O abecê musical de 2013 – Parte 3

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Kendrick Lamar Policial bonzinho encontra policial corrupto e enfrenta todo tipo de provação moral durante um dia. Taí uma sinopse-tuíte do filme “Dia de Treinamento”. O título em inglês nomeou a estreia de Kendrick Lamar no rap. Então K-Dot, o rapper californiano já tinha a verve filmográfica. Uma década se passou e ele insistiu no estilo na sua estreia pelas majors. O que mudou foi o roteiro. Subtitulado como um curta, o álbum “good kid, m.A.A.d city” não foge à cinematografia. A narrativa de Lamar paira sobre uma lírica pesada. Ele debocha com classe de ideais frívolos e subverte o universo criado pelo próprio hip-hop. Dinheiro não é problema, mas ostentação é armadilha; festas acontecem, mas bebidas e drogas são emboscadas; amigos aos montes, interesseiros em dobro. Tudo isso está presente nas letras de Lamar, que transita sobre os temas no seu disco como uma nova espécie de self made man do gangsta rap: o cara que pode não ser respeitado por que atira, mas que certamente o será por ter sido morto pela bala — como canta em Money Trees. A poética é história de vida e inspirada em nomes como 2Pac e Dr. Dre. Entre outros produtores, o arquiteto da estética rapper da costa oeste esteve junto do cara no álbum. Dre e companhia preenchem o disco com samples e criam camadas por vezes contínuas, por vezes minimalistas. Orquestrações que remetem a Jay-Z e loops que remetem a Public Enemy. Tudo conversa com os versos de Lamar ou de seus personagens vindos em falsetes. “good kid, m.A.A.d city” é um filme que de tão bom fará de seu diretor um dos nomes do ano.

O quê: Swiming Pools (Drank)

Também: Black Hippy

Land Down Under Quem primeiro gritou que era de lá foi o Men At Work. O termo que define a Austrália serve como título à cena do país continental que passa a ganhar o mundo. Não que a produção tenha sido homogênea até então. Nem pode-se dizer que a variedade de sons faz jus ao tamanho da ilha. O que cresce aos olhos são as novidades que os novos aussies trazem na mala. Na crista da onda bandas como Panama, Strange Talk (na foto) e Gold Fields seguem as migalhas deixadas pelo indie eletrificado do Miami Horror. As três vêm de excelentes EPs e singles e, cada qual com suas peculiaridades, devem apresentar álbuns prontos pra pista neste ano. Na frente delas vem o aguardado Atlas Sound, que gerou expectativa após o excepcional single “Trojans“, lançado em outubro. E antes de todas essas tem ainda o Empire of The Sun, que também promete novo disco para 2013. A mistura de percurssões e sintetizadores experimentais com acordes pop dá lugar a projetos eletrônicos com igual potencial, como o duo Pnau, outro com álbum no forno. Quem sabe não aparece aí coisa nova do Cut Copy, do Sneaky Sound System ou de algum, até agora, desconhecido. A Austrália é grande.

O quê:  Treehouse, do Gold Fields

Também: Indietronica

Metá Metá Duas palavras, dois anos, dois melhores discos, três músicos. Quebrar expectativas: essa é a função do Metá Metá na música brasileira. O trabalho de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França não é vanguarda indigesta, nem populismo cultural. Tampouco um sem fim de rótulos que estejam entre esses extremos. O trio e a pancada de bons músicos que o acompanha aproximam escolas sofisticadas a temáticas populares, algo esquecido em um país que criou o samba, o chorinho e o frevo. Daí a expectativa quebrada, como nos contratempos e batuques das suas composições.  Nesse Brasil que se redescobre (ponha quantos re- você quiser), a banda encontra novamente manifestações que formaram nossa cultura como lendas, sincretismos e embates. É o São Jorge vivente na lua e criado na rua. Que fuma, bebe cachaça e labuta. Um santo ligado às tradições do país, como canta a terceira faixa do disco. Não à toa “MetaL MetaL” é repleto de sons africanos. Eles são a amálgama da nossa liga musical e estão no álbum na percussão, nos vocais, nos sopros e até nas cordas. O disco foi lançado no fim de 2012 e, assim como a banda, ainda tem muito o que ecoar nesse ano que chegou.  Oxalá.

O quê: o segundo álbum para baixar gratuitamente.
Também: Afrobeat(s)

90s R&B. Breakbeat. Progressive house. Ambient. Trip hop. Sertanejo. Axé. Blur. Pearl Jam. Planet Hemp. My Bloody Valentine. Garbage. DJ Marky. Dance music. System of a Down. Blink 182. No Doubt. Soundgarden. Backstreet Boys. Spice Girls. Boy Bands. Girl Bands. Meias altas. Calçados plataforma. (Filho do) Will Smith. Bonés coloridos. Canal Viva. Bruno de Lucca. Os anos 90 estão aí e nossa nostalgia cresce na mesma proporção dos novos meios, ferramentas e tecnologias.

O quê: Daft Punk e seu provável retorno
Também: Retromania

Onirismo O Dream Pop é dessas correntes musicais de quem sonha acordado — coisa de artista. Em 2012 o Beach House puxou atenção para o gênero que já passava por renovações há alguns anos. Vindo do shoegaze, o gênero de notas suspensas e vocais extensos ganhou cada vez mais tremolos e intensidades de sintetizadores no disco “Bloom”, do Beach House (na foto). Bandas como M83 e Wild Beasts flutuaram sobre essa dimensão com mais ou menos apelo comercial e sempre soturnas. Se já mostram sinais de fraqueza nas novidades — vale lembrar que estão em turnê — o trabalho recai sobre sonhos mais chapados. A psicodelia vive numa das mais aclamadas bandas do ano passado, cujo último disco caiu na rede há poucos meses. O Tame Impala comanda novas leituras sobre pedaleiras fuzzeadas, bends acalmados e sobreposições frenéticas. Quem viu o show dos caras no Cine Joia sabe disso. Sabe também que 2013 é a esteira perfeita para o grupo e sua estética se consolidarem.

O quê: Breakers, single do próximo disco do Local Natives

Também: Distrito Federal

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