Notas sobre o Lollapalooza 2013

– Alôllapalooza. Todo mundo vivo e limpo pós-segunda edição do desfile campal de bandas por São Paulo?

– Quarta-feira de cinzas. A lama do Joquei Clube virou poeira, a poeira subiu e agora já baixou. Muito se falou sobre o festival entre sexta, quando começou, e segunda, quando iam para casa em procissão o séquito de Eddie Vedder. Nesse tempo, coberturas saindo pelo ladrão: matérias de serviço, resenhas cabeçudas e cabecinhas, vídeos (do Multishow pro Youtube logo ali) e fotos de bandas, de pessoas, de musas (a editoria de esportes ajudou o pessoal da cultura?).

– O velho moleque Marcelo Rubens Paiva desenhou bem o grosso do lineup internacional do Lollapalooza 2013:

O que tem de melhor no novo e velho rock veio, Two Doors, Queen of the Stone Age, Kaiser Chiefs, The Hives, Hot Chip, fechando com Pearl Jam! Enquanto isso, no Rock in Rio…

– Enquanto isso no Rock in Rio (a relação custo/benefício é pouco interessante)… E São Paulo, ainda como ele bem disse, cada vez mais parece com a cidade do Blade Runner. Ou seria a cidade mais decadente ainda do Neuromancer?

– O Lollapalooza caberia nas duas. É um festival barulhento nascido na Chicago do Smashing Pumpkins e da House Music. E houve quem fizesse jus a isso sobre os palcos dos últimos dias.

– O Two Doors Cinema Club fez show pra pular. Não tem tutano pra erguer braços com dedos indicadores e mínimos em riste. Nunca teve. Por isso o público criado com os acordes tropicais e caixas entrecortadas de “Something Good Can Work” lidou tão bem com a banda. O quarteto irlandês tocou na medida das gravações. Suficiente para empolgar mesmo quando apresentavam músicas do novo álbum, com andamentos menos Arctic Monkeys e mais britpop eletrificado.

– Quem poderia sair nessa tangente — por desempenho, não por composição — seriam Kaiser Chiefs e The Hives. Conhecidos de outras apresentações, os caras resolveram não economizaram dessa vez. Os britânicos sabem a arma que tem com seus versos fáceis de cantar. Talvez por isso o vocalista Ricky Wilson tenha corrido tanto pelo palco enquanto inflamava o público.

– Os suecos também sabem o poder da língua. Pelle Almqvist se esforçou um bocado pra sair do “Obrigado” em português quando no palco. Ao largo disso, a apresentação pegada dos caras foi uma surpresa a quem julgava a banda menor que outros headlines. Além da atuação performática, merece louros também o baterista Chris Dangerous, versátil nos ataques e escolhas no instrumento.

– A média, felizmente, já fora quebrada horas antes com o Foals. A banda vem num crescendo de três álbuns culminando em faixas sofisticadas com apelo. Prelude, abre-alas do último disco, conta essa história e também abriu a apresentação no Lolla. Os caras largaram a pecha Math Rock e caíram de vez no experimentalismo. De vez não, porque ele é comedido em guitarras angulares e disco punk que tem colado nos últimos anos.

– Além disso tudo, foi o show com uma taxa impressionante de três ruivas por metro quadrado (carece de fontes).

Merece muito crédito uma banda que, alem de boa, reúne cerca de 3 ruivas por metro quadrado. #foals #lollabr

– O que os britânicos do Foals botaram à prova não passou pela cabeça do Black Keys. O risco ali, quando muito, ajudou o grupo a sair do regular. A burocracia de guitarra em riffs delta blues e bateria abafada era rompida por ápices criativos do duo auxiliado por baixo e teclado, presentes com relevância em “Lonely Boy” e “Gold on the Celling”.  Não à toa o destaque pra essas faixas: levam o selo de hit com propriedade e vão muito bem ao vivo. Outrossim, deu a cara tapa a peleja quase trovada “Little Black Submarines”. As viradas rítmicas e o solo naipe classic rock foram um respiro num show que, senão metade normal, foi metade do que poderia ser.

– Essas coisas engraçadas desse tal negócio a que chamamos arte: as quatro bandas ali de cima poderiam estar num balaio só de gênero-genérico, mas quem quase levou o papel colado nas costas foi a que, diz-se, fugia desse cesto.

– E aí um bom motivo para ter se invertido a ordem do dia (falamos do sábado): QOTSA merecia fechar a noite.

– Se Josh Homme e amigos surpreenderam? Não. A resposta pode ocasionar um apedrejamento virtual, mas é prudente ler com calma. O Queens Of The Stone Age não surpreendeu porque já se esperava, ao menos, uma apresentação de peso. Isso é um tremendo Às de Espadas na manga de Homme, mentor artístico do grupo que tem imensa rotatividade.

– No palco do Lolla a banda desenhava com linhas grossas faixas clássicas como “Go With The Flow” e “No One Knows”. A cozinha se enfraqueceu em marretadas e se reforçou em velocidade com Jon Theodore (ex-Mars Volta). Um pelo outro, ela sustentou riffs que ano após ano confirmam sua psicodelia em novos bends e distorções sutis. Um show de menos vigor se comparado a outras passagens da banda por aqui, com a desculpa de que Josh Holmes fez (1) a barba, (2) mais aniversários e (3) a parceria com Florence Welch.

– Agora pausa na fita rebobinada e avança pra domingo a noite. Quem quisesse mais pancada precisaria passar pelo Foals-Hives-Chiefs vespertinos em direção ao noturno Planet-ML-Hot Chip. (Quanto ao Pearl Jam, os grandes falam por eles.)

