O caldo entornou. Foi pra esquerda ou pra outro lado?

O caldo de vinagre entornou. Qual líquido inflamado, respingou em todo o Brasil. Em São Paulo, no dia 17 de junho, ele escorreu no Largo da Batata, na ponte estaiada, na Faria Lima, na Marginal Pinheiros, na 9 de Julho e, contrariando a gravidade, subiu para a Paulista. No dia 18, nova manifestação: Sé, viaduto do Chá, sede da prefeitura, Brigadeiro, Augusta e, reafirmando a física do levante, mais uma escalada rumo a Paulista.

No dia depois, 19, a consulta popular — que nunca fora pedida pelo Estado — alcançou seu objetivo. A prefeitura e o governo revogam o aumento de vinte centavos no valor das passagens do transporte público paulistano. Histórico. E agora? O que fica? O que acontece? Pra onde vai? Quem é quem? O que defender? Para quê gritar?

No rastro do que passou, mais perguntas que respostas. O pouco que evidenciou-se é o primeiro passo para identificar o que subjaz.

No #sp17j foi difícil encontrar rostos conhecidos. Havia muita gente pelas ruas da cidade. Dezenas de milhares de pessoas que, movidas por mais que vinte centavos, tomaram o asfalto. A essas pessoas, indivíduos em sua maioria, sobravam pautas contra as quais lutar. Uma profusão de motivos raivosos que, aos olhos da classe média, não só legitimavam o ato popular como também angariavam mais cabeças para a marcha (ou passeata? ou protesto?).  Melhor qualidade de educação, maior infra-estrutura na saúde, mais oportunidades de emprego, menos investimento nas copas.

Qualquer grito que fizesse referência a esses pontos era comprado a preço de banana pelos blocos de gente que apinhavam São Paulo. Essas manifestações entremeavam cantos favoráveis à causa do MPL. Frequentemente havia espaço para o hino nacional. Talvez não passasse pela cabeça de tantos o contexto em que a ode ao país fora composta: um rebuscado poema condizente ao ideário positivo-ufanista da primeira república no qual se destacam, também, estátuas, monumentos, símbolos republicanos e uma tradição nada popular.

(Apesar disso, melhor ele que o modorrento “Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”.)

A reboque do ancião Ouviram do Ipiranga às Margens Plácidas, uma estética contemporânea da revolta. O resgate do verdeamarelo do futebol para as ruas: bandeiras e caras pintadas eram os mais vistos — talvez o branco, mas não havia espaço para outras cores, especialmente partidárias. Máscaras a dar com pau do personagem V, da agaquê V for Vendetta: originalmente inspirada no revolucionário britânico Guy Fawkes e posteriormente apropriada pelo grupo hacker Anonimous, elas estavam em maior número que as máscaras anti gás lacrimogêneo. Um sem fim de cartazes reproduzindo a linguagem da internet: memes, piadas, trocadilhos com a agenda pública e qualquer sinal de identificação com a rede — “Saímos do Facebook”.

Mas depois voltaram a ele (uns até com fotos no Instagram).

Foi, então, a vez de opiniões chegarem das ruas para serem emplacadas nas páginas. Não aquelas encabeçadas pelas hashtags #ogiganteacordou ou #changebrazil — habilitadas na plataforma do Zuckerberg na semana retrasada, diga-se. As opiniões que tomaram corpo não faziam muito uso da ferramenta porque, bem, elas minimizam temas importantes. Temas sérios não podem ser reduzidos a esses jogos-da-velha. E às vezes essas réchitéguis são muito coxinhas. Não queremos coxinhas no nosso protesto (que não é marcha nem passeata!).

A jovem-esquerda-tradicional (ou qualquer um mais à esquerda) pôs-se a atacar essa figura paulistana que, de uma hora para outra, poderia esconder o câncer direitista. Para além do coxinha — o civil, não o militar –, sobrou pra quem não compactuasse com o modus operandi do protesto à esquerda. Esse passou a ser achincalhado com a mesma virulência usada por quem rechaçou bandeiras de partidos nas manifestações. Acusada de sequestrar a pauta, de propor objetivos infundados, de ser incoerente no seu discurso, a massa humana que tinha ido às ruas ao lado das várias alas da esquerda, é verdade, tornava-se massa acrítica.

Melhor seria se fossem chamados de massa crítica, atomicamente falando.

A liderança progressista dos movimentos esquerdistas tem êxito na medida do poderio popular que tem. Das primeiras revoluções do século XX à revogação do aumento em vinte centavos em São Paulo, os fatos são escritos pelas mãos de vários, ainda que assinados por poucos. Carregar a locomotiva da história materialista, um fardo, parece ter se tornado garantia a um privilégio iluminista aos atalaias do futuro. A torre da qual vislumbram um novo tempo vira palanque-pedestal onde não há espaço para esse (não-)discurso pacífico, prudente, mediador, bom-moço e amigável. Estão delimitados dois grupos: a esquerda e os outros, ora antagônicos, ora complementares, ora sobrepostos, ora justapostos.

