Música latino-americana vira nova onda global e domina festivais europeus

A hora marcada havia passado em vinte minutos quando o porto-riquenho Bad Bunny enfim subiu ao maior palco do Sónar 2019, festival realizado no fim de julho em Barcelona. Era algo incomum. Não o atraso que, embora comprometesse a agenda de shows, parecia até previsto pela organização e tolerado pelo público disperso em um espaço equivalente a três campos de futebol.

A novidade era ver o novo astro do pop latino-americano como estrela de um evento europeu que, desde sua primeira edição, em 1994, gaba-se de apresentar uma tal “música avançada” — lema do Sónar desde sua fundação.

Bad Bunny não estava sozinho. O Sónar 2019 teve 150 apresentações e 10% dessas foram de artistas da América Latina. Era o caso do set xamânico do duo peruano Dengue Dengue Dengue, da burlesco obscuro do artista venezuelano Arca ou do downtempo matemático do equatoriano Nicola Cruz.

Em outros festivais de peso da Europa, a presença de países das Américas também não se resume ao público. Pela primeira vez, seis brasileiros se apresentaram apresentaram no Tomorrowland, na Bélgica — Alok, Anitta e MC Fiotti estão na lista.

A DJ e produtora Badsista tocou em um dos palcos do gigantesco Glastonbury, na Inglaterra, repetindo o feito de Marky, Patife e Dolores em 2005. O Dekmantel, festival holandês marcado para começo de agosto, tem seis apresentações latino-americanas programadas. Ano passado, foram apenas a DJ Cashu e o duo Selvagem, ambos do Brasil.

O elenco do Dekmantel é também um provável reflexo das declarações de Valesuchi, DJ chilena radicada no Rio. Em janeiro último, a artista publicou um texto em que apontava a ausência de artistas latino-americanos no line-up do festival. Mas o fator relevante para o avanço da onda latina nos festivais da Europa reside nos números.

Segundo o mais recente relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), o faturamento do mercado latino-americano de música cresceu 16% no último ano. Esta é a maior alta em todas as regiões do planeta e o Brasil apresenta a maior elevação entre os dez países mais importantes na indústria.

De acordo com a consultoria Chartmetrics, centros urbanos como São Paulo, Santiago e Cidade do México são enormes silos de acessos a vídeos e músicas no Spotify e no YouTube, a frente de capitais como Nova York ou Londres.

Os mesmos smartphones e computadores conectados à Internet que favorecem esse consumo podem ser também centros de produção — agora, com uma vitrine global organizada em playlists e plataformas especializadas por gêneros, como o site Boiler Room.

Para uma região de tradicional fertilidade musical, isso resulta em uma onda que marca presença no catálogo de agentes, produtoras e selos. É algo que não pode ser ignorado por programadores de festivais europeus.

Artistas desse mesmo balaio latino-americano podem se nutrir de referências locais ou recusá-las. Sob a égide da música eletrônica, um termo esvaziado em um mundo essencialmente digital, vale tudo na onda latina.

A artista Catnapp dialoga mais com a imagem dos clubes secretos de Berlim, onde vive, do que com estereótipos da música argentina, país onde nasceu. Os DJs do selo mexicano N.A.A.F.I., por outro lado, empacotam células e trechos de ritmos de rua como bachata, dembow e funk em faixas ditas de balada. Ambos se apresentaram no Sónar 2019.

A estampa latina é evidente entre os grandes. Bad Bunny, circulando entre o pop e o underground, personifica essa marca na tomada da Europa. No YouTube, ele soma quase dois bilhões de visualizações em apenas duas parcerias com os rappers Drake e Cardi B. No Instagram e sobre o palco, ele interrompe o perreo (música e estilo de dança que lembra a “sarrada” do funk) para fazer discursos políticos que seriam mais dados a artistas independentes.

Em sua lírica ora romântica, ora áspera, o artista une trap, a face mais eletrônica do rap, e reggaeton, uma das mais prolíficas reapropriações do hip-hop. É uma “nova religião da gangue latina”, como ele diz em uma de suas letras.

“Quando decidimos chamar o Bad Bunny, eu vi todos os seus vídeos e me converti completamente”, explica Georgia Taglietti, membro do conselho diretor do Sónar. “A expressão cultural do seu código musical é muito maior do que poderia ser, e ele tem de jogar em diferentes culturas”.

Outra prova de que a Europa mira mais uma vez as Américas e o Caribe é ouvir produtores locais revisitando gêneros do sul sem pinta de exotismo — embora debates sobre dominação cultural possam surgir.

Durante o Sónar, o baile funk do DJ português Branko não parecia algo tão distante àqueles ouvidos já acostumados com “Bum Bum Tam Tam”. No mesmo festival, a barceloneta Bad Gyal levou ao palco seu dancehall com auto-tune — proposta diametralmente oposta aos melismas da mais nova estrela catalã, a cantora Rosalía.

Na contramão do trajeto sul-norte, festivais europeus não se mostram inclinados a dar continuidade a projetos antigos na América Latina. A exceção é o alemão Time Warp, com edição marcada para novembro em São Paulo.

O Tomorrowland teve uma edição brasileira em 2016 e nunca mais voltou ao país. O Dekmantel Brasil teve duas versões no Brasil nos primeiros trimestres de 2017 e 2018 e por enquanto não anunciou uma versão para 2019. Taglietti afirma que o Sónar não deve voltar ao Brasil, apesar de duas edições realizadas em São Paulo em 2012 e 2015.

Música latino-americana vira nova onda global e domina festivais europeus”Acredito que a música urbana latina ganhou o direito de ter essa prevalência no mundo de agora, independentemente das tendências”, explica ela. “Desejo que isso não seja uma moda”.


Matéria originalmente publicada na Folha de S. Paulo em agosto de 2019.