– Prefácio: colocar esses três nomes tocando ao mesmo tempo foi o erro com artigo definido do festival. A sinteticidade do Hot Chip conversa fácil com o Major Lazer. E esse sabe falar bem com a periferia grave de onde brotou o Planet Hemp — quem sabe os palcos, lado a lado, trocaram ares. Corra, Lolla, corra entre os shows.

– No principal, os filhos do Funk Fuckers e do Zerovinteum. O trabuco sonoro do Planet Hemp ainda causa estrago. Moshpits, circle pits, rodas de pogo, bate-cabeças: todos sintomas de uma mesma doença não necessariamente atrelada ao consumo da maconha e certamente causada por uma apresentação de respeito. A tal Raprocknrollpsicodeliahardcoreragga.

– D2, Bnegão, Formigão, Pedrinho e Rafael representam, anos após o fim oficial do grupo, a o coquetel molotov mais explícito e político que a música brasileira pôde produzir entre os anos 1990 e 2000. Não se trata apenas do discurso, um tanto caduco atualmente (o FHC que foi conivente com a prisão da banda virou o FHC pró-legalização da erva), nem do alcance, posto que a ferocidade do undergroud permanecia latente nos principais eixos urbanos. Fala-se também de forma.

– O Planet Hemp bolou hardcore com rapcore, hip hop e sonoridades jamaicanas. Black Flag, Bad Brains, Rage Against the Machine, Run DMC e toasters da ilha caribenha numa lapada só quebrando com a modorra do róque brasilóide asséptico dos anos oitenta. E no palco do Lolla tudo isso estava queimando.  Deu até pra traçar um paralelo entra a gravidade das vozes de Bernardo e de MCA, dos Beastie Boys. Ou, mais ainda, entre as linhas de guitarra e baixo que viraram samples nas bandas.

– Homenagem implícita, o show dos caras foi repleto de evidências pouco esfumaçadas. Chico Science na versão de Samba Makossa. Led Zepellin já conhecido em Adoled e revisitado em Phunky Buddha. O cover adotado da carioca Serial Killer em Seus Amigos. Some aí também a excelente videografia que ia de Gil Brother a Cheech Chong passando por ultra slow-motions. Entre ou cobrindo isso, as faixas clássicas que seguem batendo na mão de caras com trinta (quarenta?) e tantos anos. Os novo vinte e poucos.

– A competição ficou difícil para o Hot Chip. Estavam lá todos os integrantes um tanto desajustados por natureza,  ao contrário da sua minuciosa parafernália. O embate entre homem e máquina já deu Kraftwerk, Pet Shop Boys e um sem fim binário de outros nomes. No caso do Hot Chip no Lolla soou apenas como uma troca de afagos ou inserção de dados. A apresentação correta ousou em arranjos e instrumentação, mas foi pouco para as possibilidades oferecidas. Não que se esperasse excessos, mas mais do mesmo foi excesso igualmente. De máquina e certeza. “Over And Over” fez muito sentido.

Guns don't kill people. Lazers do. Free the universe and tweark it! #diplo #majorlazer #bass #lollabr

– A questão é por onde se olha, se ouve, se cheira ou se pisa (lama ou grama, no casso do Lolla). Para o Major Lazer, o excesso é quintessência. Ali, ao lado do raggamuffin do Planet Hemp em Deisdazseis, Diplo colocava as periferias do mundo em um único pacote de bitrate duvidoso — quanto dali não é MP3 baixado do 4Shared, senhor Wesley?

– À lixeira esses fatos, a bem da verdade. O trio Major Lazer provou ser o maior caldeirão de manifestações musicais eletrônicas marginalizadas pelo sistema, mas só existentes por conta dele. Explicação-tuíte: não fossem periferia, não deturpariam as tecnologias a fim de um uso antes impensável a elas. O reflexo é o afrobeats, o moombathon, o trap, o tecnobrega e o funk carioca — com quem o Diplo já se relacionava quando muita gente ainda achava feio, na época do primeiro documentário sério sobre o pancadão.

– Na mão dos caras, música nova reverbera fácil. A tenda Perry teve “Passinho do Volante” e “Aquecimento das Maravilhas”. Daí em diante “Harlem Shake” não seria surpresa, tampouco as excelentes faixas do próximo álbum. Mas, como não cansa de trabalhar e surpreender, Diplo (ou Major Lazer ou Wesley ou produtor-de-uma-cacetada-de-gente ou ex-da-MIA) atacou na quebrada do colonizador ao fim do set. Tome 150 BPM no misto de drum’n’bass com jungle beat britânico.

– Depois dessa paulada, cabe menção honrosa ao Madeon. O moleque francês passou pelo mesmo palco no dia anterior e mostrou que música eletrônica vem de casa. Quantos botões ele aperta por minuto é difícil dizer — parece uma combinação de golpe para videogame. Fácil é dizer que o esquema funciona. E com personalidade, ainda que incipiente. Madeon acerta nas quedas e clímaxes em padrões que misturam, com sutileza gourmet, o French Touch a punhados dessa inflada cultura EDM.

– Em tempo: o Madeon apareceu nesse blog faz algum tempo, quando tinha estourado na rede. Em breve voltará como tema de um outro texto.

– Por ora o assunto ainda é Lollapalooza. Caberia, então, falar dos problemas (compreensíveis e incompreensíveis) de organização, do fuzuê causado pelas credencias de imprensa, dos valores dos ingresso. Isso também fica para outro texto.

– Que haja outras edições do Lollapalooza São Paulo, mas que o Brasil também tenha mais opções de festivais que dedos na mão.

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