[UOL Tab] Nada de festa no verão europeu de 2020

Matéria originalmente publicada no UOL Tab em junho de 2020.

Antonio Vayá, 31, é um ávido frequentador de festivais de música. O engenheiro espanhol é daqueles que coleciona as pulseirinhas dos vários eventos a que compareceu nos últimos anos. “Vou a um, três festivais por ano: aqui em Paris já fui ao We Love Green, Solidays, Rock en Seine, na Espanha já fui ao FIB e ao BBK, e em Portugal já fui ao Nos Festival”, diz ele. “Mas pra mim, no momento, zero festivais!” 

O mundo dos grandes espetáculos a céu aberto, dos descampados enormes e de vários shows em série é mais um daqueles setores duramente impactados pela pandemia de covid-19. 

No Brasil, essa imagem pode estar atrelada a uma dúzia de eventos concentrados em capitais — ainda que a pandemia tenha afetado festas juninas e diversos eventos regionais. Na Europa, festivais de música são parte da vida econômica de várias cidades. Marcas como o britânico Leeds e o belga Tomorrowland são parte do cenário cultural há anos, assim como centenas de outros eventos de médio ou pequeno porte. 

A maior parte desses festivais ocorre no período que vai do início da primavera ao fim do verão, momento em que a pandemia de covid-19 se mostrou uma realidade no continente. O resultado é uma terra arrasada para os festivais, a maioria cancelados para  ano de 2020. Só na França, maior país da Europa ocidental, os prejuízos para o setor devido a crise são estimados em até 1,9 bilhões de euros.

O número foi publicado em uma das primeiras pesquisas a respeito dos efeitos da pandemia sobre eventos de música ao vivo de grande porte. Assinado pelo cientista político Emmanuel Négrier (Universidade de Montpellier) e pelo sociólogo Aurélien Djakouane (Universidade Pars Nanterre), o estudo mostra que a pandemia levou ao cancelamento de 2.640 festivais de música no território francês — dois terços do total nacional de 4 mil dos meses de primavera e verão. 

As cifras variam proporcionalmente em outros países europeus, cujos protocolos de contenção da pandemia proíbem festivais ao menos até o fim de agosto. Se já é possível prever pequenas apresentações e a reabertura de algumas casas e baladas para julho, shows a céu aberto para um grande público estão longe de ocorrer. E, com o fim do verão, o clima deixa de ser favorável para qualquer evento do tipo.

“Os festivais são os primeiros a fechar e serão os últimos a abrir por causa da pandemia”, lamenta Carol Meyer, fundadora do festival francês Art Rock. A produtora também é presidente do Déconcert, associação internacional que reúne vinte e oito diretorias de festivais europeus e asiáticos. Segundo Meyer, vinte desses festivais foram cancelados e oito foram adiados para o inverno — sua realização ainda é incerta.

“Um festival é uma pequena cidade, porque a gente conta com o trabalho de muita gente”, ela explica. “Quando um festival é cancelado, os artistas não fazem turnê dos discos, empresas perdem receita, trabalhadores deixam de ser remunerados. O impacto é muito, muito largo.”

De acordo com os pesquisadores franceses, até 111 mil trabalhadores podem ser afetados pela crise só no setor dos festivais somente na França. Esse número vai de produtores culturais a estafe de jornadas diárias, como atendentes e seguranças. 

Há também, é claro, os artistas. Segundo a pesquisa, ao menos cem mil contratos foram cancelados devido a crise. E, nesse caso, os efeitos não são apenas financeiros. O verão europeu é a grande janela para músicos botarem à prova seu trabalho para um público diverso. A oferta é grande e há opções para todos. “Como cada cidade tem seu festival, isso contribui para a diversidade artística local”, diz Meyer.

Nesse ecossistema há muito mais do que os nomes já conhecidos do público, como o gigantesco britânico Glastonbury e o queridinho dos brasileiros Primavera — contatadas pelo Tab, as diretorias de ambos os eventos preferiram não conceder entrevista. 

