Métodos globais podem fazer de Anitta a primeira estrela brasileira

Matéria originalmente publicada na Folha de S. Paulo em dezembro de 2017.


Com quantas notas se faz um ícone pop? Poucas teclas de um piano podem fazer um hit, mas, para ultrapassar limites de grupos sociais, gerações, plataformas e países, um artista precisa de mais do que uma melodia pegajosa.

A união desses elementos, procedimento comum na indústria americana, parece incrível em solo brasileiro. Por isso Anitta chama a atenção.

No Brasil, a apropriação de aspectos musicais é incessante. As faixas se espalham em horas na rede, e versões, playlists e vídeos com coreografias pipocam na tela, reiniciando o ciclo. Produção, difusão e consumo se confundem.

A cantora elevou a lógica, própria de países do Sul, a um patamar dito do Norte. Ela se aliou a artistas, marcas, plataformas e idiomas e, aos moldes gringos, estruturou abordagem transmidiática.

O termo, cunhado pelo pesquisador Henry Jenkins, descreve produtos culturais pulverizados para engajar em níveis distintos de diversão, imersão e identificação.

O projeto Xeque Mate/CheckMate empacota a ofensiva. Em quatro meses, Anitta lançou “Will I See You”, com o produtor americano Poo Bear, “Is That for Me”, com o DJ sueco Alesso, e “Downtown”, com o cantor colombiano J Balvin.

O golpe fatal veio em dezembro: “Vai Malandra”, cujo clipe teve, em menos de um dia, mais de 25 milhões de visualizações no YouTube.

Anitta reitera os combinados. Do duo Tropkillaz, toma emprestada a colagem de categorias, como o trap e o EDM. Do cantor Maejor, pega a linguagem do rap americano. Do funkeiro MC Zaac e do DJ Yuri Martins, puxa o ritmo e o pontinho: o trecho que emula corneta na abertura retoma a melodia da letra em escala de fácil assimilação.

O funk, que outrora tinha sido trampolim da então MC Anitta, está também nas imagens. São o paredão de caixas de som e o fluxo no meio da rua, moleques de cabelo platinado na piscina, mulheres tomando sol na laje.

Acusado de assédio sexual, o diretor do clipe, Terry Richardson, suscita polêmicas entre quem vê apenas um veículo ideológico no trabalho da cantora. Anitta, contudo, não é ofuscada pelo debate.

A abrangência do projeto parece maior. Com o colombiano Maluma na faixa “Sim ou Não”, de julho de 2016, e no single “Paradinha”, em 2017, ela já cantava em espanhol.

“Sua Cara”, de agosto, confirma a entrada no “Novo Mundo”. Feita com o produtor americano Diplo e com a cantora Pabllo Vittar, a música junta a subcultura healthgoth às areias do Saara.

A elas somam-se lançamentos que fazem convergir gêneros como o próprio funk e facetas do reggaeton e do hip-hop. Nesse panamericanismo para dançar, as músicas de Anitta chegam a quase meio bilhão de execuções no Spotify. O streaming e marcas como C&A e Adidas, aliás, são parceiros publicitários.

Anitta é fenômeno pop de métodos não tão distintos dos de Rihanna ou Justin Bieber: navega em discursos e plataformas ao sabor das tendências para divertir e cativar.

A carioca tem às mãos formas inovadoras. Resta saber se esse jeitinho pode criar a primeira popstar brasileira.