O Latam Esquad é o rap latino made in Brazil

A origem é boliviana, peruana ou brasileira, a cidade é São Paulo, o jardim é Japão. Na zona norte da capital, um pequeno estúdio de fundo de quintal recebe uma molecada com camisetas de times da NBA, botas de camurça ou tênis da Adidas e largas blusas de moletom – algumas peças de confecção própria. Garotos e garotas vão e voltam entre o espanhol e o português na mesma fala, na mesma letra. Eles são o Latam Esquad, o primeiro coletivo de rap latino-americano do Brasil.

“A gente é uma família: se um não tem o troco pro busão ou pro rango, a gente junta”, me disse Bryan Rodriguez. Ele é o fundador do grupo com quase vinte jovens que se revezam como rappers, produtores e grafiteiros. No alto de seus vinte e poucos anos, eles versam sobre imigração, tráfico de pessoas, maternidade e preconceito em músicas que rolam nos encontros de hip-hop ou no SoundCloud. E as faixas saem dali mesmo, do estúdio amador onde a gente trocou uma ideia a base de muita catuaba e vinho de garrafa plástica.

Como havia duas garrafas pra um monte de gente, não deu pra ficar bêbado, mas foi difícil acompanhar a história do Latam Esquad em meio a tantas vozes de diferentes sotaques. “É algo inusitado”, disse Bryan. “É um coletivo mesclado porque também tem brasileiro fazendo rap em português e em espanhol.” A escolha do nome passa por essa ideia: Latam é abreviação de Latinoamerica e o E em Esquad dá um toque aportuguesado à palavra do inglês que significa esquadrão.

O título e o próprio coletivo só passaram a existir depois de encontros presenciais ou virtuais. No Facebook, Bryan conheceu La Mil 8 Crew. “Ví um vídeo deles e achei da hora porque é difícil ver boliviano fazendo rap”. Dali a pouco tempo todos estariam juntos gravando o clipe da música “Somos Una Sola Raza“. Conhecidas de outros rolês, as irmãs bolivianas do Santa Mala se juntaram às gravações. E um show do Edi Rock apresentaria o Sujos Clã à gangue que se formava no fim de 2014. Só faltava o nome.

O Bryan e o Lucas na contenção do PTZ.

O batizado aconteceu em fevereiro de 2015, quando o coletivo se inscreveu no edital VAI da prefeitura de São Paulo. A maior parte da grana do projeto é destinada a organização de eventos mensais como o Kantupac, dedicado ao hip-hop latino. Encontros como esse também foram fundamentais para que os integrantes do Latam Esquad dessem seu cartão de visita. “Uma vez a gente foi pra um evento em Guarulhos e os caras ficaram loucos”, lembrou Bryan. “Eles falavam: os caras chegaram no mó bonde da Bolívia!”

Apesar do impecável português vileiro, o Bryan veio da Bolívia. “Quando chegam ao Brasil, muitos bolivianos vão trabalhar na confecção pela falta de documentos para fazer uma carteira de trabalho ou pela barreira do idioma”, explicou ele. “Com meus pais não foi diferente: eu cresci no meio de oficina de costura ouvindo músicas bolivianas, peruanas, andinas, folclóricas.”

A adolescência, sempre ela, foi porta de entrada pro rap. O Bryan lembra de ter conhecido primeiro o Bone Thugs-n-Harmony, grupo que teria o nome tatuado no seu braço esquerdo anos depois. Aí vieram Racionais MC’s, Facção Central, Sabotage e, enfim, o rap latino de caras como Los Aldeanos. A atuação no hip-hop rolou na dupla com o Lucas Santana, amigo de escola. “Em 2012 eu comecei o PTZ com o ele”, me disse. “A gente foi pra Bolívia em 2014 com um EP de seis músicas.”

Após a turnê independente, eles decidiram construir um estúdio próprio. A base da dupla e do coletivo passou a ser o último cômodo da casa que Bryan divide com mais de dez pessoas de sua família. Um detalhe ampliado da trama paulistana que recebe um fluxo de imigrantes latinos cada vez maior desde os anos 90. O Consulado Boliviano estima que sua comunidade tenha 350 mil habitantes somente em São Paulo – um número bem acima dos trinta mil bolivianos listadas pelo Censo Demográfico do IBGE de 2010 na capital.

Entre uma rima e outra, as minas do Santa Mala checavam o cabelo na lente dos óculos ou na tela do celular.

A rapper, la rapera

O Lucas começou a aprender espanhol quando esteve em La Paz. Ele nada sabia da língua ou da vida dos bolivianos no Brasil antes de conhecer o Bryan, a feira da Kantuta e o rap latino. “Eu não tinha noção nenhuma de boliviano, peruano”, me disse ele. “Pra mim só tinha o Brasil.” Hoje ele canta no idioma do amigo, tira onda com os parceiros do Latam Esquad e fica impressionado com a levada da Pamela Llanque durante um freestyle rolando no estúdio.

Pudera: a moça improvisava em espanhol sobre a base de “O Quinto Vigia” do Ndee Naldinho. Ela, Jhennyfer e Abigail são as irmãs que formam o Santa Mala. Todas nasceram na Bolívia. Jhennyfer, a mais velha, chegou ao Brasil em 2001. As mais novas vieram seis anos depois. A história delas soa como uma letra sabida de cór e salteado não fosse o desfecho atual. “Como todo boliviano, a gente chega na costura”, explicou. “Mas agora a gente tem um negócio próprio e trabalha na Feirinha da Madrugada”

A relação do trio com música vem da terra natal. As três gostavam de rap desde criança. Na adolescência, passaram a frequentar o restrito círculo de hip-hop de La Paz dividindo espaço com a música eletrônica. O passo para as rimas, músicas e primeiras gravações foi natural, assim como o olhar desconfiado do público masculino nos eventos. “A discriminação acontecia na Bolívia toda”, lembrou Jhennyfer. “Mas a gente permanecia muito forte.”

Hoje, ela diz que seus amigos de lá perguntam quando elas farão novas apresentações em La Paz. “No Brasil a gente voltou mais forte com o Santa Mala!”, explicou. A união com o Latam Esquad já resultou na primeira gravação, a faixa “19 De Diciembre”. A letra conta a história de uma mãe solteira em tom autobiográfico. Para se dedicarem a vida de rapera, Jhennyfer e Pamela tem de encontrar um tempo entre cuidar dos filhos e trabalhar no sustento da casa. “Se a gente gosta do rap, tem que ser foda”, finalizou a mais velha.

O nome La Mil 8 Crew tem a ver com a lei 1008 antidrogas da Bolívia; da esquerda pra direita: Cristian e Ivan Quisber, Luis Calisaya e Gustavo Ajuacho.

É o rap, el rap

La Mil 8 Crew e o Sujos Clã são lados diferentes do mesmo Latam Esquad. Um é formado pelos bolivianos Gustavo Ajuacho, Luis Calisaya e os irmãos Ivan e Luis Quisber; o outro é formado pelos brasileiros Bruno Pasquim e Danilo Biancardi. Um pouco fala português; o outro pouco fala espanhol. E juntos eles se entendem entre um improviso, uma batalha de rima ou um gole no vinho barato – que chegava ao fim àquela altura da conversa. O Bruno cuida das bases. “Eu sampleio de tudo”, disse ele. “E se tiver ruim eu dou reverse.”

As batidas dele vão parar no computador do Bryan e vice-versa. Os vocais captados na pequena sala acústica entram por cima. As máquinas que eles compraram com a grana do trabalho gravam os CDs. O que não é vendido de mão em mão vai parar na barraca do Ivan – ele vende CDs piratas de música. Para os próximos meses, as irmãs do Santa Mala vão confeccionar roupas do coletivo com suas próprias máquinas. E até o fim do ano o Bryan quer colocar na rua um álbum com todo mundo Latam Esquad.

A correria típica de qualquer grupo independente deixa evidente duas coisas: a ingenuidade no discurso das letras e a crueza na forma das músicas. Por enquanto, isso não importa. A proposta do coletivo coloca a molecada ali entre os primórdios do hip-hop e o nascimento do Cypress Hill na Los Angeles dos anos 90, cuja população latina chegava a um terço do total da cidade. Um lugar que diminui as distâncias da América Latina na São Paulo que acolhe, com pouca gentileza, gente do mundo todo.

Contando ainda com o peruano Paul Pacheco e o brasileiro Egon, o Latam Esquad faz o Bryan sonhar altiplano. Ele quer levar o coletivo para La Paz depois de conquistar o Brasil. “Eu vejo o hip-hop como uma maneira de unir culturas e pessoas”, me disse ele. “E é a forma que gente tem para aproximar latinos e brasileiros porque as pessoas ficam curiosas e a curiosidade é o primeiro passo para a compreensão.” Eu mesmo estava sacando mais o que eles diziam no fim da noite. Culpa da bebida, da conversa ou da curiosidade? No lo sé.

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