali no show, samples que o computador faria por ela. A aparelhagem fica encarregada de texturas techno, industriais e até 8-bit, como a dos videogames antigos.

O problema é quando tudo isso se mistura em um curto espaço de tempo. Ao valorizar os recursos digitais em detrimento das linhas de piano, Dillon não peca por ser conceitual: ao contrário, peca por não encontrar um conceito em meio a tantas referências – algo que não acontece no disco. Mas quando define seu caminho, a garota deixa à vista bons horizontes. Sozinha, com o piano, ela faz uma versão para Willem, de Bodi Bill. A letra diz “You don’t like Sonic Youth? So fuck off and die too!”. Se Dillon gosta de Sonic Youth, ela realmente não quer que sua música fique por menos.

Matéria originalmente para a MTV.

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