Gaby Amarantos é o Bob Marley do Pará

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Não venha com Beyoncé. Beyoncé não começou fazendo música com estrutura precária. Beyoncé não sintetizou toda uma gama de criatividade local em sua música. Beyoncé não levou a música de uma comunidade para além das suas fronteiras. Bob Marley fez tudo isso. Gaby Amarantos, com seu álbum “Treme”, fez e fará.

A aposta não é arriscada. As cartas boas estão todas na mesa, no disco lançado (e vazado) na sexta passada. Faixa a faixa cai a comparação com a cantora americana e se evidencia, entre outras coisas, uma aproximação com o artista jamaicano, principalmente nesse processo de popularização.  Em vez de trazer a música pop para si e reproduzir o sistema, Gaby leva sua música, o tecnomelody, ao pop, tal qual Marley fizera com o reggae, empacotando toda uma vibrante e autêntica cena em canções e álbuns de sucesso.

Não só nessa engrenagem pode se estabelecer essa aproximação. Aos que acreditam que a Jamaica fica na África, o single de Gaby vem como prova geográfica-musical de que a ilha é da América Central — e está mais perto do Brasil que os Estados Unidos. A linha de teclado é a mesma usada no dancehall caribenho. Insistente e acelerado, o riddim sustenta o refrão que, em tempos de confusões do ECAD, diz muito: “eu vou samplear, eu vou te roubar”.

Essa libertação, pirata e feminina, se prolonga na segunda faixa. Em ritmo de eletrocumbia, Gaby canta a mulher que sai à noite, bebe e sobe na mesa. Talvez a Beyoncé de “Who Run the World” até caiba aqui, mas só sendo da terrinha para omitir, em nome da métrica, uma sílaba na palavra. Que beleza quando o sudestino “bêbada” sucumbe ao norte-nordestino “bêba”.

Continuando a crônica musical de sua região, Gaby (com ipsilone) aportuguesa o inglês e atualiza o brega em “Ex Mai Love” — tema de novela, Marley, veja só.  A farra segue em “Merengue Latino”, com um carimbó tão guitarrado quanto o de Pinduca, mestre do gênero, e um ritmo tão dançante quanto a lambada de Beto Barbosa nos anos 90.

Mais orgânica que outras faixas, “Pimenta com Sal” tem uma voz conhecida e instrumentos desconhecidos a Gaby, ao menos até então. Quem dueta com a cantora é Fernanda Takai, junto de ataques de metais como o trompete. Ficam claras as interferências dos produtores Félix Lobatto (ex-La Pupuña) e Carlos Miranda (ele mesmo, o também jurado do SBT). Além de uma maior orquestração da música de Gaby, e de uma redução do seu rouco tipo Joelma, os dois também tiraram a crueza do tecnomelody. Essencialmente eletrônico, no disco ele vem acompanhado de cordas e com efeitos em menos quantidade e mais qualidade.

Há nesse sentido uma refinação estética que foge à ideia de música verdadeiramente popular, mais preocupada com o resultado que com o percurso (e recursos). Tim Maia talvez dissesse, como disse sobre a Motown, que embranqueceram o som de Gaby Amarantos. Certamente não chega a tanta brancura, mas há mudanças — e elas fazem parte do jogo. Era isso ou os terrenos da moça nos grandes centros não passariam das áreas de comércio popular. Algo que não seria ruim caso não existisse essa proposta de exportação. Em “Mestiça”, Gaby canta, em tom mítico, a origem de uma paraense. É também essa cultura, a do Grão-Pará, que a artista quer levar para o Sahara e para a Barra da Tijuca; para o Largo da Batata e para os Jardins; para a classe C e a para a classe A.

Claro que a bateria eletrônica e os sequenciadores ainda estão ali. Waldo Quash, da Gang do Eletro e terceiro elemento da produção, garantiu a essência do estilo que lançou Gaby Amarantos. “Galera da Laje”, que tem a presença de Maderito, o garoto alucinado, pode bem lembrar alguma do Inner City, assim como “Faz o T”. São músicas que transportam as aparelhagens de Belém, movimento consolidado e, diria, uma das cenas mais originais e, até agora, marginalizadas da música eletrônica no Brasil.

O tecnomelody é a disseminação das ferramentas mais simples de produção musical. Caras e exclusivas durante um bom tempo, desde os anos 90 elas são programas pirateados e computadores baratos. Uns chamam de democratização, outros chamam de orkutização.  Os de cá vão dar de ombros, os de lá podem se interessar. No meio disso tudo, muita gente que acha que a Beyoncé tem uma versão cover no Brasil, que a Jamaica é só Bob Marley e que o Pará não tem nada para mostrar. Com seu disco, “Treme”, Gaby pode provar o contrário em todos os casos.

PS: A Gang do Eletro vai se apresentar no Sónar SP, que já tem uma lista pesada. Ainda é tempo de comprar ingresso.

PS 2: O título do post foi inspirado na afirmação do Bruno Natal sobre o Skrillex.

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