Na França, apenas 3% dos festivais administram orçamentos na casa do 1,5 milhões de euros. A maioria pertence a uma “classe média” que tem de se virar com as contas nesse momento de crise. E, como empresas, quem não consegue atravessar a tormenta no azul pode se ver obrigado a fechar as portas ou se render aos peixes grandes.

Um desses grandes nomes é a norte-americana Live Nation Entertainment (fusão da Live Nation e da Ticketmaster). Dona de uma agressiva estratégia de aquisições, a companhia comprou os ativos de dezenas de festivais e casas de shows nos últimos anos no mundo todo. Eventos de médio e grande porte de vários países europeus, como o britânico Bestival ou o Rock in Rio Lisboa, fazem parte da cartela do conglomerado. Uma homogeneização que pode afetar, em última instância, o plantel de artistas de cada festival.

“Para ser salvo da crise, o festival tem de recorrer ao poder público, às suas próprias economias ou a essas aquisições, e os projetos de compra desse tipo podem se tornar mais fáceis agora”, diz Meyer. “Mas também é preciso ser realista, porque mesmo empresas como a Live Nation Entertainment estão enfrentando dificuldades.”

Cultura como saúde

Face à pandemia, as respostas para o setor cultural na Europa seguem o modelo individualizado das ações de saúde. Há poucas medidas conjuntas do bloco europeu para socorrer os festivais, que também são um grande chamariz para turistas que viajam para o continente durante a primavera e o verão.

Em nota enviada ao Tab, o Conselho de Educação, Juventude, Cultura e Esporte da União Europeia informou que, no fim de maio, ministros das pastas de cultura de cada país do bloco se reuniram para discutir soluções para a crise no setor. Além de definirem apoio específico para a cultura no Plano de Recuperação da UE — um mega-aporte previsto em 750 bilhões de euros —, 2,5 milhões de euros devem ser alocados para projetos musicais por meio do projeto Music Moves Europe.

Essas cifras ainda são teoria. Na prática, o que vem sendo feito varia segundo disparidades locais. A Alemanha, por exemplo, anunciou uma injeção de 50 bilhões de euros para a cultura para os próximos meses. Na mesma linha, mas bem abaixo disso, a Inglaterra prometeu 55 milhões de libras (72 milhões de euros) e a França chegou aos 23 milhões de euros.

Embora a Europa já dê claros sinais de controle da pandemia, com números cada vez menores de casos diários, o problema dos festivais não acaba em 2020. Poucos são os eventos com um caixa robusto a ponto de segurar um ano sem retorno financeiro. As opções digitais — as famosas lives — ainda não se mostraram como forma de sustento para artistas e festivais. E, no caso de patrocínios, cultura não é prioridade para muitas empresas no pós-pandemia. “Eu estou muito mais preocupada com o ano que vem”, diz Meyer. “A retomada será longa, vai levar uns dois, três anos.”

Para a produtora, a esperança do setor repousa sobre o público. Ela conta que, como o festival que coordena não pode ser realizado, alguns fãs entraram em contato com a produção em busca das pulseirinhas que seriam usadas no evento. “Era uma forma de reproduzir aquela sensação em casa”, diz Meyer.

O engenheiro Antonio também acredita que, de um jeito ou de outro, o público deve voltar aos festivais. “É possível que esses eventos inovem, que sejam feitos com mais espaço, formatos reduzidos, artistas locais — já que não se pode viajar tanto”, ele diz. “Creio que há um risco de que o clima desses eventos perca um pouco, mas também creio que as pessoas que vão ao festivais vão se adaptar. Mas não acredito que a pandemia vá mudar meu costume de ir a festivais.”

Não creio que a pandemia vão mudar meus hábitos. Creio que é algo passageiro. É possível que as pessoas inovem, que façam festivais com mais espaço, formatos reduzidos, artistas locais — já que não se pode viajar tanto. Mas não vai mudar meus hábitos, considerando as medidas de segurança. Sim, com as mudanças na normalidade, creio que há um risco de que o clima de festivais se perca um pouco. Mas creio que as pessoas que vão a esses lugares para ouvir música vão se adaptar.