Mais introversão, pede o The xx

A porta do banheiro abriu devagar e saiu uma moça, vestida de preto. Do contrastante rosto branco veio um ensaio de sorriso para a pessoa que entraria, a seguir, na cabine. Feito isso, reclinou a cabeça e tomou rumo. Olhando para baixo. Passou ao lado da fila.

Foi assim o rápido encontro que tive com Romy Croft, a garota que gosta de se sentir tímida. A ocasião era algum intervalo do último San Miguel Primavera, um dos maiores festivais europeus cujo lineup era liderado, entre outras bandas, pelo The xx. O recado transmitido na apresentação do trio acabara de ser reforçado pela jovem de 22 anos. Introversão, manifestada de várias maneiras, é a essência da banda. E eles não pedem nada mais que isso no novo disco, “Coexist” (que sai oficialmente no dia 10 desse mês).

Paradoxal que haja tal relação em um álbum entitulado com uma palavra que pede qualquer coisa, menos individualidade. O problema tem uma solução que vem desde a estreia do xx, em 2009. Quando Jamie Smith, Oliver Sim e Romy Croft surgiram entre posts, blogs e likes, o mundo era barulhento, ruidoso e falastrão. Era a ditadura do extrovertido, na qual quem se comunica mais é melhor, quem é expansivo é bem-sucedido, quem está de peito estufado e cara linda é o líder (do BBB ou da startup).

E aí veio o primeiro disco, homônimo, dos britânicos. Menos ainda era mais. O silêncio voltava à tona. Os espaços entre as notas eram mais importantes, por vezes, que elas próprias. As letras eram profundas sem pieguice. Os anos 80, uma grande referência ao trio e berço da “Bass Culture”, eram bem-vindos novamente.

Era um respiro. Um triste suspiro.

Ufa.

As paredes de som continuaram a se fechar, contudo. O império do pode-mais-quem-fala-mais ainda vigora e na música não é diferente. O pop hegemônico atual tem na sua linha seriada produções calcadas em camadas e camadas de efeitos, filtros repetidos para elevar decibéis e vocais potentes. A distorção tamanha tem nome e se chama “Treble Culture“, em clara oposição à tal “Bass Culture”, que teve como último expoente o dubstep londrino — para se ter ideia, nem esse escapou das zona sonora: Skrillex é o nome do culpado.

Em meio a essa quase visão de pós-guerra, o The xx volta quase como veio. A nova roupagem da imprescindível introversão dá tom ao álbum que não invoca, necessariamente, solitude. A calma e o peso de “Coexist” podem ser compartilhados, como nas conversas de Sim e Croft na canção “Chained”. A segunda faixa do disco abusa de um perfil melódico com notas estendidas entre slides e phasers, tessituras longas e vogais prolongadas. Quando cantar parece-se com falar, a aproximação entre músicos e ouvintes está a uma curta distância.

A coexistência do The xx também reside na dança, posto que a cena eletrônica britãncia é outra influência do álbum. A tônica do trio ainda paira sobre escalas, texturas e atmosferas minimalistas, e Jamie xx, tão inabalável quanto a voz de Croft e os figurinos pretos, traz para o disco o que ouvia nos clubes. Em “Tides”, a balada de poucos BPMs, o suave violino mantem a tensão harmônica do disco numa faixa que arrefece os calores da pista. Em “Swept Away” o gosto de nostalgia é grande, trunfo da clássica bateria eletrônica do Roland TR-808.

O aparato do londrino se estende por um notebook, softwares, um sem fim de sintetizadores, uma MPC e outros tantos pré-amplificadores. Mas o coração com marcapasso da banda, sob sua faceta de produtor, é preciosista ao escolher os efeitos certos e o lugar onde parar. Em “Fiction” ele propõe um novo encontro entre timbres eletrônicos e acústicos e em “Reunion” há espaço até para um tambor de aço, cujas marcações não estão dentro da expectativa do costumeiro compasso 4/4.

A faixa, quinta do disco, é parte da história que atinge o clímax na sétima música, “Missing”. Sua tensão elevada de órgãos emulados e guitarra drone se encaixa com Sim, que se antes não gritava, agora o faz com alguma propriedade — sua voz mudou desde o primeiro álbum, quando tinha 17 anos. A canção resume essa dualidade do trio, entre figuras melódicas soturnas e noturnas: umas sombrias, outras dançantes.

O que sai dessa mistura heterogênea — como água e óleo — é o alvo primeiro de quem tem ânsia por novidade. Ora, se até a Madonna caiu na barulheira Party Rock, por que a resposta do The xx deveria ser extremamente diferente do que fora apresentado no primeiro disco? Seria difícil esperar outra proposta do grupo. As mudanças sutis e por vezes pouco reveladoras têm seu valor em um tempo ruidoso. O silêncio, oposto ao barulho, diz tanto quanto a introversão oposta à expansão.

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