O abecê musical de 2013

Os posts do abecê musical estão reunidos aí, numa lapada só. Dá pra acessar ali na imagem ao lado, também.

Afrobeat(s) Com e sem s, mas sempre plural, o Afrobeat é o vento africano sobre a música ocidental — com um empurrão dela, como rabo atrás do cachorro. Quando no singular, fala-se do movimento que reverbera aqui em bandas como Bixiga 70 e Abayomi Afrobeat Orquestra e começou com Fela Kuti na capital da Nigéria, Lagos. O documentarista Pedro Rajão está por lá capturando imagens pro filme Anikulapo, que tratará dessa vanguarda musical, política e social. Quando mais de um, o Afrobeats passa a ser guarda-chuva sobre dezenas de manifestações do ghettotech africano: o Hiplife na Nigéria, o Kuduro em Angola, o Lungu Lungu em Gana, o Coupé Decalé na Costa do Marfim, etc. Mais ou menos novos, esses ritmos vão chegando aos poucos às pistas em versões sui generis ou relidos.

O quê: Família Kuti e DJ Abrantee
Também: Ghettotech

Bondax Meninos dos olhos da última residência da Red Bull Music Academy, os dois do Bondax já vêm colhendo alguns ovos de ouro. Mal saíram da academia, Adam e George já tocaram uma turnê no mercado mais saturado pela música eletrônica atualmente, os Estados Unidos. A coragem deles vem do que fazem nas mesas de som: encaixes originais da estética londrina do grave/ambiance com envolventes vocais e melodias  norte-americanas. São corajosos também porque são muito moleques. Apenas 17 anos.

O quê: Baby I Got That

Também: Madeon

Chromatics (Johnny Jewel) 2012 já foi uma boa volta em torno do sol pro trio americano. Longe do hype, o Chromatics alcançou críticas favoráveis a seu 4º álbum. Kill for Love pisa firme sobre o synthpop melancólico, embebido na transição punk-new wave — nem por isso soa velho. Motivo justo para figurarem em tantas listas de melhores do ano. E motivo justo para acreditar que o mentor da banda, Johnny Jewel, será um cara aparecido em 2013.  Ele toca o projeto eletro-analógico Italians Do It Better, a banda Desire e já recebeu convites pra colaborar na produção do rapper Kid Cudi e da cantora Beyoncé. Ah, e ainda tem o Chromatics.

O quê: cover de Ceremony, do Joy Division

Também:  Warsaw

Distrito Federal Não sou de Brasília e minhas incursões na cidade pintaram um retrato monótono da capital: um único tom de cor, de curva e de humor. Do concreto branco e redondo do DF, contudo, pode brotar mais que carteiradas de filhos de militares e filhos de políticos. Falo de uma cena independente calcada em linhas sintéticas, arranjos fluidos e batidas sutis. Na cabine do avião os veteranos do Sexy Fi (outrora Nancy), com o Nunca Te Vi De Boa, lançado em outubro. A ironia do título dialoga com as mordazes letras referentes à cidade plano-planejada. Elas deitam sobre — e se enrolam com — o post-rock jazzístico e pop do grupo, de levadas melancólicas feitas para bailar. A atmosfera fragmentada e fluida tem refúgio também nos conterrâneos do Voxolder (na foto), bem mais eletrônicos que os parceiros. O EP com nome hipster — nome da banda – vogais + consoantes em caixa alta — dá espaço a um synthpop/dreampop interessante, ao qual não falta melodias insistentes e marcações eletrônicas.  Pra quebrar um pouco a morosidade, a banda Deltafoxx, cujas versões não deixam a dever queridinhos do eletro-indie mundial, como Gigamesh e Aeroplane.

O quê: Looking Asa Sul, Feeling Asa Norte

E também: First Move Mixtape 1

Escandinávia A invasão dos herdeiros vikings não é de agora, mas é de 2013 o ataque por vários flancos. Na eletrônica Todd Terje continuará a remixar o mundo, como ele mesmo diz, e Lindstrom colherá os frutos do álbum lançado no fim de 2012 — e já teve passagem pelo Brasil. Retornando à luta estão Bjork, que voltará a cantar ao vivo, o Sigur Rós com turnê agendada e o The Knife, também com shows marcados do álbum que terá lançamento em breve. Fecham a infataria os novatos Nikki and The Dove, que seguirá em turnê do disco de estreia, Frida Sundemo, com o EP de Indigo, e Of Monsters and Men (na foto), atrações do próximo Lollapalooza Brasil. Pra não dizer que não falei de desertores, o Swedish House Mafia anunciou aposentadoria e faltou um monte de acentos nos nomes supramencionados.

O quê: Set do Lindstrom em São Paulo

Também: Masquer

Festivais “O Brasil entrou definitivamente no circuito dos shows internacionais.” Mentira, ao menos por agora. A frase cai muito bem pros anos 80, quando o Rock in Rio estreou grandes palcos no país. Hoje em dia shows internacionais tornam-se, aos poucos, uma feliz rotina — ainda que haja muito o que melhorar, de valores de ingressos a infraestrutura das praças. Fato é que festival de música por aqui já não é tão raro. O próprio Rock in Rio volta a acontecer com Metallica e Iron Maiden no lineup. O Lollapalooza também reaparece, jutando Deadmou5, Planet Hemp e Two Door Cinema Club. O MECA Festival é mais um da lista com uma galera novata respeitosa, como Citizens! e Zulu Winter. Outro que merece (muita) atenção é o Sónar, que já divulgou nomes pesados como Theo Parrish e The Roots. Embora o Planeta Terra tenha chegado ao fim e o SWU ainda não passe de especulação, o cardápio dos grandes satisfaz com a ajuda dos pequenos. Especialmente na região sudeste, eventos de menor porte e apresentações únicas dão um bom panorama para os palcos desse ano — e um péssimo panorama para o bolso.

O quê: Rock in Chair, pra acompanhar a agenda
Também: Metal Open Air (brincadeira)

Grrrl Power Diz o dicionário machista que não se deve, nunca, pedir calma a uma mulher. Como o machismo e ignorância andam de mão dadas, deixemos esse verdadeiro pai-dos-burros de lado e peçamos calma a algumas moças da música em 2013. O motivo é simples: elas vão (continuar a) atacar agressivamente. Em várias cenas. No hip-hop as garotas progressivamente suplantam o estigma do undergroud e deixam de ser raridades populares como Missy Elliot. Em 2011 Santigold mostrou que a mulherada estava viva na excepcional parceria com os Beastie Boys, seguido de um novo álbum em 2012; pra esse ano M.I.A. prometeu um novo disco pra Abril; Azealia Banks já deu as caras por aqui no ano passado e segue espumando, vide o álbum prometido pra fevereiro e a treta que arranjou com a colega e também super-estimada Angel Haze; ainda nas novatas estão Snow Tha Product e Iggy Azalea, que preparam suas estreias nas majors. Na ala eletrificada, o hypado duo AlunaGeorge é o mais aguardado, enquanto as britânicas Charli XCX e Delilah podem entrar no vácuo do som obscuro de Grimes, unanimidade em 2012 na quebra de paradigmas. Com menos batidas  que as rappers e as eletrônicas, o rock também terá suas representantes não menos injuriadas. A estreia das moças do Deap Vally (na foto) tem grandes chances de aparecer entre os melhores do ano; o Dum Dum Girls, com recente EP, e o Warpaint, que diz estar trabalhando num novo disco há um tempo, são outras esperanças para o time feminino. Por aqui o ano passado teve a amazona Gaby Amarantos, mas guerreiras nesse solo não são de hoje e, entre novidades, vêm a carioca etérea Mahmundi e a caloura com nome de veterana Alice Caymmi. Quando o papo é global, ouvidos estão atentos para a volta da Alicia Keys e para os próximos discos de Beyoncé, Lady Gaga, Britney Spears e até Mariah Carey; a Rihanna pode descansar de lançamentos, mas deve manter-se onipresente (algo que Nick Minaj terá de por á prova). Corre à boca pequena que até o Rouge prepara uma volta. É muita mulher, viu.
O quê: Riot Grrrl
Também: Mulher, Mulher, Mulher (em clima de carnaval)

Haleek Maul “Baby I’m a demon, Think you better hide your soul”. A frase poderia ser cuspida pela boca de Regan, a garotinha encapetada do filme O Exorcista. Ao contrário, as palavras são do rapper Haleek Maul. O jovem de Barbados nem parece ter apenas 16 anos pelas letras que abordam temas pouco ortodoxos, como suicídio. A anti-aura é tônica do seu EP de estreia, Oxyconteen, feito em parceria com um leque pesado de produtores norte-americanos. Como ele conseguiu isso? Uns emails trocados, uns contatos adquiridos e um flow de responsa de quem sabia o que queria desde os 11 anos. O moleque trilha sobre um trip-hop remoldado entre o 2-step garage e o grime, gravíssimo e calmo. Batidas ásperas cortam as rimas, suspensas em linhas lúgubres e soturnas. Decadentismo juvenil.
O quê: 88, não por acaso o número do capítulo do livro Salmos da Bíblia.

Também: XXYYXX

IROK Imagine um mundo em que Omar Rodriguez (líder do Mars Volta e do At The Drive-in) nasce na casa de Dona Canô e anda junto com a patota tropicalista exílio acima, festival abaixo. Apesar do nome até compatível do rapaz, esse mundo é mais ou menos possível graças aos caras do IROK — sigla para Intergalactic Republic of Kongo. A escolha do nome e da letra K passam pelo crivo de uma das maiores pirações da música, ao lado da própria Tropicália e, quem sabe, da fase Racional do Tim Maia. O Afrofuturismo é o que pauta o som da banda londrina, um movimento embrionado na ala mais radical e psicodélica da música negra norte-americana dos anos 70.  Percussão é matéria prima no som do IROK, que não hesita em mesclar compassos de terreiro a compassos de salão. Os acordes e afinações lisérgicos do teclado elevam a esquisitisse de bandas como Tune Yards e Yeasayer a um patamar superior. Fritura extra-terrena — que faz dessa uma das apostas mais arriscadas da lista.
O quê: All My Children

Também: Bat Macumba, clássico que o próprio IROK compartilhou na sua página do Facebook

Jamie xx Nomeado remixer do ano pela organização britânica Music Producers Guild, produtor de uma das faixas da volta de Alicia Keys, refazedor incansável dos próprios sons. Esses são alguns dos títulos colecionados somente no mês passado por Jamie Smith, coração com marcapasso do The xx. O segundo disco do trio britânico foi um dos lançamentos mais superestimados na blogosfera em 2012 e quando a espera é demais a opinião pública desconfia. Embora não tenha sido unanimidade em crítica, o álbum revelou facetas de Jamie que seguiam escondidas pelas roupas pretas do grupo. Produtor certeiro nas escolhas e refinado nos ingredientes, o jovem pode até descansar em 2013 — dificilmente o fará –, que ainda assim manterá, timidamente, seu posto como um dos grandes embaixadores da cena eletrônica underground britânica. E digo mais: Sónar, traz os caras pro Brasil!
O quê: a edição de Sunset que o dito-cujo fez

Também: Face and Heel

Kendrick Lamar Policial bonzinho encontra policial corrupto e enfrenta todo tipo de provação moral durante um dia. Taí uma sinopse-tuíte do filme “Dia de Treinamento”. O título em inglês nomeou a estreia de Kendrick Lamar no rap. Então K-Dot, o rapper californiano já tinha a verve filmográfica. Uma década se passou e ele insistiu no estilo na sua estreia pelas majors. O que mudou foi o roteiro. Subtitulado como um curta, o álbum “good kid, m.A.A.d city” não foge à cinematografia. A narrativa de Lamar paira sobre uma lírica pesada. Ele debocha com classe de ideais frívolos e subverte o universo criado pelo próprio hip-hop. Dinheiro não é problema, mas ostentação é armadilha; festas acontecem, mas bebidas e drogas são emboscadas; amigos aos montes, interesseiros em dobro. Tudo isso está presente nas letras de Lamar, que transita sobre os temas no seu disco como uma nova espécie de self made man do gangsta rap: o cara que pode não ser respeitado por que atira, mas que certamente o será por ter sido morto pela bala — como canta em Money Trees. A poética é história de vida e inspirada em nomes como 2Pac e Dr. Dre. Entre outros produtores, o arquiteto da estética rapper da costa oeste esteve junto do cara no álbum. Dre e companhia preenchem o disco com samples e criam camadas por vezes contínuas, por vezes minimalistas. Orquestrações que remetem a Jay-Z e loops que remetem a Public Enemy. Tudo conversa com os versos de Lamar ou de seus personagens vindos em falsetes. “good kid, m.A.A.d city” é um filme que de tão bom fará de seu diretor um dos nomes do ano.

O quê: Swiming Pools (Drank)

Também: Black Hippy

Land Down Under Quem primeiro gritou que era de lá foi o Men At Work. O termo que define a Austrália serve como título à cena do país continental que passa a ganhar o mundo. Não que a produção tenha sido homogênea até então. Nem pode-se dizer que a variedade de sons faz jus ao tamanho da ilha. O que cresce aos olhos são as novidades que os novos aussies trazem na mala. Na crista da onda bandas como Panama, Strange Talk (na foto) e Gold Fields seguem as migalhas deixadas pelo indie eletrificado do Miami Horror. As três vêm de excelentes EPs e singles e, cada qual com suas peculiaridades, devem apresentar álbuns prontos pra pista neste ano. Na frente delas vem o aguardado Atlas Sound, que gerou expectativa após o excepcional single “Trojans“, lançado em outubro. E antes de todas essas tem ainda o Empire of The Sun, que também promete novo disco para 2013. A mistura de percurssões e sintetizadores experimentais com acordes pop dá lugar a projetos eletrônicos com igual potencial, como o duo Pnau, outro com álbum no forno. Quem sabe não aparece aí coisa nova do Cut Copy, do Sneaky Sound System ou de algum, até agora, desconhecido. A Austrália é grande.

O quê:  Treehouse, do Gold Fields

Também: Indietronica

Metá Metá Duas palavras, dois anos, dois melhores discos, três músicos. Quebrar expectativas: essa é a função do Metá Metá na música brasileira. O trabalho de Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França não é vanguarda indigesta, nem populismo cultural. Tampouco um sem fim de rótulos que estejam entre esses extremos. O trio e a pancada de bons músicos que o acompanha aproximam escolas sofisticadas a temáticas populares, algo esquecido em um país que criou o samba, o chorinho e o frevo. Daí a expectativa quebrada, como nos contratempos e batuques das suas composições.  Nesse Brasil que se redescobre (ponha quantos re- você quiser), a banda encontra novamente manifestações que formaram nossa cultura como lendas, sincretismos e embates. É o São Jorge vivente na lua e criado na rua. Que fuma, bebe cachaça e labuta. Um santo ligado às tradições do país, como canta a terceira faixa do disco. Não à toa “MetaL MetaL” é repleto de sons africanos. Eles são a amálgama da nossa liga musical e estão no álbum na percussão, nos vocais, nos sopros e até nas cordas. O disco foi lançado no fim de 2012 e, assim como a banda, ainda tem muito o que ecoar nesse ano que chegou.  Oxalá.

O quê: o segundo álbum para baixar gratuitamente.
Também: Afrobeat(s)

90s R&B. Breakbeat. Progressive house. Ambient. Trip hop. Sertanejo. Axé. Blur. Pearl Jam. Planet Hemp. My Bloody Valentine. Garbage. DJ Marky. Dance music. System of a Down. Blink 182. No Doubt. Soundgarden. Backstreet Boys. Spice Girls. Boy Bands. Girl Bands. Meias altas. Calçados plataforma. (Filho do) Will Smith. Bonés coloridos. Canal Viva. Bruno de Lucca. Os anos 90 estão aí e nossa nostalgia cresce na mesma proporção dos novos meios, ferramentas e tecnologias.

O quê: Daft Punk e seu provável retorno
Também: Retromania

Onirismo O Dream Pop é dessas correntes musicais de quem sonha acordado — coisa de artista. Em 2012 o Beach House puxou atenção para o gênero que já passava por renovações há alguns anos. Vindo do shoegaze, o gênero de notas suspensas e vocais extensos ganhou cada vez mais tremolos e intensidades de sintetizadores no disco “Bloom”, do Beach House (na foto). Bandas como M83 e Wild Beasts flutuaram sobre essa dimensão com mais ou menos apelo comercial e sempre soturnas. Se já mostram sinais de fraqueza nas novidades — vale lembrar que estão em turnê — o trabalho recai sobre sonhos mais chapados. A psicodelia vive numa das mais aclamadas bandas do ano passado, cujo último disco caiu na rede há poucos meses. O Tame Impala comanda novas leituras sobre pedaleiras fuzzeadas, bends acalmados e sobreposições frenéticas. Quem viu o show dos caras no Cine Joia sabe disso. Sabe também que 2013 é a esteira perfeita para o grupo e sua estética se consolidarem.

O quê: Breakers, single do próximo disco do Local Natives

Também: Distrito Federal

Pós-Internet Mal da geração cantada por McLuham é ter tanto por onde falar sem tanto o quê falar. Negar a criatividade humana é negar sua inteligência, mas em que lugar ela fica com o zilhão de “Pós-” espalhados por aí? Sempre tomando o anterior como referência, movimentos com o dito prefixo parecem que já nascem, assim, póstumos. Esse da internet, não. Até porque a internet está aí viva e faceira, cheia de gifs, menes, pornografia e metanfetamina à venda. Então o depois dela convive com ela. A simultaneidade — adequada a um tempo meio atemporal — existe em artistas que nasceram na rede ou, quando não isso, nela cresceram. Chuto que nessa lista de novidades para o ano a média de idade esteja abaixo dos 25 anos. Os nativos digitais tomam as rédeas da produção cultural na medida em que detonam paradigmas, aquelas coisas com cheiro de mofo. O maior expoente disso é a Grimes, que se auto-descreve uma artista Pós-Internet.  A canadense espancou o ecossistema musical com o disco Visions (de Fevereiro), emitindo uma coleção de sons hipnagógicos e dissonantes. Em conjunto, os barulhos são composições descoladas de seus redutos originais. As pistas de dança de Detroit ou as casas de show de Montreal não são as únicas cenas possíveis. A cena também vive em espaços virtuais, com territórios, mas sem fronteiras. Ela é a rede do Tumblr no Seapunk, as fotos do Instagram na Lana Del Rey, os barulhos chiptune no Neon Indian, os e-mails trocados no Sexy-Fi, as comunidades do Orkut no Funk Ostentação. Mas a cena também é a bravataria do Twitter na Azealia Banks, a infinidade de músicas no Hype Machine, as bizarrices do Youtube no Die Antwoord. Ainda bem longe de ser visualizada e compreendida totalmente, essa Pós-Internet continuará como palanque de inovações musicais nos próximos anos. Muita coisa ruim aparecerá — cuidado para não nivelar arte por baixo –, mas os clássicos ficarão. E, num exercício de previsão mais difícil, dá até pra imaginar pessoas como a Grimes ilustrando o verbete “Grassroots da Internet” em alguma versão da Wikipedia do futuro. Uma Pós-Wikipédia ou um nome mais criativo.

O quê: Red Fox, a mais recente  música da Grimes

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Silva

Quentin Tarantino Não é preciso questionar Tarantino sobre o que ele pode fazer com música. Comparsas de Rubens Ewald Filho e frenéticos do IMDB podem fazê-lo quanto aos filmes, mas deixem em paz sua relação com música. Dono de um dedo de ouro na montagem de trilhas sonoras, o Samuel Rosa de Hollywood volta esse ano às telas e aos ouvidos com Django. O filme é inspirado no clássico homônimo do western spaghetti que tem muito sangue e Ennio Morricone na linha de frente de composições. O maestro italiano é o Jimi Hendrix com Roger Waters das películas, capaz de orquestrar células simples e temas grandiosos em leit-motifs marcantes. A sua obra mais conhecida é também prova clara disso. Adicione aí o gosto peculiar do diretor norte-americano por metais estridentes e guitarras em overdrive. Como se não bastasse, a trilha ainda tem um James Brown aqui e um John Legend acolá. Tudo isso em um faroeste. Tá bom, então.

O quê: o encontro póstumo de James Brown e 2Pac

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o tema Django

Retrovanguardas Paradoxal e quase impossível, o termo se explica mais por como é feito do que por quem é feito. O objetivo aqui não é o acerto ou o correto: a estética do erro é o mais patente nesse olhar para frente pelo retrovisor. E não há quem diga que errar é fácil. Pelo contrário, no mundo binário de smartphones e programas de edição de áudio tudo é feito para acertar. Logo, o que foge a isso, foge ao digital — passa a ser outra coisa. Quem sabe algo orgânico. O lo-fi é a saída mais simples para isso, sendo um dos elementos mais presentes na música dos últimos anos, do neofolk ao eletrônico. Inovações estão, por exemplo, na chiadera do Velvet Underground retomada milimetricamente no disco de estreia do Metz.  Ou então nos glyphs sônicos de Nuno Canavarro relidos pelo Actress com o álbum R.I.P . Quem sabe até nos ruídos ritmados do Psilosamples com reminiscências de Afrika Bambaata. Olhar pra trás é olhar pra frente, agora sem (tantos) olhares reprovadores ao redor. Mudou a época da leitura e a vanguarda de ontem é a novidade de amanhã, para público e crítica.

O quê: Hauntologia
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Aphex Twin, há alguns anos à frente do seu tempo

Sub-bass/Snare Outra tendência que conversa com esse dicionário de novidades, a fórmula de sub-graves e caixas permeia bastante som novo que tem saído. Um olhar mais amplo revela que não se trata apenas de uma receita musical feita para vender. Hoje a cultura do grave assume essa faceta após sequentes releituras do sistema. Vindoura da rua, a baixa frequência corre sob o mainstream nos soundsystems, na criação analógica, nas mídias físicas, nas performances em pequenas casas de show e nos fanzines — tudo aquilo que perde força na era acima descrita, a pós-internet. Nesse panorama sonoro o grave ganha mais importância como elemento estético porque representa a identificação com a rua. A urbe respira sons do trap, do lo-fi, do drone. Reverberações emitidas pelo ar que afetam ouvidos e corpos. E, a reboque, as caixas atonadas. Basicamente o que faz a Elliphant, cujo disco deve sair em breve. Moça sueca que deu um rolê acompanhando uma crew britânica de dubstep e resolveu produzir um som encardido do naipe de bloc parties jamaicanas do Bronx. Seu disco sai neste trimestre. Ondas longas vão pelo mundo.
O quê: uma das faixas de estreia da Elliphant — que lembra muito os conterrâneos do Nikki & The Dove

