O Barão do Bitcoin

“Existem lucros que são difíceis de ser conquistados: você tem de dar um trampo”, diz Allex Ferreira, sem tirar o olho do celular, enquanto toma seu segundo café expresso na tarde. “Mas quando o lucro é muito simples, você vai atrás.” Sentado em uma livraria em São Paulo, o paulistano que não gosta de revelar a idade lembra das histórias que fizeram sua fama. Ele é um broker de bitcoins: compra e vende moedas digitais aplicando seu lucro a cada transação. Se ajustadas aos valores atuais, elas somam cerca de R$ 2 milhões movimentados por ele. Mas não é só por isso que Allex é chamado de Barão do Bitcoin.

Ele é falastrão. Faz parte do seu avatar de Lobo de Wall Street. Allex critica possíveis concorrentes, discute com colegas e, caso entenda os debates como ofensa, bloqueia os perfis em grupos e fóruns que modera. “Nunca perdoei”, diz. Ele faz parte de um grupo que toca um enorme comércio subjacente à superfície da internet. Um leilão que chegou a cem mil operações diárias no mundo no início de 2015. Numa definição simplória, transferir Bitcoin é como enviar dinheiro por e-mail sem taxa ou cobrança de banco; significa, a grosso modo, copiar e colar dígitos específicos em carteiras virtuais – softwares que podem conectar qualquer usuário da rede de forma anônima.

Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Fundado em 2008 por um grupo de desenvolvedores liderados por Satoshi Nakamoto, o Bitcoin é um sistema de moeda criptografada, protocolo de internet e método de transferência de valores pela rede. Isso significa dizer que ele tem características de uma moeda real no mundo virtual. Como ouro, o Bitcoin é escasso. Não pode ser duplicado e tem um processo de obtenção chamado mineração, que consiste num concurso de complexos cálculos matemáticos entre computadores superpoderosos conectados à internet. O primeiro lugar nessa disputa sucessiva leva o prêmio: uma unidade da moedas.

Allex não caça moedas — isso é coisa da China. Allex as troca por dinheiro. “Ele fez mais transação que muita exchange por aí”, afirma André Horta, fundador da BitcoinToYou, uma empresa nacional de Exchange, isto é, que intermedia a troca de bitcoins como uma corretora de ações. No Brasil existem seis companhias como essa. A menor delas, a Basebit, foi superada por Allex em volume de transações no mês de agosto. Ele movimentou ao menos 2.222 bitcoins desde 2012. Esses valores estão registrados na sua principal carteira virtual, uma espécie de conta e extrato bancário no mundo dos bitcoins. É a carteira ostentação, como diz Allex.

Para chegar a tal nível de riqueza virtual, requer esforço. Allex trabalha com bitcoins há quatro anos de 10h a 16h. No seu horário comercial, ele permanece em sua casa entre dois trabalhos que se passam em duas telas. Um primeiro monitor afixado na parede mostra os gráficos de valor da moeda digital em tempo real; o outro, contido em um iMac sobre a mesa, revela uma série de fotografias que recebem tratamentos refinados. Ele não pensa duas vezes ao dizer que sua primeira profissão é a de fotógrafo, embora afirme que a compra e venda de bitcoins represente 80% da sua renda. Nos últimos tempos, diz Allex, os dias de fotógrafo de casamento que pagavam as contas deram lugar a sessões de Muay Thai.

A paixão de Allex pela fotografia vem dos tempos em que viajou pelo mundo. O clique despretensioso de rostos e paisagens aos poucos o levou à profissão. Inspirado pela série documental “Long Way Down”, em que os atores Ewan McGregor e Charley Boorman viajam pela África de norte a sul, Allex realizou a sua jornada entre dezembro de 2008 e março de 2010. Durante os dois anos ele esteve na Europa ocidental, no norte da África, no Oriente Médio, no sudeste e no leste asiático. O trabalho remoto com ferramentas de internet sustentava o périplo.