Na rua, sempre ela, os personagens desses conjuntos se misturaram — ao menos aqueles que frequentam o centro expandido da cidade. Entre as linhas verde e azul do metrô conflitaram, a primeiro momento, o excesso e a falta de ideologias oriundos do vazio de referências de luta popular na jovem democracia brasileira.

Os movimentos de esquerda, com bandeiras bem pintadas e definidas, parecem saber o que querem como numa tática de guerra: um flanco por investida, uma pauta por vez. Aos outros cabe, com caras bem pintadas e definidas, se posicionar contra os lugares-comuns do eixo do mal: a corrupção, os políticos ladrões, os desvios de verba, o salário do Neymar que é maior que o de um professor. Esse pastiche revolucionário ganha força nas ruas pela clarividência de que tudo isso é, inquestionavelmente, ruim, mesmo com a ausência de uma agenda política capaz de dar cabo a esses problemas.

Há, no entanto, um resíduo de viés político na atitude desse grande grupo às margens da esquerda, assim como nela própria. Um revanchismo ao moderado que, de um lado,  rasga bandeiras partidárias, mas condena pichações e, de outro, opera exatamente o contrário. Amplamente, essa aversão no grupo dos outros se traduz na percepção de que o sistema democrático e, por contingência, seus partidos não mais servem enquanto representativos — ainda que não haja, novamente, alternativa concreta à mão. Mais radical ainda, na esquerda que vai à rua essa recusa termina na percepção de um sistema mediocrático que tenta arrebanhar a população com medidas paliativas, conciliadoras e, pior ainda, regentes de qualquer processo revolucionário.

Um exemplo histórico deste último ponto é a apropriação do punk pelo capitalismo. De seu nascimento até os dias de hoje, todo o imaginário do movimento foi absorvido pela indústria. Rebeldia, DIY, iconoclastia e outros aspectos são empacotados diariamente de forma asséptica e ordeira. No caso dos protestos em São Paulo, o papel de incorporador do levante é cumprido magistralmente pela imprensa que, de uma semana para a outra, fez dos “vândalos e baderneiros” uma bela e destemida “juventude que vai às ruas”.

Além do que se viu nessas mesmas ruas, reside nesta tomada dos jornalões, revistas e emissoras de TV o maior sinal de que a esquerda ainda não consegue dialogar com essa massa (a)crítica que tornou possível a revogação dos vinte centavos nas tarifas — ou pelo menos não é tão rápida e eficaz quanto Marinhos, Frias, Civitas e Mesquitas. Talvez esteja aí o maior trunfo do MPL: ter agregado essas dezenas de milhares de pessoas que precisavam de um estopim para, como deve virar dito popular, sair do Facebook.

Certamente está aí a grande armadilha trazida pela a onda de protestos em São Paulo e em outras cidades do país. A esquerda, tradicional ou não, pode optar pelo caminho da vanguarda e manter-se à frente do levante enquanto dá as costas a todos os outros que não sabem cantar a Internacional, mas são substância fundamental  no caldo — tidos aí como retaguarda, senão retrógrados. Outrossim, os movimentos esquerdistas podem optar pelo difícil caminho da horizontalidade e transversalidade, no qual atravessam a massa humana num mesmo plano em prol da exposição de uma agenda de ações e, para além disso, uma agenda política.

Esse viés bebe na tentação doutrinadora e manobrista, mas guarda na sua essência anti-hierárquica, cuja pedra-angular é a rede, uma novidade ainda não vista em movimentos populares. Atores como Laerte, no seu paciente debate sobre gêneros, e Brecht, no seu incisivo Teatro Épico, contam essa história mais como indivíduos que como grupos políticos.

Por mais que os últimos dias proponham o contrário, é preciso conversar, ter calma e evitar extremismos sem se levar pelo moderantismo. Trazer para o chão quem está em cima do muro e não sabe disso. Preencher o oco do bom-mocismo e de hashtags como #ogiganteacordou, clamados por um grupo tão heterogêneo quanto receoso da díade direita-esquerda.

Ao fazê-lo, a esquerda traz para o centro quem está à margem do discurso, mas não à margem da sociedade. É um passo paralelo ao passo maior: trazer para o centro quem está à margem do discurso e da sociedade. Quando a periferia, que já se articula em movimentos populares, se vir nos caderno “Política” e não no caderno “Polícia”, não haverá fronteiras para o legado genuinamente popular dessas manifestações.

Facebooktwitterredditpinterestmail
[ssba]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *