Filme viaja no resgate da psicodelia brasileira

Joel Stones no Copan, em São Paulo

Os portugueses, então, ganharam a guerra contra os holandeses. Com medo da Inquisição, os judeus saíram de Recife em 1654 e rumaram para Amsterdã. A viagem foi interrompida para um dos navios, que se perdeu e foi parar na Nova Amsterdã. Os nomes de raízes lusitana e brasileira fariam parte da fundação da cidade que se chamaria, anos depois, Nova York. E de Mahattan parte, séculos depois, outra viagem de fundação. Agora no sentido contrário do trajeto e mais amplo da palavra, Artur Ratton e Joel Stones buscam a terra perdida da piração brasileira a bordo do filme “Brazilian Guitar Fuzz Bananas”.

A anedota histórica tem tudo a ver com a anedota cinematográfica. Há alguns anos o então Joel Silva partiu de São Paulo com alguns trocados no bolso em direção à Grande Maçã. Trampo vai, trampo vem, Joel conseguiu abrir um loja de disco na East Village. A Tropicalia in Furs mistura discos para venda e preciosidades da coleção de Stones. Na área seleta, bolachas de um momento obscuro da música brasileira: o som experimental e psicodélico dos anos 70 que não teve grande alcance de público e crítica.

Joel Stones, Serguei e Artur Ratton

“Resolvi montar uma compilação só com essas músicas desconhecidas”, diz Stones. Correndo à boca miúda dos crate diggers e às postagens amplificadas de blogs especializados, a ideia ganhou o selo “Stones Throw” — de Los Angeles, acostumado a sons lado-B — e fez sucesso para além da loja. A seleção “Brazilian Guitar Fuzz Bananas” saiu com pompa, capa viajandona e até um curta, resultado das filmagens amadoras de Stones e da amizade com Ratton, que gravou e editou algumas passagens. O compil deu jogo para o longa e o vídeo foi o pontapé inicial do projeto.

Joel Stones e o cantor Paulo Bagunça

O exotismo que tornou o disco tão inovador, mesmo para os ouvidos brasileiros, será dissecado no filme. Um episódio marcante envolve o outrora denominador comum da produção radio-televisiva brasileira, Carlos Imperial. “Ele tinha um projeto reunindo artistas como Toni Tornado, Fábio, Cassiano. Como tinha feito com a Jovem Guarda. Mas os caras não se entenderam, a música deu uma baixada e não rolou”, lamenta Stones. À margem das grandes produções radiofônicas e televisivas da época e com propostas ousadas, nomes como Tony Bizarro (que aparece na compilação na faixa “O Carona”) foram jogados de canto.

Outra causa para o esquecimento desses caras é um certo preconceito que ainda perdurava na época. “Tinha uma coisa de que negro devia tocar samba, não pegar na guitarra” adiciona Stones, uma vez que parte da produção tinha influências americanas de funk e soul de bandas como Funkadelic e Parliament. A falta de uma gravadora especializada nesse novo som foi a pá de cal e poeira sobre esses artistas. “O Gerson [King Combo] lançou seu último álbum em 76, quando o diretor da Phillips disse: a moda agora é punk”, diz o dono da Tropicalia in Furs e protagonista do filme.

No violão, Fabio

Além de não se limitar apenas aos artistas da compilação, o projeto não se enquadra estritamente como documentário. “Têm passagens de ficção, humor e surrealismo”, diz Artur. Numa delas, Stones mergulha numa praia carioca e aparece no interior do Rio de Janeiro com ninguém menos que Serguei. O encontro com o “Iggy Pop Brasileiro” deu-se nos vinte dias de gravação que rolaram no Brasil — financiado via crowdfunding. “Ficamos dois dias dentro da casa dele e ele foi se tocando aos poucos. Eles [os artistas] estão tão rodados que demoram para voltar àquela época.”

Depois da primeira excursão ao Brasil, os planos da dupla são inscrever o filme em editais e realizar novas gravações, com fim previsto ainda para esse ano. “Queremos terminar rápido porque o momento é pertinente. Tem uma nova geração que está a fim de conhecer tudo isso”, diz o diretor de fotografia e coprodutor de outro filme sobre música brasileira, o Beyond Ipanema. Até fecharem as fitas, diz Artur, ainda haverá tomadas na loja de onde partiu a viagem, hoje uma referência no segmento em Nova York e ponto de encontro de artistas novatos do Brooklyn ou já conhecidos como Mike D, dos Beastie Boys, e o ator Elijah Wood.

As outras locações pretendem afirmar o tom de road (ou trip) movie do Brazilian Guitar Fuzz Bananas. California, Paris e Turquia estão na lista e há o que fique por conta do acaso. Foi numa de suas andanças com a câmera na mão que Joel bateu com Alex Figueira, português que vive do selo “Music with Soul” na capital da Holanda. Empolgado com a história, Figueira se propôs a gravar um dos artistas escalados, Paulo Bagunça. Entre a nova e a velha Amsterdã, Artur e Joel não excluem uma possível parada na terra de fritos como Ave Sangria, Zé Ramalho e Lula Cortês — autores do transe auditivo e mais valioso da música brasileira, o disco “Paêbirú”. Seria Recife, a cidade de onde partiram os judeus novaiorquinos. As viagens são tantas que até eles teriam a ver com filme.

Fotos do Renato Custódio.

Ouça o disco que deu origem ao filme (via GrooveShark):

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