Allex aprendeu alguma coisa de web design e motores de busca quando morou na Inglaterra. Em 1990, ele fez sua primeira viagem sozinho pelo nordeste do Brasil. Em 1996, ele chegava de mala e cuia em Londres. Foram dez anos na capital britânica onde Allex foi de um tudo: subchef de restaurante, motorista particular, designer e vendedor de motos. Muita ou pouca, a grana que chegava era gasta na Inglaterra em necessidades básicas, aluguel e boas festas.

De volta ao Brasil, em 2011, Allex recebeu uma mensagem de um amigo britânico. Era um link para um artigo sobre o tal Bitcoin. Ele leu e deu de ombros. Dias depois ele chegou a um segundo texto e se impressionou. Allex passaria os próximos seis meses enfurnado em seu quarto estudando o Bitcoin. Observava as oscilações da moeda em mercados especializados como o MtGox e fazia perguntas em fóruns como o BitcoinTalk. Em pouco tempo foi fisgado pela ideia de vender e comprar bitcoins graças ao lucro das transações.

O retorno financeiro se sustentaria em três pilares fundamentais:

1) como um produto digital, o Bitcoin não apresentava custo de transporte;

2) em matéria de segurança, a comunidade dava provas de que o sofisticado sistema em rede impedia adulterações;

3) por mais que oscilassem, os índices de valor da moeda tendiam ao crescimento com o aumento da demanda.

E, em 2012, Allex tinha um trunfo que brasileiro nenhum tinha: ele importava bitcoins de colegas na Inglaterra. Graças a seus – como diz – “associados”, ele tinha preços muito competitivos para o mercado brasileiro com lucros de até 20% por transação.

Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Certa vez, Allex ensaiou ir à Inglaterra somente para comprar bitcoins. A passagem de avião, a hospedagem e uma visita aos amigos antigos seriam cobertas pela margem aplicada à operação. A essa altura, ele tinha percebido que o Bitcoin era uma oportunidade e tanto. Enquanto os poucos negociantes do Brasil vendiam uma ou duas unidades da moeda, ele vendia dez, quinze, até vinte bitcoins a um preço médio de US$ 500. Fotografar por necessidade era passado. “Dá pra manter meus projetos fotográficos de maneira simples”, pensou.

Parceiro dos primeiros meses no comércio de bitcoins, o gerente de TI Thiago Martins é certeiro: “Ele tem os contatos”. O amigo ri ao lembrar de uma viagem que fez com Allex até Florianópolis em busca de bitcoins em meados de 2013. Allex tinha fechado um preço excelente pela compra das moedas digitais de um jovem que vinha da Inglaterra para a capital de Santa Catarina. Depois de comprar R$ 30 mil em bitcoins na escala do garoto em Guarulhos, Allex e Thiago decidiram encontrá-lo novamente para mais uma sessão de compras. A segunda parte da negociação rolou em um quarto de hotel com uma cama forrada de dinheiro.

Você quer privacidade? Eu te dou privacidade! Allex Ferreira

Em 2012, a rotina de Allex se resumia a negociar bitcoins online o dia todo. Assim que selecionava e editava suas imagens, ele se voltava aos negócios. No canal #bitcoin-bra do IRC rolava a feira de Acari da moeda. Mensagens de compra e venda se sucediam num vai-e-vem de dinheiro. Nos fóruns em que fazia questões técnicas, Allex chegou a ser alvo de clientes insatisfeitos por diferenças na conversão do dinheiro. A volatilidade do Bitcoin era tão problemática quanto a ordem de chegada no leilão. Quem ganhava uma concorrência de preços? “Valia o primeiro que respondia”, diz ele. “Isso dava pau!”

Essas disputas não se comparam ao que viria com o tópico “Problema do Mercado Bitcoin” que estreava no BitcoinTalk em março de 2013. Leandro Marciano, fundador da empresa Mercado Bitcoin, começa seu texto com a seguinte frase: “Nos últimos dias tivemos uma falha de segurança em nosso site”. Ele se referia ao sumiço dos bitcoins de mais de dois mil usuários. O caso até hoje não foi definido pela justiça como fraude ou ataque hacker — o que colocaria a segurança da moeda em xeque. Naquele mesmo dia, Allex articulou uma reunião entre os principais negociantes de bitcoins no IRC.
“A gente precisa de uma referência de preço”, disse ele no grupo de bate-papo. Há quem tome isso como formação de cartel. Nas palavras de Allex, era uma margem estabelecida enquanto o mercado brasileiro não se acalmava. A conta tomava como base o MtGox, maior companhia intermediadora de compra e venda de bitcoins em todo o mundo. A taxa cobrada na venda foi marcada para 18%. No vácuo deixado pela empresa brasileira, Allex encampava vendas em maior número e volume de Bitcoin.

Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Nos meses seguintes, outras duas crises o colocaram à prova: o primeiro desligamento do Silk Road, o mercado de produtos ilegais que funcionava na deep web à base de Bitcoin, em outubro de 2013; e a falência do MtGox, sentenciada pelo sumiço de 744 mil bitcoins, em fevereiro de 2014. Em ambos os casos, Allex se safou da bancarrota como quem lida com papéis podres. Ele vendeu seus bitcoins quando o valor ameaçou despencar e comprou até mais da moeda quando o valor começou a subir. Protegendo, acumulando e alavancando seus dividendos, Allex fazia jus a um barão.

O opulento título foi conquistado em junho de 2014. Cofundador da Foxbit — uma das maiores empresas brasileiras de troca e venda de bitcoins —, Guto Schiavon tem o mérito do batismo. “Esqueci de mencionar que o Allex é o Barão do Bitcoin”, escreveu ele no grupo “Bitcoin Brasil” no Facebook. A citação surgiu porque um novato do fórum queria comprar certa quantia da moeda digital. Segundo a recomendação de Guto, o negociante era uma boa opção caso o usuário não quisesse realizar cadastro, enviar documentos ou pagar as taxas exigidas pelas empresas do ramo.

O comércio da moeda digital nas suas mãos funciona da seguinte forma: quem quer comprar ou vender bitcoins entra em contato pela internet ou pelo telefone. O valor mínimo exigido é R$ 2 mil. Uma vez que a remessa em reais passa de uma conta bancária a outra, a remessa em bitcoins passa de um computador a outro em programas que emitem e lêem os códigos únicos de cada operação. Não pode haver erro na inserção dos dígitos nas transações. Qualquer falha pode fazer a grana parar em um bolso qualquer. Aí não tem gerente ou SAC pra reclamar. “Você quer privacidade?” questiona Allex, representando o papel de vendedor. “Eu te dou privacidade!”

Esse povo gosta de fazer barulho, são covardes que ficam atrás do computador Allex Ferreira

A sua retórica de comerciante obcecado resgata o codinome que ele adotou no mundo do Bitcoin: Allex 2501, uma referência ao antagonista da série cyberpunk japonesa Ghost in the Shell. Na história, o personagem se confunde com hacker superpoderoso e inteligência artificial capazes de comandar outros seres. Como o mestre titereiro de sua própria realidade tecnológica, Allex afronta e seduz caso tenha dinheiro no controle — um domínio que, segundo ele, estende-se ao próprio mercado da moeda. “Se eu tenho cem mil dólares em uma exchange, eu faço o preço do Bitcoin subir e descer ao meu bel prazer”, diz ele.

Certa arrogância tem seus méritos. Allex foi a primeira pessoa a hastear uma bandeira com a estampa do Bitcoin no monte Everest, em abril de 2015. Seu nome aparece em uma paródia do Rap dos Terceiros que versa sobre o mundo brasileiro da moeda digital — um arquivo que corre grupos de WhatsApp. Não há quem não o conheça entre os peixes grandes da comunidade no país. Nem todos são fãs. “Falo que nem o Dana White [presidente do Ultimate Fighting Championship (UFC)]: ‘You don’t like it? Suck it!'” Ou: “Não gostou? Foda-se!”

