O abecê musical de 2013 – Parte 2

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Festivais “O Brasil entrou definitivamente no circuito dos shows internacionais.” Mentira, ao menos por agora. A frase cai muito bem pros anos 80, quando o Rock in Rio estreou grandes palcos no país. Hoje em dia shows internacionais tornam-se, aos poucos, uma feliz rotina — ainda que haja muito o que melhorar, de valores de ingressos a infraestrutura das praças. Fato é que festival de música por aqui já não é tão raro. O próprio Rock in Rio volta a acontecer com Metallica e Iron Maiden no lineup. O Lollapalooza também reaparece, jutando Deadmou5, Planet Hemp e Two Door Cinema Club. O MECA Festival é mais um da lista com uma galera novata respeitosa, como Citizens! e Zulu Winter. Outro que merece (muita) atenção é o Sónar, que já divulgou nomes pesados como Theo Parrish e The Roots. Embora o Planeta Terra tenha chegado ao fim e o SWU ainda não passe de especulação, o cardápio dos grandes satisfaz com a ajuda dos pequenos. Especialmente na região sudeste, eventos de menor porte e apresentações únicas dão um bom panorama para os palcos desse ano — e um péssimo panorama para o bolso.

O quê: Rock in Chair, pra acompanhar a agenda
Também: Metal Open Air (brincadeira)

Grrrl Power Diz o dicionário machista que não se deve, nunca, pedir calma a uma mulher. Como o machismo e ignorância andam de mão dadas, deixemos esse verdadeiro pai-dos-burros de lado e peçamos calma a algumas moças da música em 2013. O motivo é simples: elas vão (continuar a) atacar agressivamente. Em várias cenas. No hip-hop as garotas progressivamente suplantam o estigma do undergroud e deixam de ser raridades populares como Missy Elliot. Em 2011 Santigold mostrou que a mulherada estava viva na excepcional parceria com os Beastie Boys, seguido de um novo álbum em 2012; pra esse ano M.I.A. prometeu um novo disco pra Abril; Azealia Banks já deu as caras por aqui no ano passado e segue espumando, vide o álbum prometido pra fevereiro e a treta que arranjou com a colega e também super-estimada Angel Haze; ainda nas novatas estão Snow Tha Product e Iggy Azalea, que preparam suas estreias nas majors. Na ala eletrificada, o hypado duo AlunaGeorge é o mais aguardado, enquanto as britânicas Charli XCX e Delilah podem entrar no vácuo do som obscuro de Grimes, unanimidade em 2012 na quebra de paradigmas. Com menos batidas  que as rappers e as eletrônicas, o rock também terá suas representantes não menos injuriadas. A estreia das moças do Deap Vally (na foto) tem grandes chances de aparecer entre os melhores do ano; o Dum Dum Girls, com recente EP, e o Warpaint, que diz estar trabalhando num novo disco há um tempo, são outras esperanças para o time feminino. Por aqui o ano passado teve a amazona Gaby Amarantos, mas guerreiras nesse solo não são de hoje e, entre novidades, vêm a carioca etérea Mahmundi e a caloura com nome de veterana Alice Caymmi. Quando o papo é global, ouvidos estão atentos para a volta da Alicia Keys e para os próximos discos de Beyoncé, Lady Gaga, Britney Spears e até Mariah Carey; a Rihanna pode descansar de lançamentos, mas deve manter-se onipresente (algo que Nick Minaj terá de por á prova). Corre à boca pequena que até o Rouge prepara uma volta. É muita mulher, viu.
O quê: Riot Grrrl
Também: Mulher, Mulher, Mulher (em clima de carnaval)

Haleek Maul “Baby I’m a demon, Think you better hide your soul”. A frase poderia ser cuspida pela boca de Regan, a garotinha encapetada do filme O Exorcista. Ao contrário, as palavras são do rapper Haleek Maul. O jovem de Barbados nem parece ter apenas 16 anos pelas letras que abordam temas pouco ortodoxos, como suicídio. A anti-aura é tônica do seu EP de estreia, Oxyconteen, feito em parceria com um leque pesado de produtores norte-americanos. Como ele conseguiu isso? Uns emails trocados, uns contatos adquiridos e um flow de responsa de quem sabia o que queria desde os 11 anos. O moleque trilha sobre um trip-hop remoldado entre o 2-step garage e o grime, gravíssimo e calmo. Batidas ásperas cortam as rimas, suspensas em linhas lúgubres e soturnas. Decadentismo juvenil.
O quê: 88, não por acaso o número do capítulo do livro Salmos da Bíblia.

Também: XXYYXX

IROK Imagine um mundo em que Omar Rodriguez (líder do Mars Volta e do At The Drive-in) nasce na casa de Dona Canô e anda junto com a patota tropicalista exílio acima, festival abaixo. Apesar do nome até compatível do rapaz, esse mundo é mais ou menos possível graças aos caras do IROK — sigla para Intergalactic Republic of Kongo. A escolha do nome e da letra K passam pelo crivo de uma das maiores pirações da música, ao lado da própria Tropicália e, quem sabe, da fase Racional do Tim Maia. O Afrofuturismo é o que pauta o som da banda londrina, um movimento embrionado na ala mais radical e psicodélica da música negra norte-americana dos anos 70.  Percussão é matéria prima no som do IROK, que não hesita em mesclar compassos de terreiro a compassos de salão. Os acordes e afinações lisérgicos do teclado elevam a esquisitisse de bandas como Tune Yards e Yeasayer a um patamar superior. Fritura extra-terrena — que faz dessa uma das apostas mais arriscadas da lista.
O quê: All My Children

Também: Bat Macumba, clássico que o próprio IROK compartilhou na sua página do Facebook

Jamie xx Nomeado remixer do ano pela organização britânica Music Producers Guild, produtor de uma das faixas da volta de Alicia Keys, refazedor incansável dos próprios sons. Esses são alguns dos títulos colecionados somente no mês passado por Jamie Smith, coração com marcapasso do The xx. O segundo disco do trio britânico foi um dos lançamentos mais superestimados na blogosfera em 2012 e quando a espera é demais a opinião pública desconfia. Embora não tenha sido unanimidade em crítica, o álbum revelou facetas de Jamie que seguiam escondidas pelas roupas pretas do grupo. Produtor certeiro nas escolhas e refinado nos ingredientes, o jovem pode até descansar em 2013 — dificilmente o fará –, que ainda assim manterá, timidamente, seu posto como um dos grandes embaixadores da cena eletrônica underground britânica. E digo mais: Sónar, traz os caras pro Brasil!
O quê: a edição de Sunset que o dito-cujo fez

Também: Face and Heel

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