O deboche do filme do Banksy

O filme do Banksy não me deixa dizer muito sobre ele sem que fira o direito inalienável de que cada um veja as coisas por si só. O filme se sustenta na figura mais e menos conhecida desse que é o “movimento mais expressivo desde o punk rock”, como alguém diz na fita. A obra do cara fez de paredes comuns, paredes famosas e das paredes famosas, mais famosas ainda. Mas o Robin Hood dos muros não tem cara nem voz — nem na película. Eu ainda desconfio que ele seja uma pessoa só, embora no IMDb conste que é o dito-cujo o diretor do “Exit Through the Git Shop”. Ora, do começo ao fim, o filme do Bansky não é do Banksy.

O filme do Banksy é um filme sobre subverter as coisas. Grafitti é subverter e deturpar a função principal de uma parede: proteger, cercar, territorializar. O que antes fazia só isso, agora também serve de palco para uma expressão qualquer que seja. Quem tem essa sacada não sou eu, mas sim o francês Thierry Guettha. “Terry” é o grande subversivo da historia toda. Com costeletas felpudas na cara e um sotaque e fala que não parecem acompanhar o ritmo do pensamento, sua figura humana já não é comum. Sua mania de não largar a câmera menos ainda. Ela rende ao filme tomadas dos primeiros nomes da arte urbana que foram conhecidos como artistas, como Space Invader e Shepard Farey. Boa parte do filme é feita das peripécias dos francês colado aos grafiteiros nas incursões urbanas.

No texto isso pode até fazer algum sentido. No filme, não. Os dourados primeiros cinco minutos, responsáveis por apresentar os personagens da história, deixam crer que Terry é realmente personagem. Os outros minutos, responsáveis por apresentar a história, deixam crer que Terry é pessoa real. Pelo sim, pelo não, o repositório mor da verdade cinematográfica, o documentário, já fica subvertido em si mesmo.

O atributo direto disso não é que as coisas ali são falsas. Pelo contrário, as imagens são tão verdadeiras quanto a piada debochada que é o grafitti. Tomado ali em stickers, lambe-lambes, stencils e, é claro, spray, ele ri da cara do sistema urbano de produção e vivência — efetivamente, a sociedade capitalista, mas o termo anda tão vazio que é bom apelar para conceituações. A pichação “Desculpe por sua parede” ajuda a conceituar o processo: a parede é sua, a pichação é minha. Desculpe pelo conflito das propriedades.

A reprodutibilidade do grafitti sustenta ainda mais a galhofa. Menos no sentido de cópia e disseminação, também presente, e mais no sentido de, adivinhem, subversão. O lado de lá é evidente nos centenas de OBEY de Shepard Farey, por exemplo, e no espraimento da pintura na parede por várias partes do planeta — coincidentemente, quando o mundo passa a ter mais gente vivendo em áreas urbanas que no campo.

O lado de cá, da subversão, é talvez o que torne o grafitti explosivo aos olhos. Uma olhadela na história e temos vários espécimes disso que, em essência, está inerente a qualquer revolução. Não sei se o grafitti chega a tanto, mas a uma revolta chega. A revolta com humor eu já disse, a revolta com o sistema eu já disse, agora só falta a revolta com a cultura. O grafitti transforma os elementos da cultura. O que se pode dizer das pinturas do próprio Banksy, o diretor do filme, senão que são transformações do que já estamos acostumados, da cultura? Andy Warhol já fizera isso com suas latas de tomate na galeria, mas Banksy e milhares de outros fazem isso todos os dias com as latas de spray nas ruas.

Banksy também já expôs em galerias em exposição cujas cenas aparecem no filme. Um passo a mais ante tantos grafiteiros, mas não é isso que o leva ao supra sumo do lance todo, ao suco concentrado. Ele não espreme o avesso do avesso do avesso do avesso e por isso o filme do Banksy não é do Banksy. Não é ele quem chega ao fim da fita no talo da subversão. Quem escarna, zoa, xinga, maldiz, e, por fim, digere a cultura e a regurgita é o senhor Terry Guetta — ou Mr. Brainwash — que consegue subverter, vejam só, o próprio grafitti. Pra se ter uma ideia sem que eu fira mais ainda o tal direito inalienável, vou te dizer que até o Banksy se arrepende de ter feito o que fez. Não o filme, mas o senhor MBW.

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