Viagem que Allex fez ao Everest para hastear a bandeira do Bitcoin. Crédito: Reprodução
Entre sua calculada pretensão e seu porte corpulento, Allex faz lembrar o norte-americano que dirige a mais rentável liga de artes marciais do mundo. Tem quem pense que ele tem ascendência oriental por causa dos olhos um tanto puxados. Filho de família mineira, sua primeira vez na Ásia foi em 2009. Na terceira vez, em 2015, ele fez uma longa escala na Tailândia em busca de campos de treinamentos onde aprimorou seu Muay Thai. O fim da aventura foi no Himalaia. Em algumas semanas, ele perdeu dois quilos e meio nas custas da grana que tinha feito com bitcoins.

Esse foi o primeiro feito mencionado pelo economista Safiri Félix, o CEO da CoinBR — uma das maiores empresas brasileiras no mercado de Bitcoin —, ao se referir a Allex. Como muita gente, Safiri sabe da persona do Barão. E o executivo credita o nicho informal estabelecido pelo broker ao incessante trabalho de quatro anos com a moeda digital. Quando ambos se encontram, Allex muda de comportamento. Ele abaixa a guarda entre os seus, faz piadas, dá o braço a torcer. Pouco lembra o tipo que publica fotos suas ao lado de garotas em trajes mínimos no Facebook.

Uma das imagens que Allex gosta de publicar na sua página. Crédito: Allex Ferreira/ Facebook
Allex afirma que sua carteira de clientes é fiel, mas as sequências de letras e números não dizem quem são os compradores e vendedores dos seus bitcoins. Não há dúvida de que muito dinheiro passa por ali. Segundo ele, quem comprava um ou dois bitcoins há alguns anos, hoje compra dez, quinze unidades da moeda. Embora as transações tenham aumentado em quantidade e volume, Allex diz que o lucro não é mais o mesmo. A sua margem diminuiu pela metade com a chegada de mais concorrentes e empresas. “Eu me adaptei fácil”, diz. “Mas não gosto!”

Os novos tempos facilitaram as operações financeiras. Allex não importa mais bitcoins da Inglaterra porque a reserva brasileira tem valores competitivos para negociação. Seu trabalho se restringe a usuários que tem certa experiência com a tecnologia. E os contatos rolam em boa parte no WhatsApp — o IRC ficou para trás. Com mais clientes, o barão também precisou se blindar mais. Ele atua amparado por advogados e conhece a parte legal que ainda patina na regulação do Bitcoin. “Sei muito bem onde estou me metendo”, diz.

O que ele faz questão de recusar são conceitos teóricos que fujam do funcionamento técnico do Bitcoin. Allex acredita que o mercado de criptomoedas é movido mais pelos negócios do que pelos discursos ideológicos. Quem não vai à prática corre o risco de ser tido por ele como fazedor de notícia ou anarco-bobo — apelido que ele deu aos mais radicais. “Esse povo gosta de fazer barulho, são covardes que ficam atrás do computador”, dispara. Nas comunidades de Bitcoin, ele já é tachado como herege tamanha descrença nas teorias econômicas e políticas.

Allex é um cético convicto. Ateu, ele crê nos bitcoins que vê na tela do celular e no café que pode pagar com sua moeda digital. No seu mundo, a divindade é uma carteira virtual recheada. O Bitcoin terá seu valor enquanto houver quem tenha crença nele, seja por seu poder disruptivo, seja por seu impacto social; seja por pragmatismo, seja por fanatismo. Allex lucra enquanto houver credo. Não há Barão sem Bitcoin, mas haveria Bitcoin sem Barão?

“Se a fotografia me render o que rende o Bitcoin, eu paro com isso na hora”, diz.

Ele então toma a última dose do seu expresso.

“Talvez não. Eu gosto disso.”


Matéria originalmente publicada em setembro de 2015 no Motherboard.

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