O abecê musical de 2013 – Parte 4

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Pós-Internet Mal da geração cantada por McLuham é ter tanto por onde falar sem tanto o quê falar. Negar a criatividade humana é negar sua inteligência, mas em que lugar ela fica com o zilhão de “Pós-” espalhados por aí? Sempre tomando o anterior como referência, movimentos com o dito prefixo parecem que já nascem, assim, póstumos. Esse da internet, não. Até porque a internet está aí viva e faceira, cheia de gifs, menes, pornografia e metanfetamina à venda. Então o depois dela convive com ela. A simultaneidade — adequada a um tempo meio atemporal — existe em artistas que nasceram na rede ou, quando não isso, nela cresceram. Chuto que nessa lista de novidades para o ano a média de idade esteja abaixo dos 25 anos. Os nativos digitais tomam as rédeas da produção cultural na medida em que detonam paradigmas, aquelas coisas com cheiro de mofo. O maior expoente disso é a Grimes, que se auto-descreve uma artista Pós-Internet.  A canadense espancou o ecossistema musical com o disco Visions (de Fevereiro), emitindo uma coleção de sons hipnagógicos e dissonantes. Em conjunto, os barulhos são composições descoladas de seus redutos originais. As pistas de dança de Detroit ou as casas de show de Montreal não são as únicas cenas possíveis. A cena também vive em espaços virtuais, com territórios, mas sem fronteiras. Ela é a rede do Tumblr no Seapunk, as fotos do Instagram na Lana Del Rey, os barulhos chiptune no Neon Indian, os e-mails trocados no Sexy-Fi, as comunidades do Orkut no Funk Ostentação. Mas a cena também é a bravataria do Twitter na Azealia Banks, a infinidade de músicas no Hype Machine, as bizarrices do Youtube no Die Antwoord. Ainda bem longe de ser visualizada e compreendida totalmente, essa Pós-Internet continuará como palanque de inovações musicais nos próximos anos. Muita coisa ruim aparecerá — cuidado para não nivelar arte por baixo –, mas os clássicos ficarão. E, num exercício de previsão mais difícil, dá até pra imaginar pessoas como a Grimes ilustrando o verbete “Grassroots da Internet” em alguma versão da Wikipedia do futuro. Uma Pós-Wikipédia ou um nome mais criativo.

O quê: Red Fox, a mais recente  música da Grimes

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Silva

Quentin Tarantino Não é preciso questionar Tarantino sobre o que ele pode fazer com música. Comparsas de Rubens Ewald Filho e frenéticos do IMDB podem fazê-lo quanto aos filmes, mas deixem em paz sua relação com música. Dono de um dedo de ouro na montagem de trilhas sonoras, o Samuel Rosa de Hollywood volta esse ano às telas e aos ouvidos com Django. O filme é inspirado no clássico homônimo do western spaghetti que tem muito sangue e Ennio Morricone na linha de frente de composições. O maestro italiano é o Jimi Hendrix com Roger Waters das películas, capaz de orquestrar células simples e temas grandiosos em leit-motifs marcantes. A sua obra mais conhecida é também prova clara disso. Adicione aí o gosto peculiar do diretor norte-americano por metais estridentes e guitarras em overdrive. Como se não bastasse, a trilha ainda tem um James Brown aqui e um John Legend acolá. Tudo isso em um faroeste. Tá bom, então.

O quê: o encontro póstumo de James Brown e 2Pac

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o tema Django

Retrovanguardas Paradoxal e quase impossível, o termo se explica mais por como é feito do que por quem é feito. O objetivo aqui não é o acerto ou o correto: a estética do erro é o mais patente nesse olhar para frente pelo retrovisor. E não há quem diga que errar é fácil. Pelo contrário, no mundo binário de smartphones e programas de edição de áudio tudo é feito para acertar. Logo, o que foge a isso, foge ao digital — passa a ser outra coisa. Quem sabe algo orgânico. O lo-fi é a saída mais simples para isso, sendo um dos elementos mais presentes na música dos últimos anos, do neofolk ao eletrônico. Inovações estão, por exemplo, na chiadera do Velvet Underground retomada milimetricamente no disco de estreia do Metz.  Ou então nos glyphs sônicos de Nuno Canavarro relidos pelo Actress com o álbum R.I.P . Quem sabe até nos ruídos ritmados do Psilosamples com reminiscências de Afrika Bambaata. Olhar pra trás é olhar pra frente, agora sem (tantos) olhares reprovadores ao redor. Mudou a época da leitura e a vanguarda de ontem é a novidade de amanhã, para público e crítica.

O quê: Hauntologia
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Aphex Twin, há alguns anos à frente do seu tempo

Sub-bass/Snare Outra tendência que conversa com esse dicionário de novidades, a fórmula de sub-graves e caixas permeia bastante som novo que tem saído. Um olhar mais amplo revela que não se trata apenas de uma receita musical feita para vender. Hoje a cultura do grave assume essa faceta após sequentes releituras do sistema. Vindoura da rua, a baixa frequência corre sob o mainstream nos soundsystems, na criação analógica, nas mídias físicas, nas performances em pequenas casas de show e nos fanzines — tudo aquilo que perde força na era acima descrita, a pós-internet. Nesse panorama sonoro o grave ganha mais importância como elemento estético porque representa a identificação com a rua. A urbe respira sons do trap, do lo-fi, do drone. Reverberações emitidas pelo ar que afetam ouvidos e corpos. E, a reboque, as caixas atonadas. Basicamente o que faz a Elliphant, cujo disco deve sair em breve. Moça sueca que deu um rolê acompanhando uma crew britânica de dubstep e resolveu produzir um som encardido do naipe de bloc parties jamaicanas do Bronx. Seu disco sai neste trimestre. Ondas longas vão pelo mundo.
O quê: uma das faixas de estreia da Elliphant — que lembra muito os conterrâneos do Nikki & The Dove

Também: o documentário Dub Echoes

Trap Demorou, mas aconteceu: música eletrônica e hip hop se encontraram. A relação entre os gêneros sempre foi de interdependência quase simbiótica, só que as escovas de dente seguiam separadas. Ferramentas como sintetizadores e baterias eletrônicas serviam a ambos, assim como alguns artistas. Ora um deslize ocorria de um lado pro outro, ora de outro pra um. Se exasperavam e desistiam. Até que a música pop dos Estados Unidos resolveu abraçar de vez uma causa. E anos depois a outra. A união foi selada no sul do país e, com cara de briga feia, deu no Trap. Mais precisamente, o estilo é a entrada do hip hop na cena da EDM. A cultura da música eletrônica invadiu o mainstream norte-americano pelo Dubstep e pelo House contemporâneo. Nesse caldo fermentou o rap de Atlanta, fundado em samples de metais e tempos de caixa. Influências anteriores ajudaram a dar forma final ao estilo que já está suplantando Skrillex e seu Brostep. Caras como Flosstradamus e RL Grime  são culpados por faixas sublinhadas por graves e pontilhadas por toques rasgados e vocais modulados em loop. Vez ou outra aparece um barulho de explosão pra combinar com as escassas letras sobre a vida out-law nas quebradas dos EUA. Curiosamente, não são americanos os responsáveis por uma das pedras mais importantes do estilo, o EP TNGHT (Julho/2012). O título do compacto também é o nome do duo formado pelo canadense Lunice Fermim e pelo escocês Hudson Mohawk. Mal dá os primeiros passos e o Trap já está ganhando o mundo.

O quê: a porrada Higher Ground do TNGHT

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