Também: o documentário Dub Echoes

Trap Demorou, mas aconteceu: música eletrônica e hip hop se encontraram. A relação entre os gêneros sempre foi de interdependência quase simbiótica, só que as escovas de dente seguiam separadas. Ferramentas como sintetizadores e baterias eletrônicas serviam a ambos, assim como alguns artistas. Ora um deslize ocorria de um lado pro outro, ora de outro pra um. Se exasperavam e desistiam. Até que a música pop dos Estados Unidos resolveu abraçar de vez uma causa. E anos depois a outra. A união foi selada no sul do país e, com cara de briga feia, deu no Trap. Mais precisamente, o estilo é a entrada do hip hop na cena da EDM. A cultura da música eletrônica invadiu o mainstream norte-americano pelo Dubstep e pelo House contemporâneo. Nesse caldo fermentou o rap de Atlanta, fundado em samples de metais e tempos de caixa. Influências anteriores ajudaram a dar forma final ao estilo que já está suplantando Skrillex e seu Brostep. Caras como Flosstradamus e RL Grime  são culpados por faixas sublinhadas por graves e pontilhadas por toques rasgados e vocais modulados em loop. Vez ou outra aparece um barulho de explosão pra combinar com as escassas letras sobre a vida out-law nas quebradas dos EUA. Curiosamente, não são americanos os responsáveis por uma das pedras mais importantes do estilo, o EP TNGHT (Julho/2012). O título do compacto também é o nome do duo formado pelo canadense Lunice Fermim e pelo escocês Hudson Mohawk. Mal dá os primeiros passos e o Trap já está ganhando o mundo.

O quê: a porrada Higher Ground do TNGHT

Também: Real Trap Shit

Ume O primeiro disco da banda (lê-se, em inglês, ooo-may) foi lançado em 2009. Phantoms poderia ser mais visceral, poderia ser mais empostado, poderia ser mais pujante. À parte os devires, o álbum não consegue sair da obrigatória apresentação do trio texano. Além da letra U, o que o traz a essa lista, contudo, são os devires que tornam-se deveres caso o potencial seja liberado — e aí a história fica boa. O segundo disco da banda está previsto para março e pode ser a chance de Lauren Larson, vocalista e guitarrista, mostrar realmente a que veio. Se optar por riffs desenhados cuidadosemente sob o filtro do overdrive, a banda deixa de lado um certo tom Paramore e caminha para a experimentação, ainda que comedida, do Warpaint. A reboque, as linhas de baixo e bateria ganham mais notoriedade. É uma aposta de risco controlado. A propria Lauren afirmou que, entre as faixas do primeiro álbum, tem predileção pela viajandona Dancing Blind.  E o próximo LP da banda foi feito em parte por crowdfunding — nada mais indie e livre de amarras. Se nem isso conseguirem, a banda ainda será legal por comandar um projeto de rock para garotas.

O quê:  Captive, clipe de estreia do Ume

Também: Grrrl Power

Vinicius de Moraes O apelido era poetinha, mas a gente sabe que Vinícius de Moraes começou nos sonetos diplomáticos e, para não bancar o Rosa, desceu a ladeira com um 12 anos no braço e uma melodia na cabeça. A viola ele não carregava. Como só andava em boa companhia, a deixava para parceiros como Toquinho, junto de quem compôs parte fundamental do cenário musical brasileiro. Por essas e tantas são obrigatórias as homenagens ao fluminense no ano de seu centenário. Entre as confirmações, ele será mote de apresentações da OSESP na Sala São Paulo, ganhará exposição no Museu da Língua Portuguesa e também estará em tema de samba-enredo. Do erudito ao popular, como manda o figurino.

O quê: o álbum em parceria com Toquinho e Maria Creuza

Também: Luiz Gonzaga e seu centenário

The Weeknd Sob a alcunha de The Weeknd, Abel Tesfaye fez um tríptico musical em forma de mixtapes que culminou no seu álbum de estreia ano passado. Elogiado pela crítica, “Trilogy” renova um espírito sutil do R’n’B de luxúria tensionada em atmosferas soturnas — um clima que ressurge com outros artistas.  O canadense de 22 anos fez algo que Marvin Gaye dominava com maestria, orquestrando sopros e cordas em arranjos eletrônicos somados a um falsete singular. Ao transitar entre raízes negras e pop mainstream, o cara arrisca batidas de um grime desacelerado e, por vezes, até um drone mais digerível. O que acontece agora é esperar o triunfo do rapaz, uma vez que seu primeiro disco apareceu no fim do ano. Parcerias, remixes, mashups e vídeos estarão por aí.

O quê: o clipe de Wicked Games

Também: Jessie Ware

X/Y Houve um tempo que a moda era bandas com nomes gigante, como o …And You Will Know Us By The Trail Of Dead, The Tony Danza Tapdance Extravaganza e Maylene and the Sons of Disaster. Depois foi a época das supressões de vogais, caso do SBTRKT, do MNDR e mais recentemente o TNGHT.  Em 2012 começaram a pipocar artistas com nomes incógnitos — e sons com força para 2013. Os mais famosos da lista são o The xx, que entram aqui por mera formalidade, já que são bem de antes. Depois do segundo álbum lançado, este ano provavelmente será de turnês e poucas novidades. A excessão deve ficar com Jamie xx, como já dito por aqui. Enquanto isso, o ar fresco partirá mesmo de caras como o jovem produtor xxyyxx. Outro rebento da era pós-Internet, Marcel Everett tem 17 anos e já surpreendeu muita gente com sua espécie de downtempo chillwave. Tal qual um James Blake de garagem (ou quarto), o jovem faz de seus álbuns estudos de batidas ruidosas e modulações vocais. Logo antes no alfabeto, o produtor xxxy também opera experimentos eletrônicos, só que voltados pra pistas. Há um tempo na estrada, Rupert Taylor vem de dois anos e dois bons EPs, o que leva a crer que em 2013 pelo menos o nível será mantido. Pra fechar a trinca, o rapper XV, que volta aos estúdios depois de um debut em 2006 e um monte de mixtapes. Ainda tem a Charli XCX, que já apareceu por aqui e, bem, o jogo só termina quando as combinações de letras e o talento acabarem.

O quê: o primeiro álbum do xxyyxx, completo para streaming

Também: Pós-Internet

Zuzuka Poderosa O superávit da balança comercial não vai tão bem, o dragão da inflação já fumega a alta dos preços e a economia criativa continua sendo a habilidade de se virar por aqui com apenas um salário mínimo. Apesar dos emboras, o Brasil é o país do futuro. Pra efeito de música, considere o futuro como sendo algo do ano passado, do próximo segundo ou dos próximos dias. Por frágeis que estejam, as estruturas de poder e economia da última década conseguem gerar artistas fora dos eixos costumazes, com bons panoramas para o que virá daqui pra frente. Feita a análise, coloque na cena a funkeira indonésia-brasileira Zuzuka Poderosa inserida em um dos centros mundiais da música independente hoje. Residente no Brooklyn nova-iorquino, a moça já é conhecida abaixo do Equador de outros tempos e talvez tenha agora a seu favor o vento que faltava. Além da visibilidade brasileira, Zuzuka ocupa a toada do ghettotech global apoiado sobre embaixadores como Diplo. Se o funk já não é grande novidade no mundo, a garota se apropriou do tamborzão para revesti-lo de variações rítmicas e sonoridades  periféricas da cultura de baixas frequências, como Moombathon, Cumbia Digital e Trap. A experiência já tem outros operadores, mas com Zuzuka sairá em forma de EP oficial com o pretensioso nome de gênero: Carioca Bass. Encarnada numa mestre de cerimônias frenética, a garota ainda lançará novo clipe para divulgar o material — provavelmente da música Psicodelia. Solta o pancadão, de novo, DJ.

O quê: a mixtape que apresenta o estilo, Carioca Bass Mixtape

Também: O Homem Mau de Leo